CONTOS ESCOLHIDOS IV
( IR) REAL ( IDADE )
Laura acabou de almoçar. Como sempre, sentou~se na sala com o seu café, o seu chocolate negro e um dedo de "Constantino". Fazia parte da sua rotina e, quase sempre semicerrava os olhos para descansar um pouco.
---Olhava para dentro ! - como costumava dizer. Era apenas o seu momento de introspeção.
................................................................................
Ontem, entrara, normalmente no elevador que a levaria ao 4º andar.
Um elevador com os três lados espelhados, onde as Lauras se multiplicavam indefinidamente.
Reconheceu aquele rosto tão familiar.
Lá bem no fundo,uma outra Laura que, jovem, fogosa lhe mostrava um retrato com meio século.
Nessa época, debatia-se entre dois amores...tão diferentes... duas faces de uma moeda. Dum lado a imagem da saudade, da insegurança, da revolta, da negação da traição de que fora vitima; o querer parecer
mau, de mostrar um homem que amava sem o querer admitir por orgulho, que preferia sofrer em silêncio escondido do ser amado.
Do outro lado, a imagem da ternura, do amor platónico que se compraz em sonhar e viver esse sonho de amor sem concretização, sem materialização, todo espírito, todo paixão, todo poesia, todo felicidade que
não teria, pois a sua paixão não tinha pernas para andar.
...............................................................................
Mais à frente com um riso gaiato e travesso, Laura via-se a assistir ao " roda os cinco cantinhos" como fazia
na escola primária. Mas as jogadoras eram outras: jovens mulheres fingindo tentar escapar do "galã" que
no centro escolhia a vitima. Mas tudo não passava de um jogo de sedução pois todas elas ansiavam ser a
eleita.
Laura acabara de chegar. O jogo parou porque o "galã" o interrompeu, apenas por causa de Laura.
E o jogou mudou. Passou dos cinco cantinhos para o toca e foge, mantendo-se assim por muito tempo....
sem vencedor nem vencido até que ambos os contendores, um dia uniram as mãos em sinal de tréguas e de entendimento.
...................................................................................
Foram muitos e muitos anos assim até que do lado dele o espelho embaciou e Laura ficou só sem parceiro de xadrês.
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O espelho do elevador reflecte uma Laura diferente. Madura. Sózinha mas sempre determinada.
Outra imagem na sua rectaguarda surge, limpando o espelho embaciado. Laura agradeceu. O cristal voltou a cintilar reflectindo alguém que se perdia na distância, no tempo mas, pouco a pouco ia tomando forma e nitidez.
Qual Branca de Neve adormecida, Laura desperta não ao toque dum beijo de principe encantado mas, com a luz diáfana que saindo duns belos olhos azuis iluminava o elevador prestes a parar. Saíram no mesmo piso.
Trocaram apresentações e um abraço de ocasião que foi apagando a repetição de imagens que os espelhos reflectiam e, dia após dia, foram subindo e descendo juntos no elevador do prédio de 10 andares que os juntara e tornara amigos.
E, quando se aperceberam, todas as outras imagens do passado sumiram e só ficaram eles, lado a lado, no limiar dum novo tempo. A infância, a juventude ficaram para trás mas a Laura e o seu vizinho Pedro continuam a descer juntos naquele elevador que os colocou lado a lado, num esboço de amizade que nenhum sabe onde os irá levar.
Só sabem e isso basta, a Laura que, dia após dia continua a apertar a mão do Pedro e a desejarem-se com sinceridade, mutuamente um até amanhã..........
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
CONTOS ESCOLHIDOS III
TARDE DEMAIS
Olhou o relógio. Estava quase na hora combinada. Como qualquer dona de casa que se preza, Marina passou em revista a sala para ver se nada faltava.
O apartamento de três assoalhadas era bastante confortável. Para além da espaçosa cozinha e de uma óptima sala de banho, com uma larga janela envidraçada. Tinha o quarto virado a poente onde o sol batia até ao último raio. Uma salinha que inicialmente servira como sala de estudo e onde posteriormente instalara o seu escritório.
A sala comum, grande, estava decorada com gosto e simplicidade, de forma a satisfazer as suas reais necessidades e estava dividida em dois espaços perfeitamente distintos: a sala de jantar e o salão propriamente dito.
A um canto, em ângulo recto uns sofás de módulos apoiados por um pequeno bar e uma mesinha de salão, definiam a área de repouso.
No canto oposto a aparelhagem de som e uma estante recheada de bons livros, continham o essencial para
um momento de repousante leitura. No chão de tijoleira vermelha um artistíco tapete de arraiolos e algumas
almofadas de serapilheira bordada.
Nas paredes vários quadros de molduras douradas reproduziam cópias de obras primas da pintura: Renoir,
Picasso, Van Gohg estavam ali representados com gosto e oportunidade.
Na outra metade da divisão era a sala de jantar com um pequeno móvel louceiro, século XVIII, uma mesa redonda, não muito grande, com seis cadeiras de espaldar trabalhado em couro.
A mesa estava posta com muito gosto e simplicidade. Uma toalha de linho natural, cor crua, com pequenos bordados de crivo a salpicar toda a toalha. Ao centro, um pequeno arranjo floral, baixo, com gipsofila e dois botões de rosas vermelhas.. Tudo parecia em ordem. Até o vinho no balde de gelo, esperava...
........................................................................................................
Trim...Trim.....
Era ele que chegava. Sem saber porquê, Marina estava nervosa. Um último olhar ao espelho para ver se
estava mesmo bem....
