quarta-feira, 22 de maio de 2013

MARIA SOLIDÃO

                          MARIA SOLIDÃO

        Tudo voltou como há cinquenta e três anos.:  Corria o mês de Maio de l959....
        Maria Solidão era uma bela adolescente.  Admirada.  Cortejada.  Desejada.  Mas, só.  Só, até ao dia em que o balanço das águas do Tejo a balançou contra os teus cabelos brancos e se amparou nos teus braços estendidos com firmeza.  O azul que pintava o céu e envolvia o barco confundiu-se com a cor dos vossos olhos.  Foi uma inundação de amor sincero, inocente, puro.

       Maria deixou de ser Solidão.  Virou Maria da Esperança, suspirosa entre maré vasa e maré cheia.
       Foi uma luta diária, empolgada, entre o Outono e a Primavera que, um dia capitulou deixando-o triste
mas resignado, certo de que entre eles se estendia um escaldante e longo Verão de muitos milhares de
kilómetros.

       Perdidos na ausência pensavam, às vezes, um no outro.  
       Só, ele cultivou aquele amor e imortalizou-a à sua maneira, sem que ela o soubesse.
       Ela, nunca o esqueceu.  Um amor assim nunca se esquece... guardou-lhe, no coração o melhor lugar que lá tinha reservado..

       As voltas do mundo deixaram-na novamente solitária até ao dia em que descobriu que fora a última paixão que ele acalentara e que iluminara o resto dos seus dias.

      Sentiu-se vaidosa.  Pequenina.  Frágil como da primeira vez em que se viram.  Envergonhada mesmo..
      Voltou a procurá-lo não na casa onde morara mas na branca casa para onde o tempo e a morte o obrigaram a mudar-se,  Sentia-se bem ali, junto dele  e, nesses momentos voltava a ter 20 anos.  A escrever
outros poemas para ele, a levar-lhe as flores que ele gostava.  Lembrava-se das rosas que ele tinha no quintal.
       Vermelhas como a paixão que o  incendiava.  Perfumadas e lindas como as cartas e os versos que escrevia.  Cortava-as para ela.

       Os extremos tocam-se.  Maio de 2012.
        Ali estava de novo.  De olhos postos na lápide da campa....
       Uma coroa de flores pendendo-lhe das mãos´
       Dos olhos ainda azuis, cansados, escorriam duas lágrimas que mal lhe permitiam ler o epitáfio  que ele próprio escrevera.  Era uma mensagem que lhe deixara e que só ela entenderia.
       Sorriu como ele gostava.  Sacou uma caneta da mala.  Acariciou com a ponta dos dedos esguios, a foto, igual a uma que ela tinha e que ele próprio escolhera para ficar ali.   Decidida escreveu no cartão, ainda
virgem, que pendia da fita lilás:

        " Voltei a ser Maria Solidão.  Espera um pouco mais, por mim.  Não vou demorar "

        Soprou-lhe um beijo, com a mão estendida, depois de ter colocado a coroa sobre a campa e partiu...
Levava no rosto a esperança de que já faltava pouco...para se reencontrarem.




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