RESPOSTA À PÁGINA DO PAI NATAL
Peço desculpa do atrevimento, mas o senhor, meu velho amigo de tantos anos, foi tão simpático que me atrevo a roubar-lhe um pouquinho do seu tempo. Vou contar-lhe algo que aconteceu justamente a 24 de Dezembro de 2012. é claro que quando receber esta minha mensagem já estará de volta aos seus domínios mas mesmo assim acho que vale a pena.... talvez se recorde deste episódio.
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QUERIDA MARIANA,
" Faz hoje um ano. Lembras-te?
Foi ao cair da tarde. No meio da cidade, lá de cima, vislumbrei um Parque. Sem
folhas, as árvores pareciam condenados suplicando perdão.Os ramos semelhavam mãos erguidas em súplica
esperançosas que a simpática Fada Primavera, lhes perdoasse o desespero e voltasse a cobri-las de verde.
Mas nem tudo era mau. Havia um lago com patinhos cheios de vida e uma menina linda que acabara de alimentar um bando de pombos sempre esfomeados.
Resolvi parar por ali. Perguntei á`menina como se chamava:
-- MARIANA...
Onde moras? de olhos muito abertos, respondeu, apontando o outro lado da rua: -- ALI!
A escassos metros, um pobre velho, não tão velho quanto eu, repousava num banco do jardim, o cansaço de uma vida. Um pouco mais adiante, um cão, observava-me, sereno e calmamente sentado como se me conhecesse há muito.,,
Tomei imediatamente uma decisão. Dirigi-me á casa da avó da Mariana.. Pedi-lhe ...abrigo por umas horas, para descansar, que a viagem fora longa.. Não me enganara na porta.... Recebido com carinho, tive um belo cadeirão almofadado e... se eu quisesse - uma cama disponível para descansar umas horas, antes de continuar a caminhada pelas casas dos meninos bons e menos ... afinal " não há rapazes maus..."
E, como era dia 24 de Dezembro, havia um cheirinho doce a Natal que vinha da cozinha.; umas filhoses,...uns sonhos... e uma ginjinha caseira, aqueceram este corpo enregelado e...adormeci! -
Acordei assarapantado era quase meia noite. E eu ainda tinha tanto que fazer...
Sorrateiramente escapuli-me deixando algumas lembranças e uma carta de despedida para o Francisco, o Filipe, o Vasco, a Mariana e o Afonso - netos da minha simpática "estalajadeira"- que ainda acreditavam em mim e iam espreitar-me pelo buraco da fechadura, enquanto eu dormia... pensavam eles que eu não os sentia... e riam do meu ressonar, pondo um dedinho na boca para ninguém fazer barulho.....
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O que vi durante estes 365 dias que passaram deixou-me triste, acabrunhado. Eu queria arranjar presentes, mas a CRISE tornou tudo tão dificil!.... E, depois, a minha credibilidade baixou de " rating"... perdi o meu real valor e muitos deixaram de acreditar em mim.
Decidi aposentar-me. Chegou a minha hora. Vou aguentar-me com a reforma a que os 2012 anos de trabalho me dão direito. Mesmo com cortes e tudo cá o Pai Natal há-de aguentar-se eternamente,
pois as ilusões dos que ainda são meninos....chegam e sobram.
Vou, mas vou muito em segredo. Antes porém, aqui que ninguém nos ouve, quero pedir-vos uma coisa.
A vida é assim. Uns vão! Outros vêm! Em meu lugar ficará a implementar o Natal, Álguém cheio de força e poder nas vossas mentes e nos vossos corações.
O Menino Jesus que dizem, nasceu neste dia há 2012 anos precisamente quando eu comecei a trabalhar mas que, ao contrário de mim não envelhecerá, irá renascer em cada ano e será sempre o vosso MENINO JESUS!
Um beijão do vosso vèlhinho Pai Natal, para todos os meninos do planeta, sem distinção de raças, cores ou credos e em especial para a Mariana que me disse ter uma avó já vélhina a quem retribuirei, um dia, o inesquecível acolhimento que me deu.
E nunca se esqueçam de mim, um velho maroto que baralhava quase sempre as cartas que me
escreviam e depois...olha! os presentes, às vezes saiam trocados.
Deixem sempre no vosso " coração de crianças " um cantinho para o eternamente vosso
PAI NATAL
Setúbal, 24 de Dezembro de 2012
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
domingo, 22 de dezembro de 2013
O MAIS BELO NATAL
O MAIS BELO NATAL
O pai morrera no mar. Desesperada, a mãe abandonara-o pequenino e partira.
Ninguém mais ouviu falar dela. Recolhido por uns vizinhos, Zé João foi crescendo entre mar e céu, embalado na cadência das ondas..A aldeia era extremamente pobre. Como ficava um pouco desviada da estrada nacional e os acessos eram difíceis, ali não vinham nunca quaisquer visitantes. Não chegavam, por assim dizer, notícias de fora.
............................................................................