--- Ora viva!....Entra.....
--- Posso oferecer-te?....
Trouxera um lindo ramo de rosas, uma caixa de bombons que a Marina gostava e uma garrafa de espumante.
--- Com certeza, mas não devias incomodar-te e quanto ao espumante...nâo vejo razão...
--- Porque não? logo se vê.....
......................................................................................................
Tomado um rápido aperitivo passaram à mesa.
Marina preparara uma refeição diferente, com um cunho de intimidade em que ambos participassem totalmente.
Servido um cocktail de gambas com um vinho lagosta rosée, geladinho, Marina apresentara uma fondue.
Enquanto iam picando, fritando e comendo os pedacinhos de carne, iam falando de negócios, da vida, deles
próprios, dos seus gostos e preferências.
Frutas sortidas e uma bavaroise completaram a refeição.
Passaram ao salão para um bom café. Marina abriu os bombons que Fernando trouxera, pôs uma música
a tocar e ali ficaram um pouco mais como se nenhum deles quisesse pôr fim àqueles momentos de feliz convívio.
A dada altura, Fernando pediu licença para escolher um CD. Serviu o espumante ao mesmo tempo que
punha a tocar uma música suave, romântica, anos sessenta.....
Convidou Marina para dançar. Pouco a pouco, à medida que a música os envolvia os seus corpos iam
ficando mais lânguidos, mais colados, mais sensuais.
Como por magia sem que qualquer deles parecesse aperceber-se de tal os seus lábios quentes, ansiosos
uniram-se num involuntário, longo, sufocante beijo...
.................................................................................................
Como quem desperta de um sonho mau, Marina deu um salto.
Fernando quis dizer qualquer coisa mas ela não deixou. Colocou-lhe dois dedos sobre os lábios.
--- Pronto !. Gostei muito deste jantar. Foi muito bom... muito bom mesmo estar contigo. Mas quero que me prometas uma coisa, Fernando: Esquece este " final de festa ".... apenas e só bons amigos......
Tu, Fernando, és moço ainda e encantador... Vai !.... É tarde demais...para mim......
TARDE DEMAIS
Olhou o relógio. Estava quase na hora combinada. Como qualquer dona de casa que se preza, Marina passou em revista a sala para ver se nada faltava.
O apartamento de três assoalhadas era bastante confortável. Para além da espaçosa cozinha e de uma óptima sala de banho, com uma larga janela envidraçada. Tinha o quarto virado a poente onde o sol batia até ao último raio. Uma salinha que inicialmente servira como sala de estudo e onde posteriormente instalara o seu escritório.
A sala comum, grande, estava decorada com gosto e simplicidade, de forma a satisfazer as suas reais necessidades e estava dividida em dois espaços perfeitamente distintos: a sala de jantar e o salão propriamente dito.
A um canto, em ângulo recto uns sofás de módulos apoiados por um pequeno bar e uma mesinha de salão, definiam a área de repouso.
No canto oposto a aparelhagem de som e uma estante recheada de bons livros, continham o essencial para
um momento de repousante leitura. No chão de tijoleira vermelha um artistíco tapete de arraiolos e algumas
almofadas de serapilheira bordada.
Nas paredes vários quadros de molduras douradas reproduziam cópias de obras primas da pintura: Renoir,
Picasso, Van Gohg estavam ali representados com gosto e oportunidade.
Na outra metade da divisão era a sala de jantar com um pequeno móvel louceiro, século XVIII, uma mesa redonda, não muito grande, com seis cadeiras de espaldar trabalhado em couro.
A mesa estava posta com muito gosto e simplicidade. Uma toalha de linho natural, cor crua, com pequenos bordados de crivo a salpicar toda a toalha. Ao centro, um pequeno arranjo floral, baixo, com gipsofila e dois botões de rosas vermelhas.. Tudo parecia em ordem. Até o vinho no balde de gelo, esperava...
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Trim...Trim.....
Era ele que chegava. Sem saber porquê, Marina estava nervosa. Um último olhar ao espelho para ver se
estava mesmo bem....
--- Ora viva!....Entra.....
--- Posso oferecer-te?....
Trouxera um lindo ramo de rosas, uma caixa de bombons que a Marina gostava e uma garrafa de espumante.
--- Com certeza, mas não devias incomodar-te e quanto ao espumante...nâo vejo razão...
--- Porque não? logo se vê.....
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Tomado um rápido aperitivo passaram à mesa.
Marina preparara uma refeição diferente, com um cunho de intimidade em que ambos participassem totalmente.
Servido um cocktail de gambas com um vinho lagosta rosée, geladinho, Marina apresentara uma fondue.
Enquanto iam picando, fritando e comendo os pedacinhos de carne, iam falando de negócios, da vida, deles
próprios, dos seus gostos e preferências.
Frutas sortidas e uma bavaroise completaram a refeição.
Passaram ao salão para um bom café. Marina abriu os bombons que Fernando trouxera, pôs uma música
a tocar e ali ficaram um pouco mais como se nenhum deles quisesse pôr fim àqueles momentos de feliz convívio.
A dada altura, Fernando pediu licença para escolher um CD. Serviu o espumante ao mesmo tempo que
punha a tocar uma música suave, romântica, anos sessenta.....
Convidou Marina para dançar. Pouco a pouco, à medida que a música os envolvia os seus corpos iam
ficando mais lânguidos, mais colados, mais sensuais.
Como por magia sem que qualquer deles parecesse aperceber-se de tal os seus lábios quentes, ansiosos
uniram-se num involuntário, longo, sufocante beijo...
