CONTOS ESCOLHIDOS II
ENCONTRO COM A VIDA......
CINQUENTA MIL EUROS........
Maria Clara é uma rapariga moderna. Olhos garotos cintilando de subentendidos, a sua boca tem o ar gaiato dum constante trejeito de troça. Veste pelo último figurino; frequenta os locais mais elegantes e escandalizou o bom povo da aldeia quando pela primeira vez, no verão transacto, calças bem justas, blusão negro e cigarro entalado entre dois dedos esguios, trepou com uma agilidade de gazela a serra semeada de enormes rochedos.
Com entoação um tanto ou quanto maliciosa, logo houve quem murmurasse:
--- Quem cabritos vende e cabras não tem...
E logo outra voz:
--- Também... tem a quem sair!...
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Quanto tempo passara já... Também a mãe fora jovem....e bonita. Por desgraça amara o homem que um dia foi seu marido. Um estroina dos diabos como depois se provou. E, um dia, ele partiu deixando-a nova e bonita, com uma filha nos braços.
Angustiada, Luísa sentia que nem tudo acabara. Tinha de viver e a cidade foi o seu refúgio. Partiu. Durante anos ninguém soube dela.
Trabalhou,lutou, sofreu mas venceu. Pôde criar e educar aquela filha que Deus lhe confiara.
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Reboliço na aldeia. Vários pedreiros trabalhavam afanosamente e, pouco a pouco, num pedaço de terra há
muito abandonada começa a erguer-se uma casa simples mas graciosa.
--- De quem é ?...- De quem não é ?... e, quando em azulejos aparece a inscrição " Vivenda Maria Luísa "
a bomba estala.
--- Da Luisinha da Quinta, aquela casa? Mas ela ficou sem nada... Foi rica? Pois foi mas não se soube orientar e os credores levaram-lhe tudo. Ná !...Aqui há gato.... onde é que ela arranjou o dinheiro? anda calça no caso...ó se anda !...
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--- Para quê uma casa tão bonita se não mora cá ninguém? - interrogavam-se.
Um dia, junto ao gradeamento parou um automóvel. Conduz com desenvoltura a jovem que os curiosos deduzem, pelas parecenças, ser filha da senhora encanecida que vem ao lado. Acompanha-as uma criada com " cara de poucos amigos ". Em breve a nova corre de boca em boca. É a Luísinha da Quinta mais a filha.
--- Coitada!.. Como está velha!.. Sabe-se lá o que teria passado...
--- Ora! Dizem de outro lado---: Gente desta? É vê-las: saiu daqui sem vintém e volta de automóvel. E a filha? Parece...
--- E se calhar...é..!
--- Tal mãe, tal filha, com certeza.
--- Não admira: filha de peixe...
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Passou-se quase um mês e todo o povo se acostumou à recolhida presença de Maria Luísa e da filha.
Já as sombras do crepúsculo desciam da serra quando, à porta da vivenda parou um automóvel.
Dele saíu um homem ainda bastante novo. Feliz, Maria Clara, correu a abrir-lhe o portão. Abraçaram-se
com ternura. Ao outro dia, porém, ele partiu.
Escândalo! Um homem em casa delas. Tudo estava, enfim, justificado: era aquele o " homem da massa "
mas era pela filha. E, Maria Luísa foi apelidada de mulher sem vergonha, acusada de viver à custa da filha.
Passaram a olhá-las de revés, como se tivessem peste.
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Ao reler, uma vez mais, o final daquela breve carta, Maria Clara chorou.
".....Não posso fazer o que me pedes, Clarinha, Não posso abandonar a fábrica, agora, com este assunto
para resolver. Não estarás tu a exagerar? Como poderão pensar mal de nós se nada fizémos para originar
esses boatos? Só porque não contámos a nossa vida a cada um? Não faças caso.... confia em mim...."
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Domingo ! Dia do Senhor !... A pequena capela está repleta de fiéis. O velho prior, todo branco, curvado pelos anos, pede uns momentos de atenção, antes de começar a debandada. O que tem a dizer é breve.
Acabara de receber uma carta do esposo da Sra. D. Clarinha com um cheque de cinquenta mil euros para
restaurar a capela. E, emocionado, o bom velhote pede a Maria Clara que afirme ao sr. engenheiro o agradecimento colectivo da população.
À saída todos os olhares convergem sobre elas, num misto de admiração e servilismo que comoveu e revoltou o espírito integro de Maria Clara.
E, só quando alguém a seu lado murmurou, talvez desiludido, um - afinal ela é casada!.... ela compreendeu a atitude do marido.
Cinquenta mil euros -- mascarados de beneficentes -- foram o preço da sua reputação !
Teresa Pascoal
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