Estava frio a valer naquela noite! A chuva caía miudinha e impiedosa a fustigar as tábuas do casebre
em cujas frinchas o vento gemebundo assobiava.
Há muito que Zé João adormecera, entregue ao maravilhoso descuido dos seus oito anos fraquitos e espigados.
Alguém bateu á porta. Sobressaltada, Ti Zulmira, a pele curtida pela salmoura e os olhos meio encovados, ergueu-se num repente como se temesse qualquer coisa. Hesitou. Mas logo, resoluta, foi abrir.
No limiar da porta mal iluminada pela luz bruxuleante da candeia recortou-se um vulto de homem ainda
novo. Estava ligeiramente molhado.
- Tiazinha, não há possibilidade de eu passar aqui umas horas? Vou para longe. Pensei fazer esta viagem de noite. Não conheço bem a estrada e, na escuridão desviei-me do caminho. Temo perder-me outra vez e se pudesse ficar aqui...amanhã de manhã, muito cedinho, já poderia seguir viagem.
- Não poderá facultar-me o abrigo que necessito?
- Entre, meu senhor! Mas olhe que isto é muito pobre... nem sequer terá uma cama digna para se deitar.
- Mas terei um teto a proteger-me da frialdade da noite...
E entrou!
.................................................................
Sentado ao pé do fogo que ardia sobre uma tosca pedra em jeito de lareira, aquele homem contou a sua história.
Tinha um filhinho doente, lá para as faldas da serra, a ares. Ele andava por fora, em serviço mas queria passar com ele o Natal. O Natal de que o filho tanto gostava. Levava-lhe brinquedos: um automóvel de corda, um barquinho de velas brancas... Como ele ia ficar contente! O seu menino.. tão doentinho... lá longe naquela quinta entre pinhais.
.................................................................................
Embora adormecido, Zé João acabou por se aperceber da presença do desconhecido. Entreabriu os
olhos mas virou-se para o outro lado, recaíu numa quase inconsciência que, no entanto, lhe permitiu apreender uma ou outra palavra da conversa.
Como seria o Natal em casa daquele homem? Quem seria o menino de quem falavam?
Ele nunca tinha tido o seu Natal....
...........................................................................................
Pela frincha mal calafetada que ficava mesmo rente à alcova, Zé João viu brilhar uma estrelinha pequenina... e pareceu-lhe que a estrela o chamava nessa noite de breu.
- Zé João!...Zé João!... Vem comigo....
e o Zé estendeu a mãozinha enregelada pelo frio da noite à estrela escaldante
mas o que ele apertou não foi um raio de luz mas sim outra mãozinha pequenina como a sua. Zé João estremeceu.
- Não tenhas medo! Vem. sou eu que te chamo, o Menino Jesus!. Também estou sózinho como tu.
Na terra os meninos só se lembram de mim para me pedirem coisas boas mas. ingratos, logo que as- têm
esquecem-me por completo.
Vem, não tenhas medo. Vamos brincar para casa do meu pai teremos neve a valer e estrelas verda-
deiras na nossa Árvore de Natal.. e muitos anjinhos loiros... Vem, Zé João! Vem por aqui...
- E terei um barquinho como há na aldeia para eu andar no mar? Um barco grande para eu me meter dentro?
- Terás um mais lindo, ainda, com velas branquinhas de luar.
. Verdade?
- Tem fé! Confia e espera.
- Mas eu depois não sei conduzi-lo; sou tão pequenino, ó Jesus...
. O Pai te guiará... entrega-te à sua guarda e serás grande...
- Tu tens pai?
- Tenho!. Todos nós temos pai, Zé João!....
- Todos não! Eu não tenho...
- Segue em frente! Ergue a tua fronte bem alto. Que não tenhas nunca motivo para a baixares...
se fores digno e bom, encontrarás teu pai. Está lá em cima! ergue-te da lama do mundo!
- Sobe até Ele e vê-lo-às...
........................................................................
- É seu o pequenito?
-Não, meu senhor! - e a ti Zulmira contou ao seu hóspede de uma noite, a triste história do pobre
ZÉ João.
- Como ele dorme!...coitadinho!... Faz-me lembrar o meu filho. Parece um anjo.
- Um anjo? Assim tisnado, meu senhor?
- A cor não importa, tiazinha; olhe como ele sorri mesmo dormindo..... talvez sonhe com o seu Natal.
Com o despertar de amanhã...
- Natal!! Ele sabe lá o que isso é, meu senhor? O pobrezinho nunca teve Natal... nunca teve um brinquedo. Brinca com a areia da praia e com as conchas do mar... e já não é pouco... Somos muito pobres....
.....................................................................................................
A manhã era ainda uma criança quando aquele desconhecido se despediu da Ti Zulmira que, pelo atalho o reconduziu à estrada, depois de ter tirado o carro do lameiro onde os pneus da frente se tinham
atolado.
O motor roncou ao longe na curva da estrada e ti Zulmira, enxugando uma lágrima furtiva, afagou, na palma da mão encarquilhada e seca as moedas que ele lhe dera ao partir.