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Como quem desperta de um sonho mau, Marina deu um salto.
Fernando quis dizer qualquer coisa mas ela não deixou. Colocou-lhe dois dedos sobre os lábios.
--- Pronto !. Gostei muito deste jantar. Foi muito bom... muito bom mesmo estar contigo. Mas quero que me prometas uma coisa, Fernando: Esquece este " final de festa ".... apenas e só bons amigos......
Tu, Fernando, és moço ainda e encantador... Vai !.... É tarde demais...para mim......
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
CONTOS ESCOLHIDOS II
ENCONTRO COM A VIDA......
CINQUENTA MIL EUROS........
Maria Clara é uma rapariga moderna. Olhos garotos cintilando de subentendidos, a sua boca tem o ar gaiato dum constante trejeito de troça. Veste pelo último figurino; frequenta os locais mais elegantes e escandalizou o bom povo da aldeia quando pela primeira vez, no verão transacto, calças bem justas, blusão negro e cigarro entalado entre dois dedos esguios, trepou com uma agilidade de gazela a serra semeada de enormes rochedos.
Com entoação um tanto ou quanto maliciosa, logo houve quem murmurasse:
--- Quem cabritos vende e cabras não tem...
E logo outra voz:
--- Também... tem a quem sair!...
............................................................................................
Quanto tempo passara já... Também a mãe fora jovem....e bonita. Por desgraça amara o homem que um dia foi seu marido. Um estroina dos diabos como depois se provou. E, um dia, ele partiu deixando-a nova e bonita, com uma filha nos braços.
Angustiada, Luísa sentia que nem tudo acabara. Tinha de viver e a cidade foi o seu refúgio. Partiu. Durante anos ninguém soube dela.
Trabalhou,lutou, sofreu mas venceu. Pôde criar e educar aquela filha que Deus lhe confiara.
............................................................................................
Reboliço na aldeia. Vários pedreiros trabalhavam afanosamente e, pouco a pouco, num pedaço de terra há
muito abandonada começa a erguer-se uma casa simples mas graciosa.
--- De quem é ?...- De quem não é ?... e, quando em azulejos aparece a inscrição " Vivenda Maria Luísa "
a bomba estala.
--- Da Luisinha da Quinta, aquela casa? Mas ela ficou sem nada... Foi rica? Pois foi mas não se soube orientar e os credores levaram-lhe tudo. Ná !...Aqui há gato.... onde é que ela arranjou o dinheiro? anda calça no caso...ó se anda !...
..........................................................................................
--- Para quê uma casa tão bonita se não mora cá ninguém? - interrogavam-se.
Um dia, junto ao gradeamento parou um automóvel. Conduz com desenvoltura a jovem que os curiosos deduzem, pelas parecenças, ser filha da senhora encanecida que vem ao lado. Acompanha-as uma criada com " cara de poucos amigos ". Em breve a nova corre de boca em boca. É a Luísinha da Quinta mais a filha.
--- Coitada!.. Como está velha!.. Sabe-se lá o que teria passado...
--- Ora! Dizem de outro lado---: Gente desta? É vê-las: saiu daqui sem vintém e volta de automóvel. E a filha? Parece...
--- E se calhar...é..!
--- Tal mãe, tal filha, com certeza.
--- Não admira: filha de peixe...
................................................................................................
Passou-se quase um mês e todo o povo se acostumou à recolhida presença de Maria Luísa e da filha.
Já as sombras do crepúsculo desciam da serra quando, à porta da vivenda parou um automóvel.
Dele saíu um homem ainda bastante novo. Feliz, Maria Clara, correu a abrir-lhe o portão. Abraçaram-se
com ternura. Ao outro dia, porém, ele partiu.
Escândalo! Um homem em casa delas. Tudo estava, enfim, justificado: era aquele o " homem da massa "
mas era pela filha. E, Maria Luísa foi apelidada de mulher sem vergonha, acusada de viver à custa da filha.
Passaram a olhá-las de revés, como se tivessem peste.
...............................................................................................
Ao reler, uma vez mais, o final daquela breve carta, Maria Clara chorou.
".....Não posso fazer o que me pedes, Clarinha, Não posso abandonar a fábrica, agora, com este assunto
para resolver. Não estarás tu a exagerar? Como poderão pensar mal de nós se nada fizémos para originar
esses boatos? Só porque não contámos a nossa vida a cada um? Não faças caso.... confia em mim...."
...................................................................................................
Domingo ! Dia do Senhor !... A pequena capela está repleta de fiéis. O velho prior, todo branco, curvado pelos anos, pede uns momentos de atenção, antes de começar a debandada. O que tem a dizer é breve.
Acabara de receber uma carta do esposo da Sra. D. Clarinha com um cheque de cinquenta mil euros para
restaurar a capela. E, emocionado, o bom velhote pede a Maria Clara que afirme ao sr. engenheiro o agradecimento colectivo da população.
À saída todos os olhares convergem sobre elas, num misto de admiração e servilismo que comoveu e revoltou o espírito integro de Maria Clara.
E, só quando alguém a seu lado murmurou, talvez desiludido, um - afinal ela é casada!.... ela compreendeu a atitude do marido.
Cinquenta mil euros -- mascarados de beneficentes -- foram o preço da sua reputação !
Teresa Pascoal
ENCONTRO COM A VIDA......
CINQUENTA MIL EUROS........
