domingo, 22 de dezembro de 2013

O MAIS BELO NATAL

O MAIS BELO NATAL

    O pai morrera no mar.  Desesperada, a mãe abandonara-o pequenino e partira.
    Ninguém mais ouviu falar dela.  Recolhido por uns vizinhos, Zé João foi crescendo entre mar e céu, embalado na cadência das ondas..A aldeia era extremamente pobre.  Como ficava um pouco desviada da estrada nacional e os acessos eram difíceis, ali não vinham nunca quaisquer visitantes.  Não chegavam, por assim dizer, notícias de fora.
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    Estava  frio a valer naquela noite!  A chuva caía miudinha e impiedosa a fustigar as tábuas do casebre
em cujas frinchas o vento gemebundo assobiava.  
    Há muito que Zé João adormecera, entregue ao maravilhoso descuido dos seus oito anos fraquitos e espigados.

    Alguém bateu á porta.  Sobressaltada, Ti Zulmira, a pele curtida pela salmoura e os olhos meio encovados, ergueu-se num repente como se temesse qualquer coisa.  Hesitou.  Mas logo, resoluta, foi abrir.
     No limiar da porta mal iluminada pela luz bruxuleante  da candeia recortou-se um vulto de homem ainda
novo. Estava ligeiramente molhado.
   
     - Tiazinha, não há possibilidade de eu passar aqui umas horas? Vou para longe.  Pensei fazer esta viagem de noite.  Não conheço bem a estrada e, na escuridão desviei-me do caminho.  Temo perder-me outra vez e se pudesse ficar aqui...amanhã de manhã, muito cedinho, já poderia seguir viagem.
    - Não poderá  facultar-me o abrigo que necessito?

   -  Entre, meu senhor!  Mas olhe que isto é muito pobre... nem sequer terá uma cama digna para se deitar.

   -  Mas terei um teto a proteger-me da frialdade da noite...
   E entrou!
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 Sentado ao pé do fogo que ardia sobre uma tosca pedra em jeito de lareira, aquele homem contou a sua história.
       Tinha um filhinho doente,  lá para as faldas da serra, a ares.  Ele andava por fora, em serviço mas queria passar com ele o Natal.  O Natal de que o filho tanto gostava.  Levava-lhe brinquedos:  um automóvel de corda, um barquinho de velas brancas...  Como ele ia ficar  contente!  O seu menino.. tão doentinho... lá longe naquela quinta entre pinhais.

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        Embora adormecido, Zé João acabou por se aperceber da presença do desconhecido. Entreabriu os
olhos mas virou-se para o outro lado, recaíu numa quase inconsciência que, no entanto, lhe permitiu apreender uma ou outra palavra da conversa.

        Como seria o Natal em casa daquele homem?  Quem seria o menino de quem falavam?
  Ele nunca tinha tido o seu Natal....

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        Pela frincha mal calafetada que ficava mesmo rente à alcova, Zé João viu brilhar uma estrelinha pequenina... e pareceu-lhe que a estrela  o chamava nessa noite de breu.
       - Zé João!...Zé João!... Vem comigo....
       e o Zé estendeu a mãozinha enregelada pelo frio da noite à estrela escaldante
mas o que ele apertou não foi um raio de luz mas sim outra mãozinha pequenina como a sua.  Zé João estremeceu.
        - Não tenhas medo!  Vem. sou eu que te chamo, o Menino Jesus!.  Também estou sózinho como tu.
Na terra os meninos só se lembram de mim para me pedirem coisas boas mas. ingratos, logo que as- têm
esquecem-me por completo.
         Vem, não tenhas medo. Vamos brincar para casa do meu pai  teremos neve a valer e estrelas verda-
deiras na nossa Árvore de Natal.. e muitos anjinhos loiros...  Vem, Zé João!  Vem por aqui...

       - E terei um barquinho como há na aldeia para eu andar no mar?  Um barco grande para eu me meter dentro?
       - Terás um mais lindo, ainda, com velas branquinhas de luar.
       .  Verdade?
       - Tem fé!  Confia e espera.
       - Mas eu depois não sei conduzi-lo;  sou tão pequenino, ó Jesus...
       . O Pai te guiará... entrega-te à sua guarda e serás grande...
       - Tu tens pai?
       - Tenho!.  Todos nós temos pai, Zé João!....
       - Todos não!  Eu  não tenho...
       - Segue em frente!  Ergue a tua fronte bem alto. Que não tenhas nunca  motivo para a baixares...
       se fores digno e bom, encontrarás teu pai.  Está lá em cima!  ergue-te da lama do mundo!
       - Sobe até Ele e vê-lo-às...

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       - É seu o pequenito?
       -Não, meu senhor!  - e a ti Zulmira contou ao seu hóspede de uma noite, a triste história do pobre
    ZÉ João.
     
       - Como ele dorme!...coitadinho!...  Faz-me lembrar o meu filho.  Parece um anjo.
       - Um anjo?  Assim tisnado, meu senhor?
       - A cor não importa, tiazinha;  olhe como ele sorri mesmo dormindo..... talvez sonhe com o seu Natal.
Com o despertar de amanhã...

      - Natal!!   Ele sabe lá o que isso é, meu senhor? O pobrezinho nunca teve Natal... nunca teve um brinquedo.  Brinca com a areia da praia e com as conchas do mar... e já não é pouco... Somos muito pobres....

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        A manhã era ainda uma criança quando aquele desconhecido se despediu da Ti Zulmira que, pelo atalho o reconduziu à estrada, depois de ter tirado o carro do lameiro onde os pneus da frente se tinham
atolado.
        O motor roncou ao longe na curva da estrada e ti Zulmira, enxugando uma lágrima furtiva, afagou, na palma da mão encarquilhada e seca as moedas que ele lhe dera ao partir.

         Voltou para trás.  Encostada à ombreira da porta carcomida pelos anos, sonhou como poderia ser
diferente para eles aquele dia de Natal se não fossem realmente tão pobres.
         Um gargalhar feliz a despertou.
        - Que é isso, Zé João?
        - Avó...Venha ver!   foi o Jesus quem mo deu..... Eu fui ao Céu esta noite, com Ele, e brinquei muito, avó... e Ele disse-me que me dava  o barquinho....  Não é lindo..avó!?


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         Sobre a manta esburacada do catre, entre papeis coloridos, já rasgados, um pequeno barco alvejava.
       
         Era tarde para lhe agradecer.  Ele há muito que partira.  Mas mesmo  assim, de lágrimas a queimarem-lhe os olhos, ti Zulmira murmurou emocionada:
       
-        -  Que Deus o proteja e lhe cure depressa o filhinho doente.....











     




   

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