Voltou para trás. Encostada à ombreira da porta carcomida pelos anos, sonhou como poderia ser
diferente para eles aquele dia de Natal se não fossem realmente tão pobres.
Um gargalhar feliz a despertou.
- Que é isso, Zé João?
- Avó...Venha ver! foi o Jesus quem mo deu..... Eu fui ao Céu esta noite, com Ele, e brinquei muito, avó... e Ele disse-me que me dava o barquinho.... Não é lindo..avó!?
............................................................................................
Sobre a manta esburacada do catre, entre papeis coloridos, já rasgados, um pequeno barco alvejava.
Era tarde para lhe agradecer. Ele há muito que partira. Mas mesmo assim, de lágrimas a queimarem-lhe os olhos, ti Zulmira murmurou emocionada:
- - Que Deus o proteja e lhe cure depressa o filhinho doente.....
O pai morrera no mar. Desesperada, a mãe abandonara-o pequenino e partira.
Ninguém mais ouviu falar dela. Recolhido por uns vizinhos, Zé João foi crescendo entre mar e céu, embalado na cadência das ondas..A aldeia era extremamente pobre. Como ficava um pouco desviada da estrada nacional e os acessos eram difíceis, ali não vinham nunca quaisquer visitantes. Não chegavam, por assim dizer, notícias de fora.
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Estava frio a valer naquela noite! A chuva caía miudinha e impiedosa a fustigar as tábuas do casebre
em cujas frinchas o vento gemebundo assobiava.
Há muito que Zé João adormecera, entregue ao maravilhoso descuido dos seus oito anos fraquitos e espigados.
Alguém bateu á porta. Sobressaltada, Ti Zulmira, a pele curtida pela salmoura e os olhos meio encovados, ergueu-se num repente como se temesse qualquer coisa. Hesitou. Mas logo, resoluta, foi abrir.
No limiar da porta mal iluminada pela luz bruxuleante da candeia recortou-se um vulto de homem ainda
novo. Estava ligeiramente molhado.
- Tiazinha, não há possibilidade de eu passar aqui umas horas? Vou para longe. Pensei fazer esta viagem de noite. Não conheço bem a estrada e, na escuridão desviei-me do caminho. Temo perder-me outra vez e se pudesse ficar aqui...amanhã de manhã, muito cedinho, já poderia seguir viagem.
- Não poderá facultar-me o abrigo que necessito?
- Entre, meu senhor! Mas olhe que isto é muito pobre... nem sequer terá uma cama digna para se deitar.
- Mas terei um teto a proteger-me da frialdade da noite...
E entrou!
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Sentado ao pé do fogo que ardia sobre uma tosca pedra em jeito de lareira, aquele homem contou a sua história.
Tinha um filhinho doente, lá para as faldas da serra, a ares. Ele andava por fora, em serviço mas queria passar com ele o Natal. O Natal de que o filho tanto gostava. Levava-lhe brinquedos: um automóvel de corda, um barquinho de velas brancas... Como ele ia ficar contente! O seu menino.. tão doentinho... lá longe naquela quinta entre pinhais.
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Embora adormecido, Zé João acabou por se aperceber da presença do desconhecido. Entreabriu os
olhos mas virou-se para o outro lado, recaíu numa quase inconsciência que, no entanto, lhe permitiu apreender uma ou outra palavra da conversa.
Como seria o Natal em casa daquele homem? Quem seria o menino de quem falavam?
Ele nunca tinha tido o seu Natal....
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Pela frincha mal calafetada que ficava mesmo rente à alcova, Zé João viu brilhar uma estrelinha pequenina... e pareceu-lhe que a estrela o chamava nessa noite de breu.
- Zé João!...Zé João!... Vem comigo....
e o Zé estendeu a mãozinha enregelada pelo frio da noite à estrela escaldante
mas o que ele apertou não foi um raio de luz mas sim outra mãozinha pequenina como a sua. Zé João estremeceu.
- Não tenhas medo! Vem. sou eu que te chamo, o Menino Jesus!. Também estou sózinho como tu.
Na terra os meninos só se lembram de mim para me pedirem coisas boas mas. ingratos, logo que as- têm
esquecem-me por completo.
Vem, não tenhas medo. Vamos brincar para casa do meu pai teremos neve a valer e estrelas verda-
deiras na nossa Árvore de Natal.. e muitos anjinhos loiros... Vem, Zé João! Vem por aqui...
- E terei um barquinho como há na aldeia para eu andar no mar? Um barco grande para eu me meter dentro?
- Terás um mais lindo, ainda, com velas branquinhas de luar.
. Verdade?
- Tem fé! Confia e espera.
- Mas eu depois não sei conduzi-lo; sou tão pequenino, ó Jesus...
. O Pai te guiará... entrega-te à sua guarda e serás grande...
- Tu tens pai?
- Tenho!. Todos nós temos pai, Zé João!....
- Todos não! Eu não tenho...