Maria Clara é uma rapariga moderna. Olhos garotos cintilando de subentendidos, a sua boca tem o ar gaiato dum constante trejeito de troça. Veste pelo último figurino; frequenta os locais mais elegantes e escandalizou o bom povo da aldeia quando pela primeira vez, no verão transacto, calças bem justas, blusão negro e cigarro entalado entre dois dedos esguios, trepou com uma agilidade de gazela a serra semeada de enormes rochedos.
Com entoação um tanto ou quanto maliciosa, logo houve quem murmurasse:
--- Quem cabritos vende e cabras não tem...
E logo outra voz:
--- Também... tem a quem sair!...
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Quanto tempo passara já... Também a mãe fora jovem....e bonita. Por desgraça amara o homem que um dia foi seu marido. Um estroina dos diabos como depois se provou. E, um dia, ele partiu deixando-a nova e bonita, com uma filha nos braços.
Angustiada, Luísa sentia que nem tudo acabara. Tinha de viver e a cidade foi o seu refúgio. Partiu. Durante anos ninguém soube dela.
Trabalhou,lutou, sofreu mas venceu. Pôde criar e educar aquela filha que Deus lhe confiara.
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Reboliço na aldeia. Vários pedreiros trabalhavam afanosamente e, pouco a pouco, num pedaço de terra há
muito abandonada começa a erguer-se uma casa simples mas graciosa.
--- De quem é ?...- De quem não é ?... e, quando em azulejos aparece a inscrição " Vivenda Maria Luísa "
a bomba estala.
--- Da Luisinha da Quinta, aquela casa? Mas ela ficou sem nada... Foi rica? Pois foi mas não se soube orientar e os credores levaram-lhe tudo. Ná !...Aqui há gato.... onde é que ela arranjou o dinheiro? anda calça no caso...ó se anda !...
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--- Para quê uma casa tão bonita se não mora cá ninguém? - interrogavam-se.
Um dia, junto ao gradeamento parou um automóvel. Conduz com desenvoltura a jovem que os curiosos deduzem, pelas parecenças, ser filha da senhora encanecida que vem ao lado. Acompanha-as uma criada com " cara de poucos amigos ". Em breve a nova corre de boca em boca. É a Luísinha da Quinta mais a filha.
--- Coitada!.. Como está velha!.. Sabe-se lá o que teria passado...
--- Ora! Dizem de outro lado---: Gente desta? É vê-las: saiu daqui sem vintém e volta de automóvel. E a filha? Parece...
--- E se calhar...é..!
--- Tal mãe, tal filha, com certeza.
--- Não admira: filha de peixe...
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Passou-se quase um mês e todo o povo se acostumou à recolhida presença de Maria Luísa e da filha.
Já as sombras do crepúsculo desciam da serra quando, à porta da vivenda parou um automóvel.
Dele saíu um homem ainda bastante novo. Feliz, Maria Clara, correu a abrir-lhe o portão. Abraçaram-se
com ternura. Ao outro dia, porém, ele partiu.
Escândalo! Um homem em casa delas. Tudo estava, enfim, justificado: era aquele o " homem da massa "
mas era pela filha. E, Maria Luísa foi apelidada de mulher sem vergonha, acusada de viver à custa da filha.
Passaram a olhá-las de revés, como se tivessem peste.
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Ao reler, uma vez mais, o final daquela breve carta, Maria Clara chorou.
".....Não posso fazer o que me pedes, Clarinha, Não posso abandonar a fábrica, agora, com este assunto
para resolver. Não estarás tu a exagerar? Como poderão pensar mal de nós se nada fizémos para originar
esses boatos? Só porque não contámos a nossa vida a cada um? Não faças caso.... confia em mim...."
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Domingo ! Dia do Senhor !... A pequena capela está repleta de fiéis. O velho prior, todo branco, curvado pelos anos, pede uns momentos de atenção, antes de começar a debandada. O que tem a dizer é breve.
Acabara de receber uma carta do esposo da Sra. D. Clarinha com um cheque de cinquenta mil euros para
restaurar a capela. E, emocionado, o bom velhote pede a Maria Clara que afirme ao sr. engenheiro o agradecimento colectivo da população.
À saída todos os olhares convergem sobre elas, num misto de admiração e servilismo que comoveu e revoltou o espírito integro de Maria Clara.
E, só quando alguém a seu lado murmurou, talvez desiludido, um - afinal ela é casada!.... ela compreendeu a atitude do marido.
Cinquenta mil euros -- mascarados de beneficentes -- foram o preço da sua reputação !
Teresa Pascoal
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
CONTOS ESCOLHIDOS
AO PÔR DO SOL..
Era sempre há mesma hora, quando para lá dos telhados sujos do bairro o sol tingia de sangue as águas do Tejo, que a tristeza se apossava de Mário. Aquela bola de fogo, ao longe, a perder-se no horizonte, trazia-lhe à recordação a saudosa lembrança de tanto pôr de sol que ele presenciara, embevecido, no seu Alentejo...
E, maldizia a ideia que o pai tivera de o mandar para os estudos. Fora o princípio do fim. Primeiro, aquele colégio de província, tristonho e acanhado em que os dias se desperdiçavam sem proveito, apertados pela vigilância dos perfeitos.
Depois, já homem feito, Lisboa engolira-o. A princípio deslumbrara-o a ideia de viver, enfim liberto de tutelas, entregue a si próprio, no bulício de uma grande cidade. O primeiro ano de instituto perdera-o à cata de emoções que o fizessem sentir-se, realmente, um verdadeiro homem. O pai zangara-se e não lhe permitira naquele ano voltar às suas terras, à sua planícíe amada. De castigo ficara amarrado aos livros para recuperar o tempo perdido. A lição serviu-lhe de emenda e os anos seguintes foram heroicamente vencidos.
