ONTEM FOI VERÂO
A casa estava vazia.
Os filhos que em temos haviam riscado o parquet com os patins, com as botas grossas enlameadas ao voltar da escola, que haviam desarrumado livros, discos e revistas, que haviam dado tanto trabalho à velha aparelhagem, estavam longe...
A Ana despegada de sentimentalismos partira para a Suíça a tirar um curso e por lá ficara.. Mandava um postal pelos anos e outro pelo Natal..
O Carlos depois da Guerra de África deixou-se conquistar pelos feitiços do continente e, na primeira oportunidade voltou e fixou-se com a mulher, pois entretanto casara, na Àfrica do Sul. Estavam bem e já tinham vindo de férias três ou quatro vezes.
A Nita, ficara por mais perto. Optara pelo Porto para cursar jornalismo. Lá fixou o seu quartel general,
donde partia para as suas missões. De vez em quando, de passagem, batia ao ferrolho, dava um beijo à
mãe e voltava correndo atrás de qualquer notícia sensacional.
O Luís, o seu Luís, partira uma tarde de fim de Outono, vitimado por aquela maldita doença que não
perdoa. Ao menos não sofreu.. Ficou-se que nem um passarinho. E ela ficou... ficou sózinha com a sua
dor e depois com a sua saudade.
A dor cicatrizou como ferida de operação e a saudade vem visitá-la de vez em quando para mitigar a sua solidão.
Fizera sessenta anos. O correio trouxera-lhe, como prenda, uma fotografia do Jorge Luis - filho do Carlos, - recém nascido, com um convite para ir a Pretória assistir ao batizado...Ficou comovida. Quase
sentia o calor daquele corpinho no seu braço. Iniciou um movimento de embalar enquanto ensaiava uma das muitas canções que costumava cantar frente ao espelho.
Encarou com a sua imagem reflectida a denunciar aquele devaneio. Inconscientemente passou a mão pelos cabelos, desceu a ponta dos dedos pelo rosto, à volta dos olhos, pelos malares, contornando o queixo.. Ainda era uma bela mulher. Há muito deixara no fundo da gaveta a caixa das sombras, o blush,
o rimel.. Só o batom não pusera de lado porque o seu Luis não gostava de a ver de lábios descorados.
Era como uma homenagem a esse inesquecível companheiro de tantos anos.
Teve a curiosidade de ver como ainda ficaria maquilhada. Fez uma pintura levezinha. Nunca gostara de
caras de palhaço... Soltou o cabelo como outrora. Viu-se quinze anos antes....
Nesse dia todos tinham uma surpresa: ela comprara um bonito relógio para o seu Luis...
Ele chegou atrasado como sempre carregando um grande ramo de rosas vermelhas e um ar misterioso
pensando que ela não se lembrava...
Os filhos - ainda todos juntos - haviam preparado uma festinha inesquecível: um jantar maravilhoso, um
par de alianças de prata e calculem dois bilhetes para o teatro e a reserva de um quarto no melhor hotel
da cidade. As bodas de prata dos seus queridos pais mereciam tudo isso, explicaram eles. Nunca poderia esquecer esse episódio feliz da sua vida.
Olhou-se no espelho. Primeiro a medo como se temesse não conhecer a imagem reflectida. depois com curiosidade e por fim com satisfação pois não lhe desagradava a mulher que ainda era: esclarecida, culta,
enxuta de carnes, com aspecto saudável e agradável à vista.
É! - pensou - sou uma velha elegante... Mas, pensando bem, como mulher sensata que sempre foste não achas que estás um pouco despropositada?... Não tens mais os quarenta e cinco anos da tua segunda noite
de núpcias...
O Outono da vida está aí, sereno, suave, calmo como uma tarde de Setembro.
O Verão embora não distante, já foi ontem!...
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
terça-feira, 3 de setembro de 2013
TEMPESTADE EM DIA DE SOL
TEMPESTADE EM DIA DE SOL
Estava um dia de Sol. Quente. Abrasador.
Setembro dava os primeiros passos a caminho do Outono.
Maria tremia como se fosse Inverno. Debaixo dos seus pés " pressentia " aquele rugir de
comboio enfurecido a correr, desgovernado, nos carris como naquela noite do último sismo.
Teve tanto medo... pensou que o fim chegara e saltando da cama só conseguiu dizer:
--Protege-nos, Senhor, se essa for a Tua vontade....
