quinta-feira, 7 de março de 2013

FOI A 8 DE MARÇO

---- A Inês trabalhava há muito na imprensa regional.  Moça vivida, independente, com um ar super desenvolto, reagia contra todos os convencionalismos, não se deixando escravizar por ninguém.
---- Nunca festejava o seu aniversário porque, segundo ela, fazer anos já era uma tremenda chatice: sentia-se cada vez mais velha...
---- Ora a Inês fazia anos, justamente a 8 de Março que alguém havia designado como Dia da Mulher....
---- Telefonara-me logo a seguir ao almoço convidando-me para lanchar numa conhecida pastelaria da Baixa onde, por vezes, nos encontrava-mos para desenferrujar a língua.  Aceitei, pois pela entoação da sua voz, ao telefone, percebi que a Inês devia estar em dia não e precisava de uma presença amiga.  Para cúmulo havia-se aborrecido com o Luís.
---- Não tinha que reclamar: quantas vezes lhe tinha dito que " oficiais do mesmo ofício, raramente se dão bem..."  e, o Luís para além de ser bom rapaz era repórter e trabalhava, em Lisboa, num semanário desportivo.  E a sorte era essa: trabalhavam em áreas diferentes.
---- Quando cheguei já a Inês lá estava, bem instalada, numa mesa ao canto do salão.  Encomendara um
chá e uns bolos sortidos - óptimos naquela pastelaria - e lia distraidamente o último número de uma revista de moda.
---- Com um olho na revista e outro na porta de entrada, Inês viu-me logo que entrei e acenou-me.

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---- De relance, ao primeiro olhar, apercebi-me que algo lhe tinha acontecido.  O seu olhar claro e sonhador
estava distante, olhando por cima do meu ombro, como se quisesse vislumbrar algo...
---- Felicitei-a pelo seu aniversário, dei-lhe uma lembrança que comprara para o efeito e falámos...
banalidades.
---- Posta de lado a revista, comemos, bebemos e até lhe contei a última anedota  que aprendera com um amigo.  A Inês adorava anedotas e sabia-as às centenas.  Mas, não obstante todo aquele clima de boa
disposição, notava-se que algo a incomodava:  os seus olhos iam poisar frequentemente - demais para o meu gosto - num narciso amarelo agarrado a um envelope em branco.
---- É do Luís? - inquiri
---- Não!  E o pior é que não sei de quem é....
---- Como assim???
---- É verdade! Quando cheguei a casa, à hora do almoço, fui, como sempre, à caixa do correio.  Entre outras coisas de somenos importância, estava este envelope branco, anónimo, colado, como podes ver
a este narciso.   Como a ranhura da caixa do correio não é assim lá muito larga, a flor foi metida com muito cuidado mas, mesmo assim nota-se pelas marcas das pétalas que foi forçada a entrar.  Fiquei curiosa e o primeiro pensamento foi para o Luís.  Tínhamos discutido por ninharias, como sempre, e logo pensei que
seria a forma de me felicitar fazendo as pazes, mas não....
---- Não???...
---- Não. A ideia não foi do Luís.  Dentro do envelope tem um bilhete postal colorido mas que não tem nada a ver com o Luís pois a letra não é dele:  é bem diferente;  a dele é grande, prepotente e irregular como
ele.  Esta que vem no postal é pequenina, certinha, bem desenhada, indicando uma pessoa delicada, segura
mas por certo muito tímida.  Vê tu!  Conheces alguém que escreva assim?....

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---- Curiosa tirei o postal do envelope e fiquei olhando a parte da frente onde sobre fundo preto sobressaía
um lindo ramo de gerânios, de folhas muito verdes e flores miudinhas mas de um rosa choc tão intenso que
parecia invadir-nos primeiro os olhos e logo depois todo o cérebro.
---- No reverso, sem endereço, sem identificação podia ler-se:
---- Homenagem à Mulher
---- Há duas mulheres na Vida
       a quem amo e quero bem:
       uma, és tu, minha querida,
       outra, era a minha mãe!....

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----- Mistério.... mistério....bom gosto, timidez, ternura, carinho, seja o que for que o postal quisesse
traduzir, desta vez a minha amiga Inês foi igual a todas nós e ficou a sonhar....com o romântico desconhecido.

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