............................................................................
O outrora sólido património dos Azevedos, enfraquecera consideravelmente, depois que sua mãe se finara.
Fizeram partilhas. A irmã, já casada, tomou conta do que lhe pertencia e ele, embriagado pela vida fácil da capital esbanjou em noites de orgia, o que lhe coubera. As suas propriedades hipotecadas foram parar às mãos de vizinhos mais ou menos endinheirados.
Após este desaire, Mário de Azevedo, jurou não voltar ao Alentejo apesar das saudades que o roíam. Não! Antes não voltar nunca mais, que sofrer o vexame de encarar os seus adversários. Voltar? Para quê, se não poderia beber água no velho tanque do peixe de barro colocado à laia de bica, de que ele tanto gostava, se não poderia, como dono, colher alguns cachos na velha vinha que ajudara a plantar. Não! Não iria. Era bem preferível sofrer, ali, na quietude do seu quarto aridamente confortável de quase solteirão.
E, Mário esquecia-se todas as tardes, sentado no maple verde seco, a contemplar, para além da janela aberta de par em par, o mergulhar do astro rei nas rubras águas do rio.
Esquecia o jornal, que raramente chegava a ler, e perdia-se no sonhop de uma terra distante, duns olhos gaiatos....
Que seria feito dela? Casara?..Em miúdos tinham sido conversados. Onde isso ia....e, no entanto, nunca a esqueceu. Fora o seu primeiro e único amor.
E o pai? Como estaria ele? Muito velho, por certo. Pobre homem!... quanto devia sofrer ao ver as suas terras, a que tanto queria, em mãos alheias, desventradas pelos seus mais encarniçados inimigos, só porque o filho, esse filho estremecido, o seu querido Mário,que ele sonhara engenheiro agrónomo, não era mais que um estroina viciado. Mais valera - a! Se ele adivinhasse.....-tê-lo criado sempre no Monte, entre ganhões e trabalho. Ao menos seria um lavrador consciente.
A escuridão acabava por avassalar o ambiente e Mário de Azevedo, limpando à costa da mão - como em pequenino - uma lágrima furtiva murmurava, quase em pensamento, imperceptívelmente.
---Perdão, meu pai, perdão !...
Quantas vezes já pensara ir, indiferente a tudo, lançar-se nos braços do velho ancião e repetir-lhe baixinho, apertando-o ao peito.aquela frase singela mas tão sincera. Mas, orgulhoso, não se atrevera ainda a concretizar aquele anseio.. Uma força estranha acorrentava-o ali. Jurara a si próprio só voltar ao Alentejo quando, vitorioso, pudesse reaver, ainda que a peso de ouro, aquilo que um dia fora seu. Para isso necessitava de um bom pecúlio.
Na empresa onde exercia a sua profissão de engenheiro ganhava bastante bem mas a vida de estúrdia que levava não lhe permitia grandes economias. E, depois....aquele maldito vício, o jogo, sugava-lhe tudo. A roleta tornara-se numa verdadeira obsessão e fora ela, a mais exigente amante, que o arrastara àquela deprimente situação.
................................................................
Agora, ali estava de novo, com a carta entre os dedos, a queimar-lhe a pele. Em meia dúzia de linhas, o pai, muito mal já pedia-lhe que voltasse. Queria vê-lo e falar-lhe:
---Vem, meu filho, tudo esqueci. Antes de morrer quero ainda abraçar-te para partir feliz.
---Não, não posso...e, quem seria que me procurou ontem no casino? Uma jovem bonita mas modesta. Não faço ideia. Oh! E o meu pai? Mas não, eu não posso ir, não tenho coragem para ver a ruína que ocasionei.
---Pela centésima vez relia aquela carta. Tenho de esquecer. Vou jogar !
...................................................................
O sol há muito se pusera para lá do horizonte. Mais uma ficha, outra, outra ainda.
---Sr. Engenheiro, estão la fora a perguntar pelo senhor.....seu pai.....
---Deixa-me, vai-te! Já perdi mas hei-de ganhar...hei-de ganhar....estás a ouvir?- a voz morreu-lhe num estertoroso gargalhar.
A noite não foi favorável. Desiludido, pois nem o esquecimento encontrara, saíu.
---Sr. Engenheiro...atenda-me, o seu pai está a morrer, venha comigo, ele quer vê-lo....
---Cala-te !
Perlaram-se de lágrimas os lindos olhos negros daquela formosa mulher que, baixando a cabeça consternada, murmurou:
--- Tu não eras assim !. Foi a cidade, foi esse pano verde, que te endureceram; não és o mesmo que conheci lá longe, no nosso Alentejo. Não és o mesmo com quem brinquei... meu pobre Mário....
---Eh! Não te vás!... Falaste em Alentejo?, mulher... Quem és ? Olha para mim.
---Luísa?!!...Tu?...Aqui?!....Perdoa-me... vamos depressa, quero ainda vê-lo... pedir-lhe perdão.....
...........................................................
---Então? Ainda partes?
---Partir? Não brinques, Luísa. Voltei à minha terra e não tornarei a deixá-la. O pai si, já se foi, mas eu ficarei para sempre. Aqui nasci e é aqui o meu lugar. Com o que agora recebi da parte de meu pai hei-de viver decentemente e não descansarei enquanto não fizer desta pequena propriedade o mais próspero e produtivo Monte das redondezas. É a minha penitência. Nunca me senti tão feliz como depois que regressei, como desde que te tenho a ti. O nosso amor será indestrutível, Luísa.
