A SURPRESA
O hoje foi para ela o fim do tempo.
A máscara caíu e nessa queda deixou a descoberto um rosto enfrentando outro que se quer apagar na
penumbra da fuga, do medo.
Ele começa a descer a escada que os unia e os separava em simultâneo. Quebrar a rotina é a carta que
atira para o meio da mesa.
Ela vai a jogo. Aceita o desafio e sem permitir que ele vislumbre a sua mágoa entrega-se, uma vez mais,
toda inteira, com alma, coração e vida. Vai deixar-lhe na ponta dos dedos o toque macio da pele, o
odor do perfume, o calor de um ósculo de despedida.
A tarde começa a envolvê-los na sombra que os oculta e afasta talvez para sempre.
A noite vem. Ele vai... Ela fica!... Vazia!. Mas aliviada como se lhe tivessem estirpado um tumor que
crescia, em tamanho, em dúvida, em sofrimento.
A Páscoa está à porta. A lua sobe no céu, brilhante, luminosa como a dizer-lhe:
---- Faz como eu. Brilha enquanto podes!!!......
Sobre a mesa as amêndoas que ele lhe oferecera....
Amargavam-lhe mesmo sem as ter provado.....
----Bem hajas pelo teu presente envenenado ........
quarta-feira, 27 de março de 2013
domingo, 17 de março de 2013
TRINTA ANOS DEPOIS
---- Encontraram-se por acaso. Ele seguia um pouco mais à frente, no passeio do outro lado da rua.
Chamou-lhe a atenção aquele caracteristico geito de levar a mão no bolso que tanto a irritara anos antes.
Aquela maneira de andar não lhe era estranha; olhou uma vez e outra e outra ainda. De repente ele virou-se como se tivesse sido atraído por um imã e os seus olhos encontraram-se. Foi como se um raio a fulminasse. Como tinha reflexos rápidos controlou-se imediatamente e como se nada fosse, continuou em
frente.
------Sem olhar para trás foi ao seu destino. Fez as suas compras e ao virar de uma esquina quase esbarraram um no outro. Fingiu não o ter reconhecido. Mas, tremia como varas verdes. sentia os passos dele muito próximos, a seguirem os seus. Sem saber o que fazer, entrou numa pastelaria. Era o mais natural.. Sentou-se. Pediu uma bica e uma "duchesse" o seu bolo preferido.
-------Maquinalmente agradeceu ao empregado que a serviu. Como um autómato deitou o açúcar na chávena e mexeu...mexeu... absorta nos pensamentos que não a levavam a nada.
--------Despertou-a uma voz que inquiria ansiosa:
------ -Posso sentar-me?
------ Olhou sem o ver e sem ter consciência das suas palavras ouviu-se a dizer:
------ _Com certeza!...faz favor....
------ Se o chão se tivesse aberto naquele instante, e a tivesse engolido, ela teria agradecido a
Deus a ajuda. Mas não!.. O chão continuava intacto e ele, ele, estava ali, na sua frente, pedindo também um café.
------ Desejou que dissesse tudo de uma vez ou não dissesse nada e se fosse embora e, só serenou quando ele respirou fundo e começou a falar:
------Parece-me que já nos conhecemos...não achas? Foi há muito, muito tempo mas eu não te esqueci
e, pelo teu ar atrapalhado, também vejo que não me esqueceste.
----- Eu não estou atrapalhada...surpreendida talvez...Quem pensaria encontrar-te, assim, de repente....
----- É verdade!..Trinta anos é muito tempo...a relembrar...a procurar uma pessoa. Sim, quero que saibas que te tenho procurado sempre, sem nunca perder a esperança de te encontrar. O acaso fez-me finalmente
saber onde moravas e, a partir daí nada mais foi por acaso. Estudei a tua vida, as tuas saídas, as tuas entradas. Queria ver-te, falar-te... desculpa por nunca te ter esquecido...não fui capaz. Seguiste a tua vida.
Eu segui a minha. Separámo-nos fisicamente mas sentimentalmente continuei sempre ligado a ti.
------O louco de sempre...meu amigo...!....
