CONTOS ESCOLHIDOS IV
( IR) REAL ( IDADE )
Laura acabou de almoçar. Como sempre, sentou~se na sala com o seu café, o seu chocolate negro e um dedo de "Constantino". Fazia parte da sua rotina e, quase sempre semicerrava os olhos para descansar um pouco.
---Olhava para dentro ! - como costumava dizer. Era apenas o seu momento de introspeção.
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Ontem, entrara, normalmente no elevador que a levaria ao 4º andar.
Um elevador com os três lados espelhados, onde as Lauras se multiplicavam indefinidamente.
Reconheceu aquele rosto tão familiar.
Lá bem no fundo,uma outra Laura que, jovem, fogosa lhe mostrava um retrato com meio século.
Nessa época, debatia-se entre dois amores...tão diferentes... duas faces de uma moeda. Dum lado a imagem da saudade, da insegurança, da revolta, da negação da traição de que fora vitima; o querer parecer
mau, de mostrar um homem que amava sem o querer admitir por orgulho, que preferia sofrer em silêncio escondido do ser amado.
Do outro lado, a imagem da ternura, do amor platónico que se compraz em sonhar e viver esse sonho de amor sem concretização, sem materialização, todo espírito, todo paixão, todo poesia, todo felicidade que
não teria, pois a sua paixão não tinha pernas para andar.
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Mais à frente com um riso gaiato e travesso, Laura via-se a assistir ao " roda os cinco cantinhos" como fazia
na escola primária. Mas as jogadoras eram outras: jovens mulheres fingindo tentar escapar do "galã" que
no centro escolhia a vitima. Mas tudo não passava de um jogo de sedução pois todas elas ansiavam ser a
eleita.
Laura acabara de chegar. O jogo parou porque o "galã" o interrompeu, apenas por causa de Laura.
E o jogou mudou. Passou dos cinco cantinhos para o toca e foge, mantendo-se assim por muito tempo....
sem vencedor nem vencido até que ambos os contendores, um dia uniram as mãos em sinal de tréguas e de entendimento.
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Foram muitos e muitos anos assim até que do lado dele o espelho embaciou e Laura ficou só sem parceiro de xadrês.
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O espelho do elevador reflecte uma Laura diferente. Madura. Sózinha mas sempre determinada.
Outra imagem na sua rectaguarda surge, limpando o espelho embaciado. Laura agradeceu. O cristal voltou a cintilar reflectindo alguém que se perdia na distância, no tempo mas, pouco a pouco ia tomando forma e nitidez.
Qual Branca de Neve adormecida, Laura desperta não ao toque dum beijo de principe encantado mas, com a luz diáfana que saindo duns belos olhos azuis iluminava o elevador prestes a parar. Saíram no mesmo piso.
Trocaram apresentações e um abraço de ocasião que foi apagando a repetição de imagens que os espelhos reflectiam e, dia após dia, foram subindo e descendo juntos no elevador do prédio de 10 andares que os juntara e tornara amigos.
E, quando se aperceberam, todas as outras imagens do passado sumiram e só ficaram eles, lado a lado, no limiar dum novo tempo. A infância, a juventude ficaram para trás mas a Laura e o seu vizinho Pedro continuam a descer juntos naquele elevador que os colocou lado a lado, num esboço de amizade que nenhum sabe onde os irá levar.
Só sabem e isso basta, a Laura que, dia após dia continua a apertar a mão do Pedro e a desejarem-se com sinceridade, mutuamente um até amanhã..........
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