- Segue em frente! Ergue a tua fronte bem alto. Que não tenhas nunca motivo para a baixares...
se fores digno e bom, encontrarás teu pai. Está lá em cima! ergue-te da lama do mundo!
- Sobe até Ele e vê-lo-às...
........................................................................
- É seu o pequenito?
-Não, meu senhor! - e a ti Zulmira contou ao seu hóspede de uma noite, a triste história do pobre
ZÉ João.
- Como ele dorme!...coitadinho!... Faz-me lembrar o meu filho. Parece um anjo.
- Um anjo? Assim tisnado, meu senhor?
- A cor não importa, tiazinha; olhe como ele sorri mesmo dormindo..... talvez sonhe com o seu Natal.
Com o despertar de amanhã...
- Natal!! Ele sabe lá o que isso é, meu senhor? O pobrezinho nunca teve Natal... nunca teve um brinquedo. Brinca com a areia da praia e com as conchas do mar... e já não é pouco... Somos muito pobres....
.....................................................................................................
A manhã era ainda uma criança quando aquele desconhecido se despediu da Ti Zulmira que, pelo atalho o reconduziu à estrada, depois de ter tirado o carro do lameiro onde os pneus da frente se tinham
atolado.
O motor roncou ao longe na curva da estrada e ti Zulmira, enxugando uma lágrima furtiva, afagou, na palma da mão encarquilhada e seca as moedas que ele lhe dera ao partir.
Voltou para trás. Encostada à ombreira da porta carcomida pelos anos, sonhou como poderia ser
diferente para eles aquele dia de Natal se não fossem realmente tão pobres.
Um gargalhar feliz a despertou.
- Que é isso, Zé João?
- Avó...Venha ver! foi o Jesus quem mo deu..... Eu fui ao Céu esta noite, com Ele, e brinquei muito, avó... e Ele disse-me que me dava o barquinho.... Não é lindo..avó!?
............................................................................................
Sobre a manta esburacada do catre, entre papeis coloridos, já rasgados, um pequeno barco alvejava.
Era tarde para lhe agradecer. Ele há muito que partira. Mas mesmo assim, de lágrimas a queimarem-lhe os olhos, ti Zulmira murmurou emocionada:
- - Que Deus o proteja e lhe cure depressa o filhinho doente.....
sábado, 7 de dezembro de 2013
UMA HISTÓRIA VERDADEIRA COM SABOR A NATAL- O SIMÃO
O SIMÃO
Era uma vez uma mãe muito especial.
Tinha o raro dom de saber ouvir. Ouvia não só o que as pessoas diziam mas também as conversas dos animaizinhos... Sabia ouvir as vozes e os silêncios.
Um dia, essa mãe especial foi a um hipermercado. E, como tinha um bébé pequenino, de cinco mezinhos apenas, foi à secção dos brinquedos.
As mães estão sempre a dizer que não compram nada...nada...nada mas, quando vão aos hipermercados não conseguem resistir. Acabam sempre na zona dos brinquedos.
É um mundo mágico. A magia faz parte da vida e elas, as mães, sonham com o momento mágico de ver os filhos felizes com mais um brinquedo.
No meio de tanta coisa, aquela mãe especial ficou confusa: os brinquedos eram tantos e tão giros. Difícil era escolher....
E, o Francisco, assim se chamava o seu menino, merecia tudo.
Por isso, ela olhou...olhou...olhou...
Nas prateleiras, brincavam, lado a lado, carrinhos, bolas coloridas, bonecas, rocas, peluches, veluches...
um nunca acabar.
Uns, tocavam sininhos...outros riam ou choravam, outros estavam simplesmente adormecidos à espera que alguém os despertasse e os levasse.
De repente, aquela mãe especial, que até sabia ouvir, reparou num macaquito castanho que parecia muito envergonhado, no seu canto, para onde o empurrara um coelho atrevido de longas orelhas brancas que, com dois dentinhos de fora dizia:
---Chega-te para lá!!! Agora é a minha vez. Sou lindo e ela vai levar-me...
Como que a dar uma ajuda, o coelhito manhoso deu um salto da prateleira, para a frente, e caíu dentro do carrinho das compras. Estava convencido que assim aquela mãe não resistiria a levá-lo.
Ela apanhou-o com cuidado, afagou-o e voltou a repô-lo na prateleira..
Foi então que reparou no macaquito castanho claro. Tinha as plantas dos pés verde clarinho e ao pescoço
um laçarote da mesma cor. Pegou-lhe. Ele desajeitado, barrigudo, com orelhas pequeninas tinha os olhos redondinhos, tristes mas muito azuis... e tinha, calculem, um grande nariz vermelho...
Parecia um "doutor palhaço"... e era tão fofinho... que aquela mãe especial não resistiu a apertá-lo contra o peito, como apertava o seu menino.
Foi amor á primeira vista. Logo ali lhe deu um nome: SIMÃO.
E assim o MACACO SIMÃO, mudou-se para casa do Francisco...
Ambos pequeninos, gorduchinhos, muito meigos, desde o primeiro minuto se tornaram grandes e inseparáveis amigos.
