domingo, 17 de março de 2013

TRINTA ANOS DEPOIS

---- Encontraram-se por acaso.  Ele seguia um pouco mais à frente, no passeio do outro lado da rua.
Chamou-lhe a atenção aquele caracteristico geito de levar a mão  no bolso que tanto a irritara anos antes.
Aquela maneira de andar não lhe era estranha; olhou uma vez e outra e outra ainda.  De  repente ele virou-se como se tivesse sido atraído por um imã e os seus olhos encontraram-se.  Foi como se um raio a fulminasse.  Como tinha reflexos rápidos controlou-se  imediatamente e como se nada fosse, continuou em
frente.

------Sem olhar para trás foi ao seu destino. Fez as suas compras e ao virar de uma esquina quase esbarraram um no outro.  Fingiu não o ter reconhecido.  Mas, tremia como varas verdes.  sentia os passos dele muito próximos, a seguirem os seus.  Sem saber o que fazer, entrou numa pastelaria.  Era o mais natural..  Sentou-se.  Pediu uma bica e uma "duchesse" o seu bolo preferido.

-------Maquinalmente agradeceu ao empregado que a serviu.  Como um autómato deitou o açúcar na chávena e mexeu...mexeu... absorta nos pensamentos que não a levavam a nada.
--------Despertou-a uma voz que inquiria ansiosa:
------ -Posso sentar-me?
 ------ Olhou sem o ver e sem ter consciência das suas palavras ouviu-se a dizer:
------ _Com certeza!...faz favor....
------ Se o chão se tivesse aberto naquele instante,  e a tivesse engolido, ela teria agradecido a
Deus a ajuda.  Mas não!..  O chão continuava intacto e ele, ele, estava ali, na sua frente, pedindo também um café.
------ Desejou que  dissesse tudo de uma vez ou não dissesse nada e se fosse embora e, só serenou quando ele  respirou fundo e começou a falar:
------Parece-me que já nos conhecemos...não achas?  Foi há muito, muito tempo mas eu não te esqueci
e, pelo teu ar atrapalhado, também vejo que não me esqueceste.
----- Eu não estou atrapalhada...surpreendida talvez...Quem pensaria encontrar-te, assim, de repente....

----- É verdade!..Trinta anos é muito tempo...a relembrar...a procurar uma pessoa.  Sim, quero que saibas que te tenho procurado sempre, sem nunca perder a esperança de te encontrar.  O acaso fez-me finalmente
saber onde moravas e, a partir daí nada mais foi por acaso.  Estudei a tua vida, as tuas saídas, as tuas entradas.  Queria ver-te, falar-te...  desculpa por nunca te ter esquecido...não fui capaz.  Seguiste a tua vida.
Eu segui a minha.  Separámo-nos fisicamente mas sentimentalmente continuei sempre ligado a ti.
------O louco de sempre...meu amigo...!....
----- É!...Queres saber uma coisa?  Eu precisava mesmo de te ver, de te falar.  Quando, há pouco te segui pelas ruas da baixa, rejuvenesci..  Voltei a ter vinte anos.  Voltei a ser aquele rapaz que era a tua sombra e
que, talvez por isso tu rejeitaste...

----- Gostei de te ver...  Vou confessar-te uma coisa:  também sei onde moras.  Sei que tens um filho.  Vi-o
uma vez de relance, no café ao lado da tua casa....Ainda te lembras do Gelo, no Rossio, .. ?  Já era!...
Bem. tenho de me ir embora.  Vamos ficar por aqui, está  bem?
----  É isso que queres?...
----  Claro... Que mais podemos fazer?  O tempo não volta atrás....

---- À saída da pastelaria apertaram-se as mãos com carinho, com ternura, com saudade, com avidez até
numa despedida que ambos desejaram não fosse definitiva  ( alguns amigos comuns já tinham partido )
Senti um arrepio.

---- Felicidades para ti.....

---- E para ti também.......

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