----- É!...Queres saber uma coisa? Eu precisava mesmo de te ver, de te falar. Quando, há pouco te segui pelas ruas da baixa, rejuvenesci.. Voltei a ter vinte anos. Voltei a ser aquele rapaz que era a tua sombra e
que, talvez por isso tu rejeitaste...
----- Gostei de te ver... Vou confessar-te uma coisa: também sei onde moras. Sei que tens um filho. Vi-o
uma vez de relance, no café ao lado da tua casa....Ainda te lembras do Gelo, no Rossio, .. ? Já era!...
Bem. tenho de me ir embora. Vamos ficar por aqui, está bem?
---- É isso que queres?...
---- Claro... Que mais podemos fazer? O tempo não volta atrás....
---- À saída da pastelaria apertaram-se as mãos com carinho, com ternura, com saudade, com avidez até
numa despedida que ambos desejaram não fosse definitiva ( alguns amigos comuns já tinham partido )
Senti um arrepio.
---- Felicidades para ti.....
---- E para ti também.......
---- Encontraram-se por acaso. Ele seguia um pouco mais à frente, no passeio do outro lado da rua.
Chamou-lhe a atenção aquele caracteristico geito de levar a mão no bolso que tanto a irritara anos antes.
Aquela maneira de andar não lhe era estranha; olhou uma vez e outra e outra ainda. De repente ele virou-se como se tivesse sido atraído por um imã e os seus olhos encontraram-se. Foi como se um raio a fulminasse. Como tinha reflexos rápidos controlou-se imediatamente e como se nada fosse, continuou em
frente.
------Sem olhar para trás foi ao seu destino. Fez as suas compras e ao virar de uma esquina quase esbarraram um no outro. Fingiu não o ter reconhecido. Mas, tremia como varas verdes. sentia os passos dele muito próximos, a seguirem os seus. Sem saber o que fazer, entrou numa pastelaria. Era o mais natural.. Sentou-se. Pediu uma bica e uma "duchesse" o seu bolo preferido.
-------Maquinalmente agradeceu ao empregado que a serviu. Como um autómato deitou o açúcar na chávena e mexeu...mexeu... absorta nos pensamentos que não a levavam a nada.
--------Despertou-a uma voz que inquiria ansiosa:
------ -Posso sentar-me?
------ Olhou sem o ver e sem ter consciência das suas palavras ouviu-se a dizer:
------ _Com certeza!...faz favor....
------ Se o chão se tivesse aberto naquele instante, e a tivesse engolido, ela teria agradecido a
Deus a ajuda. Mas não!.. O chão continuava intacto e ele, ele, estava ali, na sua frente, pedindo também um café.
------ Desejou que dissesse tudo de uma vez ou não dissesse nada e se fosse embora e, só serenou quando ele respirou fundo e começou a falar:
------Parece-me que já nos conhecemos...não achas? Foi há muito, muito tempo mas eu não te esqueci
e, pelo teu ar atrapalhado, também vejo que não me esqueceste.
----- Eu não estou atrapalhada...surpreendida talvez...Quem pensaria encontrar-te, assim, de repente....
----- É verdade!..Trinta anos é muito tempo...a relembrar...a procurar uma pessoa. Sim, quero que saibas que te tenho procurado sempre, sem nunca perder a esperança de te encontrar. O acaso fez-me finalmente
saber onde moravas e, a partir daí nada mais foi por acaso. Estudei a tua vida, as tuas saídas, as tuas entradas. Queria ver-te, falar-te... desculpa por nunca te ter esquecido...não fui capaz. Seguiste a tua vida.
Eu segui a minha. Separámo-nos fisicamente mas sentimentalmente continuei sempre ligado a ti.
------O louco de sempre...meu amigo...!....
----- É!...Queres saber uma coisa? Eu precisava mesmo de te ver, de te falar. Quando, há pouco te segui pelas ruas da baixa, rejuvenesci.. Voltei a ter vinte anos. Voltei a ser aquele rapaz que era a tua sombra e
que, talvez por isso tu rejeitaste...