Sempre que o Francisco queria fazer Ó -Ó, a mamã ia buscar o SIMÃO e eles lá ficavam abraçados enquanto o sono durava....
...........................................................................................................................................................
E desta forma, o SIMÃO que parecia t-ao tímido ganhou e bem o seu lugar no seio da família onde ainda hoje vive feliz e contente. E assim quase sem darem por isso se passaram oito anos de uma amizade, nunca posta em causa, entre um menino de verdade e um macaco a fingir.
Era uma vez uma mãe muito especial.
Tinha o raro dom de saber ouvir. Ouvia não só o que as pessoas diziam mas também as conversas dos animaizinhos... Sabia ouvir as vozes e os silêncios.
Um dia, essa mãe especial foi a um hipermercado. E, como tinha um bébé pequenino, de cinco mezinhos apenas, foi à secção dos brinquedos.
As mães estão sempre a dizer que não compram nada...nada...nada mas, quando vão aos hipermercados não conseguem resistir. Acabam sempre na zona dos brinquedos.
É um mundo mágico. A magia faz parte da vida e elas, as mães, sonham com o momento mágico de ver os filhos felizes com mais um brinquedo.
No meio de tanta coisa, aquela mãe especial ficou confusa: os brinquedos eram tantos e tão giros. Difícil era escolher....
E, o Francisco, assim se chamava o seu menino, merecia tudo.
Por isso, ela olhou...olhou...olhou...
Nas prateleiras, brincavam, lado a lado, carrinhos, bolas coloridas, bonecas, rocas, peluches, veluches...
um nunca acabar.
Uns, tocavam sininhos...outros riam ou choravam, outros estavam simplesmente adormecidos à espera que alguém os despertasse e os levasse.
De repente, aquela mãe especial, que até sabia ouvir, reparou num macaquito castanho que parecia muito envergonhado, no seu canto, para onde o empurrara um coelho atrevido de longas orelhas brancas que, com dois dentinhos de fora dizia:
---Chega-te para lá!!! Agora é a minha vez. Sou lindo e ela vai levar-me...
Como que a dar uma ajuda, o coelhito manhoso deu um salto da prateleira, para a frente, e caíu dentro do carrinho das compras. Estava convencido que assim aquela mãe não resistiria a levá-lo.
Ela apanhou-o com cuidado, afagou-o e voltou a repô-lo na prateleira..
Foi então que reparou no macaquito castanho claro. Tinha as plantas dos pés verde clarinho e ao pescoço
um laçarote da mesma cor. Pegou-lhe. Ele desajeitado, barrigudo, com orelhas pequeninas tinha os olhos redondinhos, tristes mas muito azuis... e tinha, calculem, um grande nariz vermelho...
Parecia um "doutor palhaço"... e era tão fofinho... que aquela mãe especial não resistiu a apertá-lo contra o peito, como apertava o seu menino.
Foi amor á primeira vista. Logo ali lhe deu um nome: SIMÃO.
E assim o MACACO SIMÃO, mudou-se para casa do Francisco...
Ambos pequeninos, gorduchinhos, muito meigos, desde o primeiro minuto se tornaram grandes e inseparáveis amigos.
Sempre que o Francisco queria fazer Ó -Ó, a mamã ia buscar o SIMÃO e eles lá ficavam abraçados enquanto o sono durava....
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E desta forma, o SIMÃO que parecia t-ao tímido ganhou e bem o seu lugar no seio da família onde ainda hoje vive feliz e contente. E assim quase sem darem por isso se passaram oito anos de uma amizade, nunca posta em causa, entre um menino de verdade e um macaco a fingir.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
ONTEM FOI VERÂO
ONTEM FOI VERÂO
A casa estava vazia.
Os filhos que em temos haviam riscado o parquet com os patins, com as botas grossas enlameadas ao voltar da escola, que haviam desarrumado livros, discos e revistas, que haviam dado tanto trabalho à velha aparelhagem, estavam longe...
A Ana despegada de sentimentalismos partira para a Suíça a tirar um curso e por lá ficara.. Mandava um postal pelos anos e outro pelo Natal..
O Carlos depois da Guerra de África deixou-se conquistar pelos feitiços do continente e, na primeira oportunidade voltou e fixou-se com a mulher, pois entretanto casara, na Àfrica do Sul. Estavam bem e já tinham vindo de férias três ou quatro vezes.
A Nita, ficara por mais perto. Optara pelo Porto para cursar jornalismo. Lá fixou o seu quartel general,
donde partia para as suas missões. De vez em quando, de passagem, batia ao ferrolho, dava um beijo à
mãe e voltava correndo atrás de qualquer notícia sensacional.
O Luís, o seu Luís, partira uma tarde de fim de Outono, vitimado por aquela maldita doença que não
perdoa. Ao menos não sofreu.. Ficou-se que nem um passarinho. E ela ficou... ficou sózinha com a sua
dor e depois com a sua saudade.
A dor cicatrizou como ferida de operação e a saudade vem visitá-la de vez em quando para mitigar a sua solidão.
