sexta-feira, 27 de setembro de 2013

ONTEM FOI VERÂO

ONTEM FOI VERÂO

   A casa estava vazia.
   Os filhos que em temos haviam riscado o parquet com os patins, com as botas grossas enlameadas ao voltar da escola, que haviam desarrumado livros, discos e revistas, que haviam dado tanto trabalho à velha aparelhagem, estavam longe...
   A Ana despegada de sentimentalismos partira para a Suíça a tirar um curso e por lá ficara.. Mandava um postal pelos anos e outro pelo Natal..
   O Carlos depois da Guerra de África deixou-se conquistar pelos feitiços do continente e, na primeira oportunidade voltou e fixou-se com a mulher, pois entretanto casara, na Àfrica do Sul.   Estavam bem e já tinham vindo de férias três ou quatro vezes.
   A Nita, ficara por mais perto.  Optara pelo Porto para cursar jornalismo.   Lá fixou  o seu quartel general,
donde partia para as suas missões.  De vez em quando, de passagem, batia ao ferrolho,  dava um beijo à
mãe e voltava correndo atrás de qualquer notícia sensacional.

   O Luís, o seu Luís, partira uma tarde de fim de Outono, vitimado por aquela maldita doença que não
perdoa.   Ao menos não sofreu..  Ficou-se que nem um passarinho.  E ela ficou... ficou sózinha com  a sua
dor e depois com a sua saudade.

   A dor cicatrizou como ferida de operação e a saudade vem visitá-la de vez em quando para mitigar a sua solidão.

   Fizera sessenta anos. O correio trouxera-lhe, como prenda, uma fotografia do Jorge Luis  - filho do Carlos, - recém nascido, com um convite para ir a Pretória assistir ao batizado...Ficou comovida. Quase
sentia o calor daquele corpinho no seu braço.  Iniciou um movimento de embalar enquanto ensaiava uma das muitas canções que costumava cantar frente ao espelho.

   Encarou com a sua imagem  reflectida a denunciar aquele devaneio.  Inconscientemente passou a mão pelos cabelos, desceu a ponta dos dedos pelo rosto, à  volta dos olhos, pelos malares, contornando o queixo..  Ainda era uma bela mulher.  Há muito deixara no fundo da gaveta a caixa das sombras, o blush,
o rimel..  Só o batom não pusera de lado porque o seu Luis não gostava de a ver de lábios descorados.
Era como  uma homenagem a  esse inesquecível companheiro de tantos anos.

  Teve a curiosidade de ver como ainda ficaria maquilhada.  Fez uma pintura levezinha.  Nunca gostara de
caras de palhaço... Soltou o cabelo como outrora.  Viu-se quinze anos antes....

   Nesse dia todos tinham uma surpresa:  ela comprara um bonito relógio para o seu Luis...
   Ele chegou atrasado como sempre carregando um grande ramo de rosas vermelhas e um ar misterioso
pensando que ela não se lembrava...
   Os filhos - ainda todos juntos - haviam preparado uma festinha inesquecível:    um jantar maravilhoso, um
par de alianças de prata e calculem dois bilhetes para o teatro e a reserva de um quarto no melhor hotel
da cidade.   As bodas de prata dos seus queridos pais mereciam tudo isso, explicaram eles.  Nunca poderia esquecer esse episódio feliz da sua vida.

   Olhou-se no espelho.  Primeiro a medo como se temesse não conhecer a imagem reflectida.  depois com curiosidade e por fim com satisfação pois não lhe desagradava a mulher que ainda era:  esclarecida, culta,
enxuta de carnes, com aspecto saudável e agradável à vista.

   É! - pensou - sou uma velha elegante... Mas, pensando bem, como mulher sensata que sempre foste não achas que estás um pouco despropositada?... Não tens mais os quarenta e cinco anos da tua segunda noite
de núpcias...

   O Outono da vida está aí, sereno, suave, calmo como uma tarde de Setembro.

    O Verão embora não distante, já foi ontem!...

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