----- Gostei de te ver... Vou confessar-te uma coisa: também sei onde moras. Sei que tens um filho. Vi-o
uma vez de relance, no café ao lado da tua casa....Ainda te lembras do Gelo, no Rossio, .. ? Já era!...
Bem. tenho de me ir embora. Vamos ficar por aqui, está bem?
---- É isso que queres?...
---- Claro... Que mais podemos fazer? O tempo não volta atrás....
---- À saída da pastelaria apertaram-se as mãos com carinho, com ternura, com saudade, com avidez até
numa despedida que ambos desejaram não fosse definitiva ( alguns amigos comuns já tinham partido )
Senti um arrepio.
---- Felicidades para ti.....
---- E para ti também.......
quinta-feira, 7 de março de 2013
FOI A 8 DE MARÇO
---- A Inês trabalhava há muito na imprensa regional. Moça vivida, independente, com um ar super desenvolto, reagia contra todos os convencionalismos, não se deixando escravizar por ninguém.
---- Nunca festejava o seu aniversário porque, segundo ela, fazer anos já era uma tremenda chatice: sentia-se cada vez mais velha...
---- Ora a Inês fazia anos, justamente a 8 de Março que alguém havia designado como Dia da Mulher....
---- Telefonara-me logo a seguir ao almoço convidando-me para lanchar numa conhecida pastelaria da Baixa onde, por vezes, nos encontrava-mos para desenferrujar a língua. Aceitei, pois pela entoação da sua voz, ao telefone, percebi que a Inês devia estar em dia não e precisava de uma presença amiga. Para cúmulo havia-se aborrecido com o Luís.
---- Não tinha que reclamar: quantas vezes lhe tinha dito que " oficiais do mesmo ofício, raramente se dão bem..." e, o Luís para além de ser bom rapaz era repórter e trabalhava, em Lisboa, num semanário desportivo. E a sorte era essa: trabalhavam em áreas diferentes.
---- Quando cheguei já a Inês lá estava, bem instalada, numa mesa ao canto do salão. Encomendara um
chá e uns bolos sortidos - óptimos naquela pastelaria - e lia distraidamente o último número de uma revista de moda.
---- Com um olho na revista e outro na porta de entrada, Inês viu-me logo que entrei e acenou-me.
..............................................................................
---- De relance, ao primeiro olhar, apercebi-me que algo lhe tinha acontecido. O seu olhar claro e sonhador
estava distante, olhando por cima do meu ombro, como se quisesse vislumbrar algo...
---- Felicitei-a pelo seu aniversário, dei-lhe uma lembrança que comprara para o efeito e falámos...
banalidades.
---- Posta de lado a revista, comemos, bebemos e até lhe contei a última anedota que aprendera com um amigo. A Inês adorava anedotas e sabia-as às centenas. Mas, não obstante todo aquele clima de boa
disposição, notava-se que algo a incomodava: os seus olhos iam poisar frequentemente - demais para o meu gosto - num narciso amarelo agarrado a um envelope em branco.
---- É do Luís? - inquiri
---- Não! E o pior é que não sei de quem é....
---- Como assim???
---- É verdade! Quando cheguei a casa, à hora do almoço, fui, como sempre, à caixa do correio. Entre outras coisas de somenos importância, estava este envelope branco, anónimo, colado, como podes ver
a este narciso. Como a ranhura da caixa do correio não é assim lá muito larga, a flor foi metida com muito cuidado mas, mesmo assim nota-se pelas marcas das pétalas que foi forçada a entrar. Fiquei curiosa e o primeiro pensamento foi para o Luís. Tínhamos discutido por ninharias, como sempre, e logo pensei que
seria a forma de me felicitar fazendo as pazes, mas não....
---- Não???...
---- Não. A ideia não foi do Luís. Dentro do envelope tem um bilhete postal colorido mas que não tem nada a ver com o Luís pois a letra não é dele: é bem diferente; a dele é grande, prepotente e irregular como
ele. Esta que vem no postal é pequenina, certinha, bem desenhada, indicando uma pessoa delicada, segura
mas por certo muito tímida. Vê tu! Conheces alguém que escreva assim?....
..............................................................................
