sexta-feira, 12 de abril de 2013

ENTRE O SONHO E A REALIDADE


               ENTRE O SONHO E A REALIDADE

    O desgaste do seu casamento era evidente.  Um quarto de século! Tanto tempo havia corrido sobre o dia
distante daquela idílica união.  Casara por amor.  Tinha construído uma família mas o edifício começava a desmoronar-se, pedra a pedra.
    Os filhos seguiam as suas vidas, criando os próprios espaços em que ela se sentia apertada.
    O marido era apenas o " seu homem ". o companheiro de habitação.  Perdido o requinte de outrora, as delicadezas habituais foram ficando pelo caminho e, progressivamente, deixara de ser o homem da sua vida.
    Muitas vezes acordava com a desagradável  sensação de ter dormido sòzinha,. embora, entre os lençóis repousasse um homem forte, saudável e sedutor.   Nesses momentos sentia-se deprimida.  Olhava-se ao espelho e pensava "para quê" se ele parecia nem a ver....  O que ele via sempre era a comida a horas, a casa arrumada e as roupas sempre prontas....

    Um dia decidiu-se.  Iria embora, recomeçar a vida noutro lado, por ela e para ela.
    Deu um toque no assunto aos filhos.  Acharam que ela tinha razão e direito à vida que, ao longo de tantos anos transferira para os outros.
    Como era uma pessoa prática com os pés bem assentes na terra começou a preparar tudo arranjando mesmo um emprego pois não queria perder a sua independência financeira.  Apalavrou mesmo um pequeno apartamento para onde se mudaria...
   O antegozo da liberdade fazia já dela outra mulher mais produzida, mais cuidada.  Só então, ao ver-se com outros olhos, reparou que era ainda muito jovem, física e espiritualmente.  Cada dia era uma nova passada para a ruptura conjugal.

    Foi então que o outro apareceu.    Conheciam-se desde pequenos mas tinham-se perdido de vista nos meandros da vida.  E de repente, quando menos esperava, essa mesma vida fez cruzar os seus caminhos.
    As recordações vieram em catadupa e com surpresa constatou que ele gostava dela.  Que nunca a esquecera de todo.  Ia mesmo ao extremo de conservar pequenos " souvenires " que ela lhe dera em gaiata.
A maneira, quase religiosa, com que ele os guardara ao longo de tantos anos, sensibilizou-a.  Comovera-se mesmo!...
   Encontraram-se de fugida, algumas vezes, para um café apressado depois do almoço.  Trocaram alguns telefonemas e ela voltou a sonhar.  Deu em reparar que, na rua, os olhares masculinos ainda se demoravam nela.
   Não quis que ele percebesse que não era feliz nem as suas intenções de se ir embora.  Receou que ele pensasse que o seu aparecimento tinha algo a ver com a sua decisão.  Teve medo que ele tivesse pena dela
e, pena era o que ela não suportaria nunca.  Fez um esforço para ele não perceber.  Fingiu que tudo ia bem.
   Recomeçou a sair com o marido e, pouco a pouco, a vida a dois reentrou numa quase normalidade sem que - verdade se diga - o marido se tivesse apercebido da crise porque o seu lar passara.

   Que ironia tão grande !!!.  O " outro " que parecia ser um perigo, uma ameaça à estabilidade sentimental
daquela mulher, acabou por ser, sem querer e sem disso ter a menor consciência o anjo salvador do seu casamento....

terça-feira, 9 de abril de 2013


                        UM DIA PARA NÃO ESQUECER
 
        Tinha tentado convencer um amigo a almoçar com ela naquele dia.
         ----  Estava ocupado !....
        ----- Muito agradecida !!! - como diria José Hermano Saraiva.
         Era a única pessoa que desejava por companhia.
       
         Em casa o almoço deveria ser lá para as 15 horas pois o desjejum fora tomado por volta do
         meio dia.
         Normalmente almoçava sempre sózinha mas, aquele era um dia especial.
         Não podendo partilhar a refeição com quem realmente desejava mais valia estar só... mas este só não
         significava isolada.
         Queria sentir pessoas à sua volta, ouvir o bruá de vozes, ter a noção de que ainda havia mundo para
          lá da toca que era a sua casa.  Bem que deveria ter ficado por terras do norte onde o frio do ar
          se esbatia no calor das pessoas simples....
       
          Perguntou-se onde iria almoçar!...
          No espaço XIS não gostava muito do atendimento.   Se ele estivesse ali já tinha um lugar em vista:
          a Pousada do Castelo, entre o verde da serra e os azuis do céu e do rio.   Para ela sózinha era longe
          e deprimente.
          Lembrou-se da Pizaria.   Há anos que não comia uma piza de galinha....
          Fazia-o frequentemente quando o marido era vivo....  Eram muito boas as pizas de então.  Depois
          perdeu-lhe o geito.....

          Estava decidido.  Afinal quando os vivos não nos " curtem " acabamos por voltar ao aconchego dos
          nossos mortos.
          Foi o que ela fez.  Sentou-se, pediu uma piza pequena, de galinha como nos velhos tempos, e uma
          água tónica.   A piza deixou muito a desejar.  Já não é o que era...  o recheio estava bom mas, a
          base, além de fininha estava cozida demais mas....
          Soube-lhe bem......

          Tinha gente à sua volta.  Através dos vidros via o movimento lá fora, o balouçar das árvores.  Para lá
          da estrada onde todos passavam a " correr ", a " abrir " o Parque da cidade parecia abrir-lhe os
          braços, fiel como sempre e dizer:
          ----Vem, senta-te aqui.  Relaxa, respira fundo... esquece os outros... os que não te merecem......
          Olha para dentro de ti.  Não te atraiçoes.   Sobretudo... força, contem-te, não deixes que as lágrimas
          aflorem os teus olhos.
          --- Vem... caminha  sobre a minha relva, olha as águas do lago.  Sorri para as crianças que brincam
         despreocupadamente.
          ----Sobretudo, ergue~te dessa "fossa" não mostres aos outros que estás em baixo.  Não lhes dês,
          nem de longe, nem de perto,a ideia de que te fazem sofrer.
          ----Faz como a Natureza.  Nem o vento, nem a chuva, a neve, o fogo, as enchurradas conseguem
          destruir a imensa força que há nela:  o Sol vem e onde apenas havia ramos nus, desesperados,
          fustigados, o verde da esperança cresce...alastra e, amanhã as flores dirão:
          ----Somos belas e ainda teremos muitos frutos para dar... enquanto a morte não nos levar.....