MARIA SOLIDÃO
Tudo voltou como há cinquenta e três anos.: Corria o mês de Maio de l959....
Maria Solidão era uma bela adolescente. Admirada. Cortejada. Desejada. Mas, só. Só, até ao dia em que o balanço das águas do Tejo a balançou contra os teus cabelos brancos e se amparou nos teus braços estendidos com firmeza. O azul que pintava o céu e envolvia o barco confundiu-se com a cor dos vossos olhos. Foi uma inundação de amor sincero, inocente, puro.
Maria deixou de ser Solidão. Virou Maria da Esperança, suspirosa entre maré vasa e maré cheia.
Foi uma luta diária, empolgada, entre o Outono e a Primavera que, um dia capitulou deixando-o triste
mas resignado, certo de que entre eles se estendia um escaldante e longo Verão de muitos milhares de
kilómetros.
Perdidos na ausência pensavam, às vezes, um no outro.
Só, ele cultivou aquele amor e imortalizou-a à sua maneira, sem que ela o soubesse.
Ela, nunca o esqueceu. Um amor assim nunca se esquece... guardou-lhe, no coração o melhor lugar que lá tinha reservado..
As voltas do mundo deixaram-na novamente solitária até ao dia em que descobriu que fora a última paixão que ele acalentara e que iluminara o resto dos seus dias.
Sentiu-se vaidosa. Pequenina. Frágil como da primeira vez em que se viram. Envergonhada mesmo..
Voltou a procurá-lo não na casa onde morara mas na branca casa para onde o tempo e a morte o obrigaram a mudar-se, Sentia-se bem ali, junto dele e, nesses momentos voltava a ter 20 anos. A escrever
outros poemas para ele, a levar-lhe as flores que ele gostava. Lembrava-se das rosas que ele tinha no quintal.
Vermelhas como a paixão que o incendiava. Perfumadas e lindas como as cartas e os versos que escrevia. Cortava-as para ela.
Os extremos tocam-se. Maio de 2012.
Ali estava de novo. De olhos postos na lápide da campa....
Uma coroa de flores pendendo-lhe das mãos´
Dos olhos ainda azuis, cansados, escorriam duas lágrimas que mal lhe permitiam ler o epitáfio que ele próprio escrevera. Era uma mensagem que lhe deixara e que só ela entenderia.
Sorriu como ele gostava. Sacou uma caneta da mala. Acariciou com a ponta dos dedos esguios, a foto, igual a uma que ela tinha e que ele próprio escolhera para ficar ali. Decidida escreveu no cartão, ainda
virgem, que pendia da fita lilás:
" Voltei a ser Maria Solidão. Espera um pouco mais, por mim. Não vou demorar "
Soprou-lhe um beijo, com a mão estendida, depois de ter colocado a coroa sobre a campa e partiu...
Levava no rosto a esperança de que já faltava pouco...para se reencontrarem.
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