O MAIS BELO NATAL
O pai morrera no mar. Desesperada, a mãe abandonara-o pequenino e partira.
Ninguém mais ouviu falar dela. Recolhido por uns vizinhos, Zé João foi crescendo entre mar e céu, embalado na cadência das ondas..A aldeia era extremamente pobre. Como ficava um pouco desviada da estrada nacional e os acessos eram difíceis, ali não vinham nunca quaisquer visitantes. Não chegavam, por assim dizer, notícias de fora.
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Estava frio a valer naquela noite! A chuva caía miudinha e impiedosa a fustigar as tábuas do casebre
em cujas frinchas o vento gemebundo assobiava.
Há muito que Zé João adormecera, entregue ao maravilhoso descuido dos seus oito anos fraquitos e espigados.
Alguém bateu á porta. Sobressaltada, Ti Zulmira, a pele curtida pela salmoura e os olhos meio encovados, ergueu-se num repente como se temesse qualquer coisa. Hesitou. Mas logo, resoluta, foi abrir.
No limiar da porta mal iluminada pela luz bruxuleante da candeia recortou-se um vulto de homem ainda
novo. Estava ligeiramente molhado.
- Tiazinha, não há possibilidade de eu passar aqui umas horas? Vou para longe. Pensei fazer esta viagem de noite. Não conheço bem a estrada e, na escuridão desviei-me do caminho. Temo perder-me outra vez e se pudesse ficar aqui...amanhã de manhã, muito cedinho, já poderia seguir viagem.
- Não poderá facultar-me o abrigo que necessito?
- Entre, meu senhor! Mas olhe que isto é muito pobre... nem sequer terá uma cama digna para se deitar.
- Mas terei um teto a proteger-me da frialdade da noite...
E entrou!
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Sentado ao pé do fogo que ardia sobre uma tosca pedra em jeito de lareira, aquele homem contou a sua história.
Tinha um filhinho doente, lá para as faldas da serra, a ares. Ele andava por fora, em serviço mas queria passar com ele o Natal. O Natal de que o filho tanto gostava. Levava-lhe brinquedos: um automóvel de corda, um barquinho de velas brancas... Como ele ia ficar contente! O seu menino.. tão doentinho... lá longe naquela quinta entre pinhais.
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Embora adormecido, Zé João acabou por se aperceber da presença do desconhecido. Entreabriu os
olhos mas virou-se para o outro lado, recaíu numa quase inconsciência que, no entanto, lhe permitiu apreender uma ou outra palavra da conversa.
Como seria o Natal em casa daquele homem? Quem seria o menino de quem falavam?
Ele nunca tinha tido o seu Natal....
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Pela frincha mal calafetada que ficava mesmo rente à alcova, Zé João viu brilhar uma estrelinha pequenina... e pareceu-lhe que a estrela o chamava nessa noite de breu.
- Zé João!...Zé João!... Vem comigo....
e o Zé estendeu a mãozinha enregelada pelo frio da noite à estrela escaldante
mas o que ele apertou não foi um raio de luz mas sim outra mãozinha pequenina como a sua. Zé João estremeceu.
- Não tenhas medo! Vem. sou eu que te chamo, o Menino Jesus!. Também estou sózinho como tu.
Na terra os meninos só se lembram de mim para me pedirem coisas boas mas. ingratos, logo que as- têm
esquecem-me por completo.
Vem, não tenhas medo. Vamos brincar para casa do meu pai teremos neve a valer e estrelas verda-
deiras na nossa Árvore de Natal.. e muitos anjinhos loiros... Vem, Zé João! Vem por aqui...
- E terei um barquinho como há na aldeia para eu andar no mar? Um barco grande para eu me meter dentro?
- Terás um mais lindo, ainda, com velas branquinhas de luar.
. Verdade?
- Tem fé! Confia e espera.
- Mas eu depois não sei conduzi-lo; sou tão pequenino, ó Jesus...
. O Pai te guiará... entrega-te à sua guarda e serás grande...
- Tu tens pai?
- Tenho!. Todos nós temos pai, Zé João!....
- Todos não! Eu não tenho...
- Segue em frente! Ergue a tua fronte bem alto. Que não tenhas nunca motivo para a baixares...
se fores digno e bom, encontrarás teu pai. Está lá em cima! ergue-te da lama do mundo!
- Sobe até Ele e vê-lo-às...
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- É seu o pequenito?
-Não, meu senhor! - e a ti Zulmira contou ao seu hóspede de uma noite, a triste história do pobre
ZÉ João.
- Como ele dorme!...coitadinho!... Faz-me lembrar o meu filho. Parece um anjo.
- Um anjo? Assim tisnado, meu senhor?
- A cor não importa, tiazinha; olhe como ele sorri mesmo dormindo..... talvez sonhe com o seu Natal.
Com o despertar de amanhã...
- Natal!! Ele sabe lá o que isso é, meu senhor? O pobrezinho nunca teve Natal... nunca teve um brinquedo. Brinca com a areia da praia e com as conchas do mar... e já não é pouco... Somos muito pobres....
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A manhã era ainda uma criança quando aquele desconhecido se despediu da Ti Zulmira que, pelo atalho o reconduziu à estrada, depois de ter tirado o carro do lameiro onde os pneus da frente se tinham
atolado.
O motor roncou ao longe na curva da estrada e ti Zulmira, enxugando uma lágrima furtiva, afagou, na palma da mão encarquilhada e seca as moedas que ele lhe dera ao partir.
Voltou para trás. Encostada à ombreira da porta carcomida pelos anos, sonhou como poderia ser
diferente para eles aquele dia de Natal se não fossem realmente tão pobres.
Um gargalhar feliz a despertou.
- Que é isso, Zé João?
- Avó...Venha ver! foi o Jesus quem mo deu..... Eu fui ao Céu esta noite, com Ele, e brinquei muito, avó... e Ele disse-me que me dava o barquinho.... Não é lindo..avó!?
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Sobre a manta esburacada do catre, entre papeis coloridos, já rasgados, um pequeno barco alvejava.
Era tarde para lhe agradecer. Ele há muito que partira. Mas mesmo assim, de lágrimas a queimarem-lhe os olhos, ti Zulmira murmurou emocionada:
- - Que Deus o proteja e lhe cure depressa o filhinho doente.....
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