CONTOS ESCOLHIDOS
AO PÔR DO SOL..
Era sempre há mesma hora, quando para lá dos telhados sujos do bairro o sol tingia de sangue as águas do Tejo, que a tristeza se apossava de Mário. Aquela bola de fogo, ao longe, a perder-se no horizonte, trazia-lhe à recordação a saudosa lembrança de tanto pôr de sol que ele presenciara, embevecido, no seu Alentejo...
E, maldizia a ideia que o pai tivera de o mandar para os estudos. Fora o princípio do fim. Primeiro, aquele colégio de província, tristonho e acanhado em que os dias se desperdiçavam sem proveito, apertados pela vigilância dos perfeitos.
Depois, já homem feito, Lisboa engolira-o. A princípio deslumbrara-o a ideia de viver, enfim liberto de tutelas, entregue a si próprio, no bulício de uma grande cidade. O primeiro ano de instituto perdera-o à cata de emoções que o fizessem sentir-se, realmente, um verdadeiro homem. O pai zangara-se e não lhe permitira naquele ano voltar às suas terras, à sua planícíe amada. De castigo ficara amarrado aos livros para recuperar o tempo perdido. A lição serviu-lhe de emenda e os anos seguintes foram heroicamente vencidos.
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O outrora sólido património dos Azevedos, enfraquecera consideravelmente, depois que sua mãe se finara.
Fizeram partilhas. A irmã, já casada, tomou conta do que lhe pertencia e ele, embriagado pela vida fácil da capital esbanjou em noites de orgia, o que lhe coubera. As suas propriedades hipotecadas foram parar às mãos de vizinhos mais ou menos endinheirados.
Após este desaire, Mário de Azevedo, jurou não voltar ao Alentejo apesar das saudades que o roíam. Não! Antes não voltar nunca mais, que sofrer o vexame de encarar os seus adversários. Voltar? Para quê, se não poderia beber água no velho tanque do peixe de barro colocado à laia de bica, de que ele tanto gostava, se não poderia, como dono, colher alguns cachos na velha vinha que ajudara a plantar. Não! Não iria. Era bem preferível sofrer, ali, na quietude do seu quarto aridamente confortável de quase solteirão.
E, Mário esquecia-se todas as tardes, sentado no maple verde seco, a contemplar, para além da janela aberta de par em par, o mergulhar do astro rei nas rubras águas do rio.
Esquecia o jornal, que raramente chegava a ler, e perdia-se no sonhop de uma terra distante, duns olhos gaiatos....
Que seria feito dela? Casara?..Em miúdos tinham sido conversados. Onde isso ia....e, no entanto, nunca a esqueceu. Fora o seu primeiro e único amor.
E o pai? Como estaria ele? Muito velho, por certo. Pobre homem!... quanto devia sofrer ao ver as suas terras, a que tanto queria, em mãos alheias, desventradas pelos seus mais encarniçados inimigos, só porque o filho, esse filho estremecido, o seu querido Mário,que ele sonhara engenheiro agrónomo, não era mais que um estroina viciado. Mais valera - a! Se ele adivinhasse.....-tê-lo criado sempre no Monte, entre ganhões e trabalho. Ao menos seria um lavrador consciente.
A escuridão acabava por avassalar o ambiente e Mário de Azevedo, limpando à costa da mão - como em pequenino - uma lágrima furtiva murmurava, quase em pensamento, imperceptívelmente.
---Perdão, meu pai, perdão !...
Quantas vezes já pensara ir, indiferente a tudo, lançar-se nos braços do velho ancião e repetir-lhe baixinho, apertando-o ao peito.aquela frase singela mas tão sincera. Mas, orgulhoso, não se atrevera ainda a concretizar aquele anseio.. Uma força estranha acorrentava-o ali. Jurara a si próprio só voltar ao Alentejo quando, vitorioso, pudesse reaver, ainda que a peso de ouro, aquilo que um dia fora seu. Para isso necessitava de um bom pecúlio.