---E não sentirás a falta da cidade?
---Não! Contigo a meu lado nada me faltará. Terei o mundo todo nos braços.
---Obrigada, Mário. Anda, vem comigo. Repara, a terra é toda um fogo. Mário, vês toda esta vastidão à nossa volta? Sabes de quem eram estas terras? Recordas-te, com certeza de como brincámos sob aquelas árvores...Não queres voltar de novo a tocar os seus ramos frondosos?...
---Mas, Luísa, aquilo já não me pertence... não me peças o impossivel. Passar sob aquelas copas seria para mim bem doloroso....
---Porquê?
---Dói-me sabê-las nas mãos de outro.
---Tonto, tudo aquilo é teu, é nosso, e será amanhã dos nossos filhos.
---? ! !
---A história é longa, Mário! Basta-te, por ora, saber que a terra é nossa. Meu pai... comprou-a.
---Luísa...mas...eu....
---Tu, Mário, és o meu marido, o pai do filho que sinto pulsar em mim, e, o único senhor de tudo isto...Vem, meu amor...
..........................................................
E, sob a folhagem fechada daqueles sobreiros que sangrentos,duas bocas jovens e enamoradas se uniram
enquanto ao longe, o sol, envergonhado, discretamente se escondeu.
Teresa Pascoal
publicado em 1965 no primeiro número do ALMANAQUE PORTALEGRENSE
AO PÔR DO SOL..
Era sempre há mesma hora, quando para lá dos telhados sujos do bairro o sol tingia de sangue as águas do Tejo, que a tristeza se apossava de Mário. Aquela bola de fogo, ao longe, a perder-se no horizonte, trazia-lhe à recordação a saudosa lembrança de tanto pôr de sol que ele presenciara, embevecido, no seu Alentejo...
E, maldizia a ideia que o pai tivera de o mandar para os estudos. Fora o princípio do fim. Primeiro, aquele colégio de província, tristonho e acanhado em que os dias se desperdiçavam sem proveito, apertados pela vigilância dos perfeitos.
Depois, já homem feito, Lisboa engolira-o. A princípio deslumbrara-o a ideia de viver, enfim liberto de tutelas, entregue a si próprio, no bulício de uma grande cidade. O primeiro ano de instituto perdera-o à cata de emoções que o fizessem sentir-se, realmente, um verdadeiro homem. O pai zangara-se e não lhe permitira naquele ano voltar às suas terras, à sua planícíe amada. De castigo ficara amarrado aos livros para recuperar o tempo perdido. A lição serviu-lhe de emenda e os anos seguintes foram heroicamente vencidos.
............................................................................
O outrora sólido património dos Azevedos, enfraquecera consideravelmente, depois que sua mãe se finara.
Fizeram partilhas. A irmã, já casada, tomou conta do que lhe pertencia e ele, embriagado pela vida fácil da capital esbanjou em noites de orgia, o que lhe coubera. As suas propriedades hipotecadas foram parar às mãos de vizinhos mais ou menos endinheirados.
Após este desaire, Mário de Azevedo, jurou não voltar ao Alentejo apesar das saudades que o roíam. Não! Antes não voltar nunca mais, que sofrer o vexame de encarar os seus adversários. Voltar? Para quê, se não poderia beber água no velho tanque do peixe de barro colocado à laia de bica, de que ele tanto gostava, se não poderia, como dono, colher alguns cachos na velha vinha que ajudara a plantar. Não! Não iria. Era bem preferível sofrer, ali, na quietude do seu quarto aridamente confortável de quase solteirão.
E, Mário esquecia-se todas as tardes, sentado no maple verde seco, a contemplar, para além da janela aberta de par em par, o mergulhar do astro rei nas rubras águas do rio.
Esquecia o jornal, que raramente chegava a ler, e perdia-se no sonhop de uma terra distante, duns olhos gaiatos....
Que seria feito dela? Casara?..Em miúdos tinham sido conversados. Onde isso ia....e, no entanto, nunca a esqueceu. Fora o seu primeiro e único amor.
E o pai? Como estaria ele? Muito velho, por certo. Pobre homem!... quanto devia sofrer ao ver as suas terras, a que tanto queria, em mãos alheias, desventradas pelos seus mais encarniçados inimigos, só porque o filho, esse filho estremecido, o seu querido Mário,que ele sonhara engenheiro agrónomo, não era mais que um estroina viciado. Mais valera - a! Se ele adivinhasse.....-tê-lo criado sempre no Monte, entre ganhões e trabalho. Ao menos seria um lavrador consciente.
A escuridão acabava por avassalar o ambiente e Mário de Azevedo, limpando à costa da mão - como em pequenino - uma lágrima furtiva murmurava, quase em pensamento, imperceptívelmente.
---Perdão, meu pai, perdão !...
Quantas vezes já pensara ir, indiferente a tudo, lançar-se nos braços do velho ancião e repetir-lhe baixinho, apertando-o ao peito.aquela frase singela mas tão sincera. Mas, orgulhoso, não se atrevera ainda a concretizar aquele anseio.. Uma força estranha acorrentava-o ali. Jurara a si próprio só voltar ao Alentejo quando, vitorioso, pudesse reaver, ainda que a peso de ouro, aquilo que um dia fora seu. Para isso necessitava de um bom pecúlio.