---- Curiosa tirei o postal do envelope e fiquei olhando a parte da frente onde sobre fundo preto sobressaía
um lindo ramo de gerânios, de folhas muito verdes e flores miudinhas mas de um rosa choc tão intenso que
parecia invadir-nos primeiro os olhos e logo depois todo o cérebro.
---- No reverso, sem endereço, sem identificação podia ler-se:
---- Homenagem à Mulher
---- Há duas mulheres na Vida
a quem amo e quero bem:
uma, és tu, minha querida,
outra, era a minha mãe!....
.....................................................................................,
----- Mistério.... mistério....bom gosto, timidez, ternura, carinho, seja o que for que o postal quisesse
traduzir, desta vez a minha amiga Inês foi igual a todas nós e ficou a sonhar....com o romântico desconhecido.
---- A Inês trabalhava há muito na imprensa regional. Moça vivida, independente, com um ar super desenvolto, reagia contra todos os convencionalismos, não se deixando escravizar por ninguém.
---- Nunca festejava o seu aniversário porque, segundo ela, fazer anos já era uma tremenda chatice: sentia-se cada vez mais velha...
---- Ora a Inês fazia anos, justamente a 8 de Março que alguém havia designado como Dia da Mulher....
---- Telefonara-me logo a seguir ao almoço convidando-me para lanchar numa conhecida pastelaria da Baixa onde, por vezes, nos encontrava-mos para desenferrujar a língua. Aceitei, pois pela entoação da sua voz, ao telefone, percebi que a Inês devia estar em dia não e precisava de uma presença amiga. Para cúmulo havia-se aborrecido com o Luís.
---- Não tinha que reclamar: quantas vezes lhe tinha dito que " oficiais do mesmo ofício, raramente se dão bem..." e, o Luís para além de ser bom rapaz era repórter e trabalhava, em Lisboa, num semanário desportivo. E a sorte era essa: trabalhavam em áreas diferentes.
---- Quando cheguei já a Inês lá estava, bem instalada, numa mesa ao canto do salão. Encomendara um
chá e uns bolos sortidos - óptimos naquela pastelaria - e lia distraidamente o último número de uma revista de moda.
---- Com um olho na revista e outro na porta de entrada, Inês viu-me logo que entrei e acenou-me.
..............................................................................
---- De relance, ao primeiro olhar, apercebi-me que algo lhe tinha acontecido. O seu olhar claro e sonhador
estava distante, olhando por cima do meu ombro, como se quisesse vislumbrar algo...
---- Felicitei-a pelo seu aniversário, dei-lhe uma lembrança que comprara para o efeito e falámos...
banalidades.
---- Posta de lado a revista, comemos, bebemos e até lhe contei a última anedota que aprendera com um amigo. A Inês adorava anedotas e sabia-as às centenas. Mas, não obstante todo aquele clima de boa
disposição, notava-se que algo a incomodava: os seus olhos iam poisar frequentemente - demais para o meu gosto - num narciso amarelo agarrado a um envelope em branco.
---- É do Luís? - inquiri
---- Não! E o pior é que não sei de quem é....
---- Como assim???
---- É verdade! Quando cheguei a casa, à hora do almoço, fui, como sempre, à caixa do correio. Entre outras coisas de somenos importância, estava este envelope branco, anónimo, colado, como podes ver
a este narciso. Como a ranhura da caixa do correio não é assim lá muito larga, a flor foi metida com muito cuidado mas, mesmo assim nota-se pelas marcas das pétalas que foi forçada a entrar. Fiquei curiosa e o primeiro pensamento foi para o Luís. Tínhamos discutido por ninharias, como sempre, e logo pensei que
seria a forma de me felicitar fazendo as pazes, mas não....
---- Não???...
---- Não. A ideia não foi do Luís. Dentro do envelope tem um bilhete postal colorido mas que não tem nada a ver com o Luís pois a letra não é dele: é bem diferente; a dele é grande, prepotente e irregular como
ele. Esta que vem no postal é pequenina, certinha, bem desenhada, indicando uma pessoa delicada, segura
mas por certo muito tímida. Vê tu! Conheces alguém que escreva assim?....