Na empresa onde exercia a sua profissão de engenheiro ganhava bastante bem mas a vida de estúrdia que levava não lhe permitia grandes economias. E, depois....aquele maldito vício, o jogo, sugava-lhe tudo. A roleta tornara-se numa verdadeira obsessão e fora ela, a mais exigente amante, que o arrastara àquela deprimente situação.
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Agora, ali estava de novo, com a carta entre os dedos, a queimar-lhe a pele. Em meia dúzia de linhas, o pai, muito mal já pedia-lhe que voltasse. Queria vê-lo e falar-lhe:
---Vem, meu filho, tudo esqueci. Antes de morrer quero ainda abraçar-te para partir feliz.
---Não, não posso...e, quem seria que me procurou ontem no casino? Uma jovem bonita mas modesta. Não faço ideia. Oh! E o meu pai? Mas não, eu não posso ir, não tenho coragem para ver a ruína que ocasionei.
---Pela centésima vez relia aquela carta. Tenho de esquecer. Vou jogar !
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O sol há muito se pusera para lá do horizonte. Mais uma ficha, outra, outra ainda.
---Sr. Engenheiro, estão la fora a perguntar pelo senhor.....seu pai.....
---Deixa-me, vai-te! Já perdi mas hei-de ganhar...hei-de ganhar....estás a ouvir?- a voz morreu-lhe num estertoroso gargalhar.
A noite não foi favorável. Desiludido, pois nem o esquecimento encontrara, saíu.
---Sr. Engenheiro...atenda-me, o seu pai está a morrer, venha comigo, ele quer vê-lo....
---Cala-te !
Perlaram-se de lágrimas os lindos olhos negros daquela formosa mulher que, baixando a cabeça consternada, murmurou:
--- Tu não eras assim !. Foi a cidade, foi esse pano verde, que te endureceram; não és o mesmo que conheci lá longe, no nosso Alentejo. Não és o mesmo com quem brinquei... meu pobre Mário....
---Eh! Não te vás!... Falaste em Alentejo?, mulher... Quem és ? Olha para mim.
---Luísa?!!...Tu?...Aqui?!....Perdoa-me... vamos depressa, quero ainda vê-lo... pedir-lhe perdão.....
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---Então? Ainda partes?
---Partir? Não brinques, Luísa. Voltei à minha terra e não tornarei a deixá-la. O pai si, já se foi, mas eu ficarei para sempre. Aqui nasci e é aqui o meu lugar. Com o que agora recebi da parte de meu pai hei-de viver decentemente e não descansarei enquanto não fizer desta pequena propriedade o mais próspero e produtivo Monte das redondezas. É a minha penitência. Nunca me senti tão feliz como depois que regressei, como desde que te tenho a ti. O nosso amor será indestrutível, Luísa.
---E não sentirás a falta da cidade?
---Não! Contigo a meu lado nada me faltará. Terei o mundo todo nos braços.
---Obrigada, Mário. Anda, vem comigo. Repara, a terra é toda um fogo. Mário, vês toda esta vastidão à nossa volta? Sabes de quem eram estas terras? Recordas-te, com certeza de como brincámos sob aquelas árvores...Não queres voltar de novo a tocar os seus ramos frondosos?...
---Mas, Luísa, aquilo já não me pertence... não me peças o impossivel. Passar sob aquelas copas seria para mim bem doloroso....
---Porquê?
---Dói-me sabê-las nas mãos de outro.
---Tonto, tudo aquilo é teu, é nosso, e será amanhã dos nossos filhos.
---? ! !
---A história é longa, Mário! Basta-te, por ora, saber que a terra é nossa. Meu pai... comprou-a.
---Luísa...mas...eu....
---Tu, Mário, és o meu marido, o pai do filho que sinto pulsar em mim, e, o único senhor de tudo isto...Vem, meu amor...
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E, sob a folhagem fechada daqueles sobreiros que sangrentos,duas bocas jovens e enamoradas se uniram
enquanto ao longe, o sol, envergonhado, discretamente se escondeu.
Teresa Pascoal
publicado em 1965 no primeiro número do ALMANAQUE PORTALEGRENSE
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