Na empresa onde exercia a sua profissão de engenheiro ganhava bastante bem mas a vida de estúrdia que levava não lhe permitia grandes economias. E, depois....aquele maldito vício, o jogo, sugava-lhe tudo. A roleta tornara-se numa verdadeira obsessão e fora ela, a mais exigente amante, que o arrastara àquela deprimente situação.
................................................................
Agora, ali estava de novo, com a carta entre os dedos, a queimar-lhe a pele. Em meia dúzia de linhas, o pai, muito mal já pedia-lhe que voltasse. Queria vê-lo e falar-lhe:
---Vem, meu filho, tudo esqueci. Antes de morrer quero ainda abraçar-te para partir feliz.
---Não, não posso...e, quem seria que me procurou ontem no casino? Uma jovem bonita mas modesta. Não faço ideia. Oh! E o meu pai? Mas não, eu não posso ir, não tenho coragem para ver a ruína que ocasionei.
---Pela centésima vez relia aquela carta. Tenho de esquecer. Vou jogar !
...................................................................
O sol há muito se pusera para lá do horizonte. Mais uma ficha, outra, outra ainda.
---Sr. Engenheiro, estão la fora a perguntar pelo senhor.....seu pai.....
---Deixa-me, vai-te! Já perdi mas hei-de ganhar...hei-de ganhar....estás a ouvir?- a voz morreu-lhe num estertoroso gargalhar.
A noite não foi favorável. Desiludido, pois nem o esquecimento encontrara, saíu.
---Sr. Engenheiro...atenda-me, o seu pai está a morrer, venha comigo, ele quer vê-lo....
---Cala-te !
Perlaram-se de lágrimas os lindos olhos negros daquela formosa mulher que, baixando a cabeça consternada, murmurou:
--- Tu não eras assim !. Foi a cidade, foi esse pano verde, que te endureceram; não és o mesmo que conheci lá longe, no nosso Alentejo. Não és o mesmo com quem brinquei... meu pobre Mário....
---Eh! Não te vás!... Falaste em Alentejo?, mulher... Quem és ? Olha para mim.
---Luísa?!!...Tu?...Aqui?!....Perdoa-me... vamos depressa, quero ainda vê-lo... pedir-lhe perdão.....
...........................................................
---Então? Ainda partes?
---Partir? Não brinques, Luísa. Voltei à minha terra e não tornarei a deixá-la. O pai si, já se foi, mas eu ficarei para sempre. Aqui nasci e é aqui o meu lugar. Com o que agora recebi da parte de meu pai hei-de viver decentemente e não descansarei enquanto não fizer desta pequena propriedade o mais próspero e produtivo Monte das redondezas. É a minha penitência. Nunca me senti tão feliz como depois que regressei, como desde que te tenho a ti. O nosso amor será indestrutível, Luísa.
---E não sentirás a falta da cidade?
---Não! Contigo a meu lado nada me faltará. Terei o mundo todo nos braços.
---Obrigada, Mário. Anda, vem comigo. Repara, a terra é toda um fogo. Mário, vês toda esta vastidão à nossa volta? Sabes de quem eram estas terras? Recordas-te, com certeza de como brincámos sob aquelas árvores...Não queres voltar de novo a tocar os seus ramos frondosos?...
---Mas, Luísa, aquilo já não me pertence... não me peças o impossivel. Passar sob aquelas copas seria para mim bem doloroso....
---Porquê?
---Dói-me sabê-las nas mãos de outro.
---Tonto, tudo aquilo é teu, é nosso, e será amanhã dos nossos filhos.
---? ! !
---A história é longa, Mário! Basta-te, por ora, saber que a terra é nossa. Meu pai... comprou-a.
---Luísa...mas...eu....
---Tu, Mário, és o meu marido, o pai do filho que sinto pulsar em mim, e, o único senhor de tudo isto...Vem, meu amor...
..........................................................
E, sob a folhagem fechada daqueles sobreiros que sangrentos,duas bocas jovens e enamoradas se uniram
enquanto ao longe, o sol, envergonhado, discretamente se escondeu.
Teresa Pascoal
publicado em 1965 no primeiro número do ALMANAQUE PORTALEGRENSE
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
BIOGRAFIA
Creio ter chegado o momento de contar aos meus leitores um pouco da minha vida.
Natural do Montijo, vi-me com cinco anos apenas transplantada para Portalegre, belíssima cidade do Alto Alentejo " rodeada de montes e vales " como a definiu José Régio, de quem tive o grato prazer de ser amiga pessoal e especial, com quem muito aprendi.
Filha única, comecei a ler muito cedo. Simultâneamente o interesse pela escrita foi evoluindo com o crescimento. Escrever era para mim um refúgio e uma fuga para a frente, para os que me rodeavam e me incentivavam a prosseguir.
O prazer era escrever sem a ambição de publicar mas, com 13 anos, na sequência de uma festa escolar o jornal " A Rabeca" publicou um poema que escrevera para a festa.
E, nunca mais parei. Colaborei em várias publicações regionais das quais saliento "A Província", "Notícias de Setúbal", " Jornal de Évora", "Defesa da Beira", "Figueirense" e no primeiro Volume do "Almanaque Portalegrense".
Mas a minha casa mãe foi a " Gazeta do Sul "onde, ao longo de muitos anos fui escrevendo...escrevendo, já na qualidade de redatora.
Assim, centenas de trabalhos meus foram-se espalhando. Poemas, contos, crónicas, novelas, seguiram o caminho dos leitores sem que sentisse a necessidade de os aprisionar nas folhas de um ou mais livros.