Fizera sessenta anos. O correio trouxera-lhe, como prenda, uma fotografia do Jorge Luis - filho do Carlos, - recém nascido, com um convite para ir a Pretória assistir ao batizado...Ficou comovida. Quase
sentia o calor daquele corpinho no seu braço. Iniciou um movimento de embalar enquanto ensaiava uma das muitas canções que costumava cantar frente ao espelho.
Encarou com a sua imagem reflectida a denunciar aquele devaneio. Inconscientemente passou a mão pelos cabelos, desceu a ponta dos dedos pelo rosto, à volta dos olhos, pelos malares, contornando o queixo.. Ainda era uma bela mulher. Há muito deixara no fundo da gaveta a caixa das sombras, o blush,
o rimel.. Só o batom não pusera de lado porque o seu Luis não gostava de a ver de lábios descorados.
Era como uma homenagem a esse inesquecível companheiro de tantos anos.
Teve a curiosidade de ver como ainda ficaria maquilhada. Fez uma pintura levezinha. Nunca gostara de
caras de palhaço... Soltou o cabelo como outrora. Viu-se quinze anos antes....
Nesse dia todos tinham uma surpresa: ela comprara um bonito relógio para o seu Luis...
Ele chegou atrasado como sempre carregando um grande ramo de rosas vermelhas e um ar misterioso
pensando que ela não se lembrava...
Os filhos - ainda todos juntos - haviam preparado uma festinha inesquecível: um jantar maravilhoso, um
par de alianças de prata e calculem dois bilhetes para o teatro e a reserva de um quarto no melhor hotel
da cidade. As bodas de prata dos seus queridos pais mereciam tudo isso, explicaram eles. Nunca poderia esquecer esse episódio feliz da sua vida.
Olhou-se no espelho. Primeiro a medo como se temesse não conhecer a imagem reflectida. depois com curiosidade e por fim com satisfação pois não lhe desagradava a mulher que ainda era: esclarecida, culta,
enxuta de carnes, com aspecto saudável e agradável à vista.
É! - pensou - sou uma velha elegante... Mas, pensando bem, como mulher sensata que sempre foste não achas que estás um pouco despropositada?... Não tens mais os quarenta e cinco anos da tua segunda noite
de núpcias...
O Outono da vida está aí, sereno, suave, calmo como uma tarde de Setembro.
O Verão embora não distante, já foi ontem!...
A casa estava vazia.
Os filhos que em temos haviam riscado o parquet com os patins, com as botas grossas enlameadas ao voltar da escola, que haviam desarrumado livros, discos e revistas, que haviam dado tanto trabalho à velha aparelhagem, estavam longe...
A Ana despegada de sentimentalismos partira para a Suíça a tirar um curso e por lá ficara.. Mandava um postal pelos anos e outro pelo Natal..
O Carlos depois da Guerra de África deixou-se conquistar pelos feitiços do continente e, na primeira oportunidade voltou e fixou-se com a mulher, pois entretanto casara, na Àfrica do Sul. Estavam bem e já tinham vindo de férias três ou quatro vezes.
A Nita, ficara por mais perto. Optara pelo Porto para cursar jornalismo. Lá fixou o seu quartel general,
donde partia para as suas missões. De vez em quando, de passagem, batia ao ferrolho, dava um beijo à
mãe e voltava correndo atrás de qualquer notícia sensacional.
O Luís, o seu Luís, partira uma tarde de fim de Outono, vitimado por aquela maldita doença que não
perdoa. Ao menos não sofreu.. Ficou-se que nem um passarinho. E ela ficou... ficou sózinha com a sua
dor e depois com a sua saudade.
A dor cicatrizou como ferida de operação e a saudade vem visitá-la de vez em quando para mitigar a sua solidão.
Fizera sessenta anos. O correio trouxera-lhe, como prenda, uma fotografia do Jorge Luis - filho do Carlos, - recém nascido, com um convite para ir a Pretória assistir ao batizado...Ficou comovida. Quase
sentia o calor daquele corpinho no seu braço. Iniciou um movimento de embalar enquanto ensaiava uma das muitas canções que costumava cantar frente ao espelho.
Encarou com a sua imagem reflectida a denunciar aquele devaneio. Inconscientemente passou a mão pelos cabelos, desceu a ponta dos dedos pelo rosto, à volta dos olhos, pelos malares, contornando o queixo.. Ainda era uma bela mulher. Há muito deixara no fundo da gaveta a caixa das sombras, o blush,
o rimel.. Só o batom não pusera de lado porque o seu Luis não gostava de a ver de lábios descorados.
Era como uma homenagem a esse inesquecível companheiro de tantos anos.
Teve a curiosidade de ver como ainda ficaria maquilhada. Fez uma pintura levezinha. Nunca gostara de
caras de palhaço... Soltou o cabelo como outrora. Viu-se quinze anos antes....
Nesse dia todos tinham uma surpresa: ela comprara um bonito relógio para o seu Luis...
