terça-feira, 9 de abril de 2013


                        UM DIA PARA NÃO ESQUECER
 
        Tinha tentado convencer um amigo a almoçar com ela naquele dia.
         ----  Estava ocupado !....
        ----- Muito agradecida !!! - como diria José Hermano Saraiva.
         Era a única pessoa que desejava por companhia.
       
         Em casa o almoço deveria ser lá para as 15 horas pois o desjejum fora tomado por volta do
         meio dia.
         Normalmente almoçava sempre sózinha mas, aquele era um dia especial.
         Não podendo partilhar a refeição com quem realmente desejava mais valia estar só... mas este só não
         significava isolada.
         Queria sentir pessoas à sua volta, ouvir o bruá de vozes, ter a noção de que ainda havia mundo para
          lá da toca que era a sua casa.  Bem que deveria ter ficado por terras do norte onde o frio do ar
          se esbatia no calor das pessoas simples....
       
          Perguntou-se onde iria almoçar!...
          No espaço XIS não gostava muito do atendimento.   Se ele estivesse ali já tinha um lugar em vista:
          a Pousada do Castelo, entre o verde da serra e os azuis do céu e do rio.   Para ela sózinha era longe
          e deprimente.
          Lembrou-se da Pizaria.   Há anos que não comia uma piza de galinha....
          Fazia-o frequentemente quando o marido era vivo....  Eram muito boas as pizas de então.  Depois
          perdeu-lhe o geito.....

          Estava decidido.  Afinal quando os vivos não nos " curtem " acabamos por voltar ao aconchego dos
          nossos mortos.
          Foi o que ela fez.  Sentou-se, pediu uma piza pequena, de galinha como nos velhos tempos, e uma
          água tónica.   A piza deixou muito a desejar.  Já não é o que era...  o recheio estava bom mas, a
          base, além de fininha estava cozida demais mas....
          Soube-lhe bem......

          Tinha gente à sua volta.  Através dos vidros via o movimento lá fora, o balouçar das árvores.  Para lá
          da estrada onde todos passavam a " correr ", a " abrir " o Parque da cidade parecia abrir-lhe os
          braços, fiel como sempre e dizer:
          ----Vem, senta-te aqui.  Relaxa, respira fundo... esquece os outros... os que não te merecem......
          Olha para dentro de ti.  Não te atraiçoes.   Sobretudo... força, contem-te, não deixes que as lágrimas
          aflorem os teus olhos.
          --- Vem... caminha  sobre a minha relva, olha as águas do lago.  Sorri para as crianças que brincam
         despreocupadamente.
          ----Sobretudo, ergue~te dessa "fossa" não mostres aos outros que estás em baixo.  Não lhes dês,
          nem de longe, nem de perto,a ideia de que te fazem sofrer.
          ----Faz como a Natureza.  Nem o vento, nem a chuva, a neve, o fogo, as enchurradas conseguem
          destruir a imensa força que há nela:  o Sol vem e onde apenas havia ramos nus, desesperados,
          fustigados, o verde da esperança cresce...alastra e, amanhã as flores dirão:
          ----Somos belas e ainda teremos muitos frutos para dar... enquanto a morte não nos levar.....
   
       

Sem comentários:

Enviar um comentário