Chegou, finalmente a hora de tocar a reunir. Vou procurar reencontrar tantos trabalhos dispersos. Essencialmente com a intenção expressa de mais tarde os entregar à Biblioteca da minha terra
Conseguirei levar a bom porto o barco do meu desejo?
Só o tempo o dirá !...
Talvez me decida a publicar uma ou outra selecção dos meus trabalhos.
O resto ficará inédito mas vou partilhá-los aqui , neste espaço, com quem os quiser ler.
Talvez não seja aquilo que os "entendidos" apelidam de um blog convencional. Mas é aquilo que a minha eterna irreverência me impele a fazer.
Para todos os que me lerem aqui deixo o meu sincero e portuguesíssimo BEM HAJAM !...
Teresa Pascoal
.
Creio ter chegado o momento de contar aos meus leitores um pouco da minha vida.
Natural do Montijo, vi-me com cinco anos apenas transplantada para Portalegre, belíssima cidade do Alto Alentejo " rodeada de montes e vales " como a definiu José Régio, de quem tive o grato prazer de ser amiga pessoal e especial, com quem muito aprendi.
Filha única, comecei a ler muito cedo. Simultâneamente o interesse pela escrita foi evoluindo com o crescimento. Escrever era para mim um refúgio e uma fuga para a frente, para os que me rodeavam e me incentivavam a prosseguir.
O prazer era escrever sem a ambição de publicar mas, com 13 anos, na sequência de uma festa escolar o jornal " A Rabeca" publicou um poema que escrevera para a festa.
E, nunca mais parei. Colaborei em várias publicações regionais das quais saliento "A Província", "Notícias de Setúbal", " Jornal de Évora", "Defesa da Beira", "Figueirense" e no primeiro Volume do "Almanaque Portalegrense".
Mas a minha casa mãe foi a " Gazeta do Sul "onde, ao longo de muitos anos fui escrevendo...escrevendo, já na qualidade de redatora.
Assim, centenas de trabalhos meus foram-se espalhando. Poemas, contos, crónicas, novelas, seguiram o caminho dos leitores sem que sentisse a necessidade de os aprisionar nas folhas de um ou mais livros.
Chegou, finalmente a hora de tocar a reunir. Vou procurar reencontrar tantos trabalhos dispersos. Essencialmente com a intenção expressa de mais tarde os entregar à Biblioteca da minha terra
Conseguirei levar a bom porto o barco do meu desejo?
Só o tempo o dirá !...
Talvez me decida a publicar uma ou outra selecção dos meus trabalhos.
O resto ficará inédito mas vou partilhá-los aqui , neste espaço, com quem os quiser ler.
Talvez não seja aquilo que os "entendidos" apelidam de um blog convencional. Mas é aquilo que a minha eterna irreverência me impele a fazer.
Para todos os que me lerem aqui deixo o meu sincero e portuguesíssimo BEM HAJAM !...
Teresa Pascoal
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
A MEU PAI
Ó meu saudoso pai, hoje tu és
preso na morte fria, inacessível,
a certeza mais dura, mais real,
dum verdadeiro amor já´impossível.
Sinto-te junto a mim em certos dias
e oiço a tua voz nos meus ouvidos;
quero abraçar-te e vejo que não passas
duma torpe ilusão dos meus sentidos.
Então, desfeita em pranto, essa ilusão
deixa um sabor amargo de miragem.
Tudo se esvai por fim mas, no meu peito
fica mais viva ainda a tua imagem.
Teu nome não morreu quando morreste,
nem acabou no eco dos meus gritos,
pois ele viverá, enquanto eu,
com ele assinar os meus escritos.
Henrique Pascoal era o nome do meu pai. Foi ele, que desde o primeiro dia me apoiou, lendo de uma forma discreta, às escondidas, o que eu deixava rabiscado, aqui, ali. O seu silêncio e a forma como me olhava eram um sinal de aprovação.
Por isso, depois de ter assinado, por imperativos profissionais, com vários pseudónimos, decidi que definitivamente, assumiria o nome do meu pai como a minha identidade literária.
Por isso, tudo que tenha escrito ou venha a escrever será identificado da forma mais simples, natural e verdadeira...........
Teresa Pascoal
Ó meu saudoso pai, hoje tu és
preso na morte fria, inacessível,
a certeza mais dura, mais real,
dum verdadeiro amor já´impossível.
Sinto-te junto a mim em certos dias
e oiço a tua voz nos meus ouvidos;
quero abraçar-te e vejo que não passas
duma torpe ilusão dos meus sentidos.
Então, desfeita em pranto, essa ilusão
deixa um sabor amargo de miragem.
Tudo se esvai por fim mas, no meu peito
fica mais viva ainda a tua imagem.
Teu nome não morreu quando morreste,
nem acabou no eco dos meus gritos,
pois ele viverá, enquanto eu,
com ele assinar os meus escritos.
Henrique Pascoal era o nome do meu pai. Foi ele, que desde o primeiro dia me apoiou, lendo de uma forma discreta, às escondidas, o que eu deixava rabiscado, aqui, ali. O seu silêncio e a forma como me olhava eram um sinal de aprovação.
Por isso, depois de ter assinado, por imperativos profissionais, com vários pseudónimos, decidi que definitivamente, assumiria o nome do meu pai como a minha identidade literária.
Por isso, tudo que tenha escrito ou venha a escrever será identificado da forma mais simples, natural e verdadeira...........
Teresa Pascoal
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