E ficou, quieta, pregada ao mosaico da sala, tentando adivinhar se algo de mau teria aconteci
do para lá daquela janela onde o pequeno quarto crescente da lua era um pronúncio de espe
rança.
E, graças a Deus nada acontecera. Tudo não passara de um grande susto.
Os meses correram, os anos passaram, as andorinhas partiram e tornaram a vir, fizeram
novos ninhos e a vida continuou...
..........................................................................................................................................
Hoje, também era Setembro. Hoje também o calor quase gelou. Hoje o Sol foi engolido
pela nuvem de fumo daquele incêndio que "voluntáriamente" ateaste sem dó, piedade ou
consciência.
E tu, certo do mal que fazias, tinhas coragem de confessar:
---Teve de ser assim...não havia outra maneira....e tu sabes que de outra forma não
daria...
Maria tremeu, dos pés à cabeça. Viu-se lenha daquela fogueira. Viu-se água a jorrar dos
olhos embaciados pelo fumo. viu-se no fundo daquela ribanceira que a tentava. A noite
tombou. Maria olhou para o céu. Quis enxergar a lua e questionar o seu Deus:
--- Tinha mesmo de ser assim?
Seja feita a tua vontade! Perdoa, meu pai. Eu sempre confiei em ti e tu em mim...
Lá em cima, numa estreita nesga de céu, quase imperceptível, uma muito muito fininha e
minguante lua teve a coragem de sorrir e sussurrar baixinho " quero que cresças comigo"...
....................................................................................................................................
E, Maria, apesar do seu sofrimento, teve a coragem de sorrir para a lua, acenar-lhe com
dois dedos em sinal de vitória, enviar-lhe de longe um beijo e murmurar convicta:
---- Espera por mim! Deixa-me vencer esta tristeza! Ajuda-me a crescer e ainda vamos ser
grandes amigas. Ambas somos sonhadoras, lutadoras, temos poesia no coração, sofremos
muitas vezes por amor mas seremos triunfantes......
e
Estava um dia de Sol. Quente. Abrasador.
Setembro dava os primeiros passos a caminho do Outono.
Maria tremia como se fosse Inverno. Debaixo dos seus pés " pressentia " aquele rugir de
comboio enfurecido a correr, desgovernado, nos carris como naquela noite do último sismo.
Teve tanto medo... pensou que o fim chegara e saltando da cama só conseguiu dizer:
--Protege-nos, Senhor, se essa for a Tua vontade....
E ficou, quieta, pregada ao mosaico da sala, tentando adivinhar se algo de mau teria aconteci
do para lá daquela janela onde o pequeno quarto crescente da lua era um pronúncio de espe
rança.
E, graças a Deus nada acontecera. Tudo não passara de um grande susto.
Os meses correram, os anos passaram, as andorinhas partiram e tornaram a vir, fizeram
novos ninhos e a vida continuou...
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Hoje, também era Setembro. Hoje também o calor quase gelou. Hoje o Sol foi engolido
pela nuvem de fumo daquele incêndio que "voluntáriamente" ateaste sem dó, piedade ou
consciência.
E tu, certo do mal que fazias, tinhas coragem de confessar:
---Teve de ser assim...não havia outra maneira....e tu sabes que de outra forma não
daria...
Maria tremeu, dos pés à cabeça. Viu-se lenha daquela fogueira. Viu-se água a jorrar dos
olhos embaciados pelo fumo. viu-se no fundo daquela ribanceira que a tentava. A noite
tombou. Maria olhou para o céu. Quis enxergar a lua e questionar o seu Deus:
--- Tinha mesmo de ser assim?
Seja feita a tua vontade! Perdoa, meu pai. Eu sempre confiei em ti e tu em mim...
Lá em cima, numa estreita nesga de céu, quase imperceptível, uma muito muito fininha e
minguante lua teve a coragem de sorrir e sussurrar baixinho " quero que cresças comigo"...
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E, Maria, apesar do seu sofrimento, teve a coragem de sorrir para a lua, acenar-lhe com
dois dedos em sinal de vitória, enviar-lhe de longe um beijo e murmurar convicta:
---- Espera por mim! Deixa-me vencer esta tristeza! Ajuda-me a crescer e ainda vamos ser
grandes amigas. Ambas somos sonhadoras, lutadoras, temos poesia no coração, sofremos
muitas vezes por amor mas seremos triunfantes......
e
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