domingo, 2 de março de 2014

RELATOS NA PRIMEIRA PESSOA

   
                            QUADRO  I

             A vida é realmente imprevisível e cruel.

              Ruth é o meu nome.  Terminei, há pouco, a minha refeição solitária.   Nasci só!...Cresci só!...E, irei terminar irremediàvelmente só!.
             Tento  colmatar esta solidão com a leitura dum livro que alguém me ofereceu pelo Natal.  Tento mas não consigo. Interrompo a cada meio de linha...fico em suspenso e, dou comigo a viajar ao passado. O livro narra a história de uma avó e uma neta, unha e carne, nos bons e maus momentos.
              Dou um salto de gazela aos anos cincoenta. O meu cerebro, sempre atento e serviçal, focaliza um momento digno de ser imortalizado num quadro - talvez de Malhoa - que tão bem interpretava a vida do povo.

              ?? Uma cozinha grande, espaçosa, antiga, própria de uma família numerosa.  Uma chaminé de poial.   Num canto a avó, alta, magra, elegante - apesar dos seus quase noventa anos ; vestia de preto pela perda do marido e de alguns filhos..  Criara nove dos quais ainda lhe sobreviviam cinco.  Três filhas e dois filhos.
              Atravessara duas guerras ditas mundiais: a de 1914/1918 e a de 1939/1945.  Como grande matriarca que era geriu património, orientou a vida, ajudou quem dela precisava enquanto o marido e dois dos filhos combatiam lá longe.  Tão longe!!!  Longe da vista mas perto do coração que sempre acreditou
no regresso.
              Era estimada em todo o bairro onde a uns alimentava o corpo e a outros a alma com a sua fé, inabalável, em Santa Maria Adelaide, de Arcozêlo.
   
              Thereza de Jesus era o seu nome...Tinha nas veias a força do mar de Ovar, onde nascera.
               E, ali estava ela.  A malga da sopa na mão esquerda, em concha.  Na direita a colher que esquecia frequentemente o caminho da boca...por instantes de reflexão....

               A meio da enorme cozinha, numa mesa de mogno, bem antiga, posta com pormenores de requinte, uma das filhas, o genro e os netos ( um rapaz e uma rapariga ) davam caminho a uma opípara refeição.   Estavam todos bem na vida!  Cheirava de fazer crescer "água na boca "

                Eu cheguei pela mão do meu pai e corri a aninhar-me nos joelhos da minha avó pois não tinha o previlégio de estar com ela todos os dias como a grande maioria dos meus primos.  E, dali fiquei a observar a " festa " feita ao meu pai e os convites de " senta-te aí...almoça connosco...chega para todos ...." e a mentira do meu pai ao dizer um " não, obrigado!  Nós já almoçamos...vim só dar um abraço e um beijo à mãe...."
               Que " grande " que " digno " era o meu pai!...

               Foi a última vez que tive o prazer de estar assim..ali..aconchegada no seu colo!...

               Comigo guardo religiosamente a sua fotografia como se fosse a imagem do meu anjo protector.
               Sempre quiz ser como ela.  Herdei-lhe o caracter, a determinação e por certo a solidão.

               Querida avó!  Ainda hoje te fui visitar àquele cantinho escuro...sem volta.  E, se "ontem" estavas
" só " hoje tens, há 37 anos feitos precisamente neste dia, a eterna companhia do meu pai na mesma        
" morada de família " onde atempadamente me juntarei a vocês.  Até um dia Avó!  Até um dia Pai!

P. S.----Levei-vos flores de jarro, branquinhas!   Sei que gostavas e o meu pai também!
              Com todo o meu eterno amor.....


               


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