DEVANEIO I
Fez-me bem ter-te encontrado. Se me perguntares o que espero deste encontro, de ti, de mim, responderei: nada ! e ...tudo! Nada, porque ao fim de tantos anos, somos dois caminhos paralelos que se vêem mas não se podem cruzar nunca. Ou talvez? e, se antes eu não esperava nada agora espero tudo...
Quem sabe que destinos nos puseram frente a frente.... Quem sabe o que o destino espera de nós?...
Às vezes dava comigo, só, fumando um cigarro, seguindo com o olhar as espirais de fumo e pensando como tudo estava diferente daquele sonho distante de felicidade. E questionava-me: será que ser feliz é isto?....
E tentava consolar-me definindo-me como não infeliz. Uma vida familiar estável, um emprego bom e seguro, um whisky ao fim do dia, desafogo financeiro, poder evadir-me, por vezes e ser eu, lendo o último best-seller e ouvindo a minha música preferida..
Ser independente...aceitando a vida como ela é, contando os anos que passaram, imaginando os que ainda virão, como alguém que já não precisa de lutar pois conquistou todos os redutos desejados.
Mas, hoje, olho~me no espelho e receio que isto não seja felicidade. Sou talvez, um guerreiro aposentado
que depôs, cedo demais, as suas armas.
Ontem, eu sentia-me indiferente.....Um cabelo branco, uma ruga a mais, um pneu que cresce era apenas uma certidão de idade.
Mas, encontrei-te. Recordei. Rejuvenesci. Voltei a ter vinte anos.
De manhã dou comigo a cantar, debaixo do chuveiro....
Quero dissimular as brancas, embora me fiquem bem, como dizes...
Desço as escadas, saltitante, em vez de esperar pelo elevador....
Olho-me de lado nos vidros das montras para saber que tal pareço.
Comprei um creme para amaciar a pele....das minhas mãos...para estarem bem macias quando... por um acaso...puder apertar as tuas...tão longas...tão seguras... tão eloquentes. Sim! Dizem que as mãos falam e eu acredito: ai se as nossas se pudessem encontrar...ai, quantas coisas lindas não teriam para revelar, por nós. Ou, quem sabe?...talvez nem dissessem nada: só se entrelaçassem, pois, no amor, o silêncio é de oiro....
Mudei de perfume. Eu que gostava de essências frescas, com fragrâncias de ervas e limão talvez por me darem uma falsa sensação de liberdade, passei a usar um perfume quente que me faz lembrar e desejar a
presença, o calor do teu corpo...
Que mudança, Deus meu...como é possível eu voltar a esperar. A esperar, não sei o quê, nem quem...
Um milagre talvez... Mas a verdade é que eu espero tudo. Começo a viver duma ilusão, duma esperança
adiada, de te ver... de te encontrar...hoje...amanhã..depois...meses volvidos...anos passados. E não vou cansar-me de esperar...Talvez no fim do túnel não haja uma luz. Talvez no termo da caminhada não haja
mais nada, para além da desilusão......do desencantamento.
Até lá, porém, vou viver a querer respirar o mesmo ar que te alenta; a imaginar a pressão dos teus braços
em torno da minha cintura, a relembrar o sabor dos teus lábios.
Há um velho ditado que diz que quem espera alcança e eu vou esperar incansavelmente até que a vida
nos una ou a morte nos separe definitivamente.
Vou viver cada dia como se ao virar da esquina for dar de caras contigo e mitigar a minha sede de ti....
E vou, sobretudo, pensar que vivendo em outro lado olhando outras gentes, tu sentes como eu: vou acre
ditar que embora separados no espaço somos cúmplices dum mesmo sentimento.....
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