Ele chegou atrasado como sempre carregando um grande ramo de rosas vermelhas e um ar misterioso
pensando que ela não se lembrava...
Os filhos - ainda todos juntos - haviam preparado uma festinha inesquecível: um jantar maravilhoso, um
par de alianças de prata e calculem dois bilhetes para o teatro e a reserva de um quarto no melhor hotel
da cidade. As bodas de prata dos seus queridos pais mereciam tudo isso, explicaram eles. Nunca poderia esquecer esse episódio feliz da sua vida.
Olhou-se no espelho. Primeiro a medo como se temesse não conhecer a imagem reflectida. depois com curiosidade e por fim com satisfação pois não lhe desagradava a mulher que ainda era: esclarecida, culta,
enxuta de carnes, com aspecto saudável e agradável à vista.
É! - pensou - sou uma velha elegante... Mas, pensando bem, como mulher sensata que sempre foste não achas que estás um pouco despropositada?... Não tens mais os quarenta e cinco anos da tua segunda noite
de núpcias...
O Outono da vida está aí, sereno, suave, calmo como uma tarde de Setembro.
O Verão embora não distante, já foi ontem!...
terça-feira, 3 de setembro de 2013
TEMPESTADE EM DIA DE SOL
TEMPESTADE EM DIA DE SOL
Estava um dia de Sol. Quente. Abrasador.
Setembro dava os primeiros passos a caminho do Outono.
Maria tremia como se fosse Inverno. Debaixo dos seus pés " pressentia " aquele rugir de
comboio enfurecido a correr, desgovernado, nos carris como naquela noite do último sismo.
Teve tanto medo... pensou que o fim chegara e saltando da cama só conseguiu dizer:
--Protege-nos, Senhor, se essa for a Tua vontade....
E ficou, quieta, pregada ao mosaico da sala, tentando adivinhar se algo de mau teria aconteci
do para lá daquela janela onde o pequeno quarto crescente da lua era um pronúncio de espe
rança.
E, graças a Deus nada acontecera. Tudo não passara de um grande susto.
Os meses correram, os anos passaram, as andorinhas partiram e tornaram a vir, fizeram
novos ninhos e a vida continuou...
..........................................................................................................................................
Hoje, também era Setembro. Hoje também o calor quase gelou. Hoje o Sol foi engolido
pela nuvem de fumo daquele incêndio que "voluntáriamente" ateaste sem dó, piedade ou
consciência.
E tu, certo do mal que fazias, tinhas coragem de confessar:
---Teve de ser assim...não havia outra maneira....e tu sabes que de outra forma não
daria...
Maria tremeu, dos pés à cabeça. Viu-se lenha daquela fogueira. Viu-se água a jorrar dos
olhos embaciados pelo fumo. viu-se no fundo daquela ribanceira que a tentava. A noite
tombou. Maria olhou para o céu. Quis enxergar a lua e questionar o seu Deus:
--- Tinha mesmo de ser assim?
Seja feita a tua vontade! Perdoa, meu pai. Eu sempre confiei em ti e tu em mim...
Lá em cima, numa estreita nesga de céu, quase imperceptível, uma muito muito fininha e
minguante lua teve a coragem de sorrir e sussurrar baixinho " quero que cresças comigo"...
....................................................................................................................................
E, Maria, apesar do seu sofrimento, teve a coragem de sorrir para a lua, acenar-lhe com
dois dedos em sinal de vitória, enviar-lhe de longe um beijo e murmurar convicta:
---- Espera por mim! Deixa-me vencer esta tristeza! Ajuda-me a crescer e ainda vamos ser
grandes amigas. Ambas somos sonhadoras, lutadoras, temos poesia no coração, sofremos
muitas vezes por amor mas seremos triunfantes......
e
Estava um dia de Sol. Quente. Abrasador.
Setembro dava os primeiros passos a caminho do Outono.
Maria tremia como se fosse Inverno. Debaixo dos seus pés " pressentia " aquele rugir de
comboio enfurecido a correr, desgovernado, nos carris como naquela noite do último sismo.
Teve tanto medo... pensou que o fim chegara e saltando da cama só conseguiu dizer:
--Protege-nos, Senhor, se essa for a Tua vontade....
E ficou, quieta, pregada ao mosaico da sala, tentando adivinhar se algo de mau teria aconteci
do para lá daquela janela onde o pequeno quarto crescente da lua era um pronúncio de espe
rança.
E, graças a Deus nada acontecera. Tudo não passara de um grande susto.
Os meses correram, os anos passaram, as andorinhas partiram e tornaram a vir, fizeram
novos ninhos e a vida continuou...
..........................................................................................................................................
Hoje, também era Setembro. Hoje também o calor quase gelou. Hoje o Sol foi engolido
pela nuvem de fumo daquele incêndio que "voluntáriamente" ateaste sem dó, piedade ou
consciência.
E tu, certo do mal que fazias, tinhas coragem de confessar:
---Teve de ser assim...não havia outra maneira....e tu sabes que de outra forma não
daria...
