TRINTA ANOS DEPOIS
---- Encontraram-se por acaso. Ele seguia um pouco mais à frente, no passeio do outro lado da rua.
Chamou-lhe a atenção aquele caracteristico geito de levar a mão no bolso que tanto a irritara anos antes.
Aquela maneira de andar não lhe era estranha; olhou uma vez e outra e outra ainda. De repente ele virou-se como se tivesse sido atraído por um imã e os seus olhos encontraram-se. Foi como se um raio a fulminasse. Como tinha reflexos rápidos controlou-se imediatamente e como se nada fosse, continuou em
frente.
------Sem olhar para trás foi ao seu destino. Fez as suas compras e ao virar de uma esquina quase esbarraram um no outro. Fingiu não o ter reconhecido. Mas, tremia como varas verdes. sentia os passos dele muito próximos, a seguirem os seus. Sem saber o que fazer, entrou numa pastelaria. Era o mais natural.. Sentou-se. Pediu uma bica e uma "duchesse" o seu bolo preferido.
-------Maquinalmente agradeceu ao empregado que a serviu. Como um autómato deitou o açúcar na chávena e mexeu...mexeu... absorta nos pensamentos que não a levavam a nada.
--------Despertou-a uma voz que inquiria ansiosa:
------ -Posso sentar-me?
------ Olhou sem o ver e sem ter consciência das suas palavras ouviu-se a dizer:
------ _Com certeza!...faz favor....
------ Se o chão se tivesse aberto naquele instante, e a tivesse engolido, ela teria agradecido a
Deus a ajuda. Mas não!.. O chão continuava intacto e ele, ele, estava ali, na sua frente, pedindo também um café.
------ Desejou que dissesse tudo de uma vez ou não dissesse nada e se fosse embora e, só serenou quando ele respirou fundo e começou a falar:
------Parece-me que já nos conhecemos...não achas? Foi há muito, muito tempo mas eu não te esqueci
e, pelo teu ar atrapalhado, também vejo que não me esqueceste.
----- Eu não estou atrapalhada...surpreendida talvez...Quem pensaria encontrar-te, assim, de repente....
----- É verdade!..Trinta anos é muito tempo...a relembrar...a procurar uma pessoa. Sim, quero que saibas que te tenho procurado sempre, sem nunca perder a esperança de te encontrar. O acaso fez-me finalmente
saber onde moravas e, a partir daí nada mais foi por acaso. Estudei a tua vida, as tuas saídas, as tuas entradas. Queria ver-te, falar-te... desculpa por nunca te ter esquecido...não fui capaz. Seguiste a tua vida.
Eu segui a minha. Separámo-nos fisicamente mas sentimentalmente continuei sempre ligado a ti.
------O louco de sempre...meu amigo...!....
----- É!...Queres saber uma coisa? Eu precisava mesmo de te ver, de te falar. Quando, há pouco te segui pelas ruas da baixa, rejuvenesci.. Voltei a ter vinte anos. Voltei a ser aquele rapaz que era a tua sombra e
que, talvez por isso tu rejeitaste...
----- Gostei de te ver... Vou confessar-te uma coisa: também sei onde moras. Sei que tens um filho. Vi-o
uma vez de relance, no café ao lado da tua casa....Ainda te lembras do Gelo, no Rossio, .. ? Já era!...
Bem. tenho de me ir embora. Vamos ficar por aqui, está bem?
---- É isso que queres?...
---- Claro... Que mais podemos fazer? O tempo não volta atrás....
---- À saída da pastelaria apertaram-se as mãos com carinho, com ternura, com saudade, com avidez até
numa despedida que ambos desejaram não fosse definitiva ( alguns amigos comuns já tinham partido )
Senti um arrepio.
---- Felicidades para ti.....
---- E para ti também.......
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