quinta-feira, 8 de maio de 2014
PARA ALÉM DA VIDA
Foram tantos anos duma amizade sã, pura, leal, os que partilhámos, lá longe, em terras que não eram nossas. Vivemos dias bons e dias maus! Comungámos alegrias! Repartimos ansiedades! Apertámos as mãos! Démos abraços! Festejámos tanta coisa boa!
Mas nada é eterno. Tudo acaba um dia. É difícil aceitar mas tem de ser. Porém, os laços que criámos não se desatam assim tão fàcilmente. Quando são verdadeiros...sinceros...perduram para além da morte.
Doeu muito vê-la partir.
Quem sabe se não voltaremos a encontrar-nos um dia?!
É nessa esperança, comum a todos que acreditam em algo mais para al´em deste tempo passageiro,
que aqui deixo - não um adeus - mas um até breve, Amiga!
domingo, 2 de março de 2014
RELATOS NA PRIMEIRA PESSOA
QUADRO I
A vida é realmente imprevisível e cruel.
Ruth é o meu nome. Terminei, há pouco, a minha refeição solitária. Nasci só!...Cresci só!...E, irei terminar irremediàvelmente só!.
Tento colmatar esta solidão com a leitura dum livro que alguém me ofereceu pelo Natal. Tento mas não consigo. Interrompo a cada meio de linha...fico em suspenso e, dou comigo a viajar ao passado. O livro narra a história de uma avó e uma neta, unha e carne, nos bons e maus momentos.
Dou um salto de gazela aos anos cincoenta. O meu cerebro, sempre atento e serviçal, focaliza um momento digno de ser imortalizado num quadro - talvez de Malhoa - que tão bem interpretava a vida do povo.
?? Uma cozinha grande, espaçosa, antiga, própria de uma família numerosa. Uma chaminé de poial. Num canto a avó, alta, magra, elegante - apesar dos seus quase noventa anos ; vestia de preto pela perda do marido e de alguns filhos.. Criara nove dos quais ainda lhe sobreviviam cinco. Três filhas e dois filhos.
Atravessara duas guerras ditas mundiais: a de 1914/1918 e a de 1939/1945. Como grande matriarca que era geriu património, orientou a vida, ajudou quem dela precisava enquanto o marido e dois dos filhos combatiam lá longe. Tão longe!!! Longe da vista mas perto do coração que sempre acreditou
no regresso.
Era estimada em todo o bairro onde a uns alimentava o corpo e a outros a alma com a sua fé, inabalável, em Santa Maria Adelaide, de Arcozêlo.
Thereza de Jesus era o seu nome...Tinha nas veias a força do mar de Ovar, onde nascera.
E, ali estava ela. A malga da sopa na mão esquerda, em concha. Na direita a colher que esquecia frequentemente o caminho da boca...por instantes de reflexão....
A meio da enorme cozinha, numa mesa de mogno, bem antiga, posta com pormenores de requinte, uma das filhas, o genro e os netos ( um rapaz e uma rapariga ) davam caminho a uma opípara refeição. Estavam todos bem na vida! Cheirava de fazer crescer "água na boca "
Eu cheguei pela mão do meu pai e corri a aninhar-me nos joelhos da minha avó pois não tinha o previlégio de estar com ela todos os dias como a grande maioria dos meus primos. E, dali fiquei a observar a " festa " feita ao meu pai e os convites de " senta-te aí...almoça connosco...chega para todos ...." e a mentira do meu pai ao dizer um " não, obrigado! Nós já almoçamos...vim só dar um abraço e um beijo à mãe...."
Que " grande " que " digno " era o meu pai!...
Foi a última vez que tive o prazer de estar assim..ali..aconchegada no seu colo!...
Comigo guardo religiosamente a sua fotografia como se fosse a imagem do meu anjo protector.
Sempre quiz ser como ela. Herdei-lhe o caracter, a determinação e por certo a solidão.
Querida avó! Ainda hoje te fui visitar àquele cantinho escuro...sem volta. E, se "ontem" estavas
" só " hoje tens, há 37 anos feitos precisamente neste dia, a eterna companhia do meu pai na mesma
" morada de família " onde atempadamente me juntarei a vocês. Até um dia Avó! Até um dia Pai!
P. S.----Levei-vos flores de jarro, branquinhas! Sei que gostavas e o meu pai também!
Com todo o meu eterno amor.....
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