..............................................................................
---- Curiosa tirei o postal do envelope e fiquei olhando a parte da frente onde sobre fundo preto sobressaía
um lindo ramo de gerânios, de folhas muito verdes e flores miudinhas mas de um rosa choc tão intenso que
parecia invadir-nos primeiro os olhos e logo depois todo o cérebro.
---- No reverso, sem endereço, sem identificação podia ler-se:
---- Homenagem à Mulher
---- Há duas mulheres na Vida
a quem amo e quero bem:
uma, és tu, minha querida,
outra, era a minha mãe!....
.....................................................................................,
----- Mistério.... mistério....bom gosto, timidez, ternura, carinho, seja o que for que o postal quisesse
traduzir, desta vez a minha amiga Inês foi igual a todas nós e ficou a sonhar....com o romântico desconhecido.
quarta-feira, 6 de março de 2013
DEVANEIO I
Fez-me bem ter-te encontrado. Se me perguntares o que espero deste encontro, de ti, de mim, responderei: nada ! e ...tudo! Nada, porque ao fim de tantos anos, somos dois caminhos paralelos que se vêem mas não se podem cruzar nunca. Ou talvez? e, se antes eu não esperava nada agora espero tudo...
Quem sabe que destinos nos puseram frente a frente.... Quem sabe o que o destino espera de nós?...
Às vezes dava comigo, só, fumando um cigarro, seguindo com o olhar as espirais de fumo e pensando como tudo estava diferente daquele sonho distante de felicidade. E questionava-me: será que ser feliz é isto?....
E tentava consolar-me definindo-me como não infeliz. Uma vida familiar estável, um emprego bom e seguro, um whisky ao fim do dia, desafogo financeiro, poder evadir-me, por vezes e ser eu, lendo o último best-seller e ouvindo a minha música preferida..
Ser independente...aceitando a vida como ela é, contando os anos que passaram, imaginando os que ainda virão, como alguém que já não precisa de lutar pois conquistou todos os redutos desejados.
Mas, hoje, olho~me no espelho e receio que isto não seja felicidade. Sou talvez, um guerreiro aposentado
que depôs, cedo demais, as suas armas.
Ontem, eu sentia-me indiferente.....Um cabelo branco, uma ruga a mais, um pneu que cresce era apenas uma certidão de idade.
Mas, encontrei-te. Recordei. Rejuvenesci. Voltei a ter vinte anos.
De manhã dou comigo a cantar, debaixo do chuveiro....
Quero dissimular as brancas, embora me fiquem bem, como dizes...
Desço as escadas, saltitante, em vez de esperar pelo elevador....
Olho-me de lado nos vidros das montras para saber que tal pareço.
Comprei um creme para amaciar a pele....das minhas mãos...para estarem bem macias quando... por um acaso...puder apertar as tuas...tão longas...tão seguras... tão eloquentes. Sim! Dizem que as mãos falam e eu acredito: ai se as nossas se pudessem encontrar...ai, quantas coisas lindas não teriam para revelar, por nós. Ou, quem sabe?...talvez nem dissessem nada: só se entrelaçassem, pois, no amor, o silêncio é de oiro....
Mudei de perfume. Eu que gostava de essências frescas, com fragrâncias de ervas e limão talvez por me darem uma falsa sensação de liberdade, passei a usar um perfume quente que me faz lembrar e desejar a
presença, o calor do teu corpo...
Que mudança, Deus meu...como é possível eu voltar a esperar. A esperar, não sei o quê, nem quem...
Um milagre talvez... Mas a verdade é que eu espero tudo. Começo a viver duma ilusão, duma esperança
adiada, de te ver... de te encontrar...hoje...amanhã..depois...meses volvidos...anos passados. E não vou cansar-me de esperar...Talvez no fim do túnel não haja uma luz. Talvez no termo da caminhada não haja
mais nada, para além da desilusão......do desencantamento.
Até lá, porém, vou viver a querer respirar o mesmo ar que te alenta; a imaginar a pressão dos teus braços
em torno da minha cintura, a relembrar o sabor dos teus lábios.
Há um velho ditado que diz que quem espera alcança e eu vou esperar incansavelmente até que a vida
nos una ou a morte nos separe definitivamente.
Vou viver cada dia como se ao virar da esquina for dar de caras contigo e mitigar a minha sede de ti....
E vou, sobretudo, pensar que vivendo em outro lado olhando outras gentes, tu sentes como eu: vou acre
ditar que embora separados no espaço somos cúmplices dum mesmo sentimento.....
Fez-me bem ter-te encontrado. Se me perguntares o que espero deste encontro, de ti, de mim, responderei: nada ! e ...tudo! Nada, porque ao fim de tantos anos, somos dois caminhos paralelos que se vêem mas não se podem cruzar nunca. Ou talvez? e, se antes eu não esperava nada agora espero tudo...
Quem sabe que destinos nos puseram frente a frente.... Quem sabe o que o destino espera de nós?...
Às vezes dava comigo, só, fumando um cigarro, seguindo com o olhar as espirais de fumo e pensando como tudo estava diferente daquele sonho distante de felicidade. E questionava-me: será que ser feliz é isto?....
E tentava consolar-me definindo-me como não infeliz. Uma vida familiar estável, um emprego bom e seguro, um whisky ao fim do dia, desafogo financeiro, poder evadir-me, por vezes e ser eu, lendo o último best-seller e ouvindo a minha música preferida..
Ser independente...aceitando a vida como ela é, contando os anos que passaram, imaginando os que ainda virão, como alguém que já não precisa de lutar pois conquistou todos os redutos desejados.
Mas, hoje, olho~me no espelho e receio que isto não seja felicidade. Sou talvez, um guerreiro aposentado
que depôs, cedo demais, as suas armas.
Ontem, eu sentia-me indiferente.....Um cabelo branco, uma ruga a mais, um pneu que cresce era apenas uma certidão de idade.
Mas, encontrei-te. Recordei. Rejuvenesci. Voltei a ter vinte anos.
De manhã dou comigo a cantar, debaixo do chuveiro....
Quero dissimular as brancas, embora me fiquem bem, como dizes...
Desço as escadas, saltitante, em vez de esperar pelo elevador....
Olho-me de lado nos vidros das montras para saber que tal pareço.
Comprei um creme para amaciar a pele....das minhas mãos...para estarem bem macias quando... por um acaso...puder apertar as tuas...tão longas...tão seguras... tão eloquentes. Sim! Dizem que as mãos falam e eu acredito: ai se as nossas se pudessem encontrar...ai, quantas coisas lindas não teriam para revelar, por nós. Ou, quem sabe?...talvez nem dissessem nada: só se entrelaçassem, pois, no amor, o silêncio é de oiro....
Mudei de perfume. Eu que gostava de essências frescas, com fragrâncias de ervas e limão talvez por me darem uma falsa sensação de liberdade, passei a usar um perfume quente que me faz lembrar e desejar a
presença, o calor do teu corpo...
Que mudança, Deus meu...como é possível eu voltar a esperar. A esperar, não sei o quê, nem quem...
Um milagre talvez... Mas a verdade é que eu espero tudo. Começo a viver duma ilusão, duma esperança
adiada, de te ver... de te encontrar...hoje...amanhã..depois...meses volvidos...anos passados. E não vou cansar-me de esperar...Talvez no fim do túnel não haja uma luz. Talvez no termo da caminhada não haja
mais nada, para além da desilusão......do desencantamento.
Até lá, porém, vou viver a querer respirar o mesmo ar que te alenta; a imaginar a pressão dos teus braços
em torno da minha cintura, a relembrar o sabor dos teus lábios.
Há um velho ditado que diz que quem espera alcança e eu vou esperar incansavelmente até que a vida
nos una ou a morte nos separe definitivamente.
Vou viver cada dia como se ao virar da esquina for dar de caras contigo e mitigar a minha sede de ti....
E vou, sobretudo, pensar que vivendo em outro lado olhando outras gentes, tu sentes como eu: vou acre
ditar que embora separados no espaço somos cúmplices dum mesmo sentimento.....
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