Maria tremeu, dos pés à cabeça. Viu-se lenha daquela fogueira. Viu-se água a jorrar dos
olhos embaciados pelo fumo. viu-se no fundo daquela ribanceira que a tentava. A noite
tombou. Maria olhou para o céu. Quis enxergar a lua e questionar o seu Deus:
--- Tinha mesmo de ser assim?
Seja feita a tua vontade! Perdoa, meu pai. Eu sempre confiei em ti e tu em mim...
Lá em cima, numa estreita nesga de céu, quase imperceptível, uma muito muito fininha e
minguante lua teve a coragem de sorrir e sussurrar baixinho " quero que cresças comigo"...
....................................................................................................................................
E, Maria, apesar do seu sofrimento, teve a coragem de sorrir para a lua, acenar-lhe com
dois dedos em sinal de vitória, enviar-lhe de longe um beijo e murmurar convicta:
---- Espera por mim! Deixa-me vencer esta tristeza! Ajuda-me a crescer e ainda vamos ser
grandes amigas. Ambas somos sonhadoras, lutadoras, temos poesia no coração, sofremos
muitas vezes por amor mas seremos triunfantes......
e
sábado, 29 de junho de 2013
IMPROVISO
29 de Junho : 10,30 da manhã :
Porquê?...porquê ?...porquê ?...
porque tento enganar-me?
eu sei,
pressinto,
no olhar triste do meu santo
quando
peço por ti.
Juro, não minto !
Não tenho que esperar,
acreditar,
sonhar....
Que parvoíces minhas,
que ilusões.
que mágua..
por que ficar
assim
a esperar alguém,
sabendo que não vem!!??
Só quero ir embora,
partindo na corrente
rio fora,
sem destino previsto...
sem hora de partida
nem chegada.
E, contudo,
teimo em acreditar.
Em quê??
Em nada!..
29 de Junho : 10,30 da manhã :
Porquê?...porquê ?...porquê ?...
porque tento enganar-me?
eu sei,
pressinto,
no olhar triste do meu santo
quando
peço por ti.
Juro, não minto !
Não tenho que esperar,
acreditar,
sonhar....
Que parvoíces minhas,
que ilusões.
que mágua..
por que ficar
assim
a esperar alguém,
sabendo que não vem!!??
Só quero ir embora,
partindo na corrente
rio fora,
sem destino previsto...
sem hora de partida
nem chegada.
E, contudo,
teimo em acreditar.
Em quê??
Em nada!..
quarta-feira, 22 de maio de 2013
MARIA SOLIDÃO
MARIA SOLIDÃO
Tudo voltou como há cinquenta e três anos.: Corria o mês de Maio de l959....
Maria Solidão era uma bela adolescente. Admirada. Cortejada. Desejada. Mas, só. Só, até ao dia em que o balanço das águas do Tejo a balançou contra os teus cabelos brancos e se amparou nos teus braços estendidos com firmeza. O azul que pintava o céu e envolvia o barco confundiu-se com a cor dos vossos olhos. Foi uma inundação de amor sincero, inocente, puro.
Maria deixou de ser Solidão. Virou Maria da Esperança, suspirosa entre maré vasa e maré cheia.
Foi uma luta diária, empolgada, entre o Outono e a Primavera que, um dia capitulou deixando-o triste
mas resignado, certo de que entre eles se estendia um escaldante e longo Verão de muitos milhares de
kilómetros.
Perdidos na ausência pensavam, às vezes, um no outro.
Só, ele cultivou aquele amor e imortalizou-a à sua maneira, sem que ela o soubesse.
Ela, nunca o esqueceu. Um amor assim nunca se esquece... guardou-lhe, no coração o melhor lugar que lá tinha reservado..
As voltas do mundo deixaram-na novamente solitária até ao dia em que descobriu que fora a última paixão que ele acalentara e que iluminara o resto dos seus dias.
Sentiu-se vaidosa. Pequenina. Frágil como da primeira vez em que se viram. Envergonhada mesmo..
Voltou a procurá-lo não na casa onde morara mas na branca casa para onde o tempo e a morte o obrigaram a mudar-se, Sentia-se bem ali, junto dele e, nesses momentos voltava a ter 20 anos. A escrever
outros poemas para ele, a levar-lhe as flores que ele gostava. Lembrava-se das rosas que ele tinha no quintal.
Vermelhas como a paixão que o incendiava. Perfumadas e lindas como as cartas e os versos que escrevia. Cortava-as para ela.
Os extremos tocam-se. Maio de 2012.
Ali estava de novo. De olhos postos na lápide da campa....
Uma coroa de flores pendendo-lhe das mãos´
Dos olhos ainda azuis, cansados, escorriam duas lágrimas que mal lhe permitiam ler o epitáfio que ele próprio escrevera. Era uma mensagem que lhe deixara e que só ela entenderia.
Sorriu como ele gostava. Sacou uma caneta da mala. Acariciou com a ponta dos dedos esguios, a foto, igual a uma que ela tinha e que ele próprio escolhera para ficