CONTOS ESCOLHIDOS III
TARDE DEMAIS
Olhou o relógio. Estava quase na hora combinada. Como qualquer dona de casa que se preza, Marina passou em revista a sala para ver se nada faltava.
O apartamento de três assoalhadas era bastante confortável. Para além da espaçosa cozinha e de uma óptima sala de banho, com uma larga janela envidraçada. Tinha o quarto virado a poente onde o sol batia até ao último raio. Uma salinha que inicialmente servira como sala de estudo e onde posteriormente instalara o seu escritório.
A sala comum, grande, estava decorada com gosto e simplicidade, de forma a satisfazer as suas reais necessidades e estava dividida em dois espaços perfeitamente distintos: a sala de jantar e o salão propriamente dito.
A um canto, em ângulo recto uns sofás de módulos apoiados por um pequeno bar e uma mesinha de salão, definiam a área de repouso.
No canto oposto a aparelhagem de som e uma estante recheada de bons livros, continham o essencial para
um momento de repousante leitura. No chão de tijoleira vermelha um artistíco tapete de arraiolos e algumas
almofadas de serapilheira bordada.
Nas paredes vários quadros de molduras douradas reproduziam cópias de obras primas da pintura: Renoir,
Picasso, Van Gohg estavam ali representados com gosto e oportunidade.
Na outra metade da divisão era a sala de jantar com um pequeno móvel louceiro, século XVIII, uma mesa redonda, não muito grande, com seis cadeiras de espaldar trabalhado em couro.
A mesa estava posta com muito gosto e simplicidade. Uma toalha de linho natural, cor crua, com pequenos bordados de crivo a salpicar toda a toalha. Ao centro, um pequeno arranjo floral, baixo, com gipsofila e dois botões de rosas vermelhas.. Tudo parecia em ordem. Até o vinho no balde de gelo, esperava...
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Trim...Trim.....
Era ele que chegava. Sem saber porquê, Marina estava nervosa. Um último olhar ao espelho para ver se
estava mesmo bem....
--- Ora viva!....Entra.....
--- Posso oferecer-te?....
Trouxera um lindo ramo de rosas, uma caixa de bombons que a Marina gostava e uma garrafa de espumante.
--- Com certeza, mas não devias incomodar-te e quanto ao espumante...nâo vejo razão...
--- Porque não? logo se vê.....
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Tomado um rápido aperitivo passaram à mesa.
Marina preparara uma refeição diferente, com um cunho de intimidade em que ambos participassem totalmente.
Servido um cocktail de gambas com um vinho lagosta rosée, geladinho, Marina apresentara uma fondue.
Enquanto iam picando, fritando e comendo os pedacinhos de carne, iam falando de negócios, da vida, deles
próprios, dos seus gostos e preferências.
Frutas sortidas e uma bavaroise completaram a refeição.
Passaram ao salão para um bom café. Marina abriu os bombons que Fernando trouxera, pôs uma música
a tocar e ali ficaram um pouco mais como se nenhum deles quisesse pôr fim àqueles momentos de feliz convívio.
A dada altura, Fernando pediu licença para escolher um CD. Serviu o espumante ao mesmo tempo que
punha a tocar uma música suave, romântica, anos sessenta.....
Convidou Marina para dançar. Pouco a pouco, à medida que a música os envolvia os seus corpos iam
ficando mais lânguidos, mais colados, mais sensuais.
Como por magia sem que qualquer deles parecesse aperceber-se de tal os seus lábios quentes, ansiosos
uniram-se num involuntário, longo, sufocante beijo...
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Como quem desperta de um sonho mau, Marina deu um salto.
Fernando quis dizer qualquer coisa mas ela não deixou. Colocou-lhe dois dedos sobre os lábios.
--- Pronto !. Gostei muito deste jantar. Foi muito bom... muito bom mesmo estar contigo. Mas quero que me prometas uma coisa, Fernando: Esquece este " final de festa ".... apenas e só bons amigos......
Tu, Fernando, és moço ainda e encantador... Vai !.... É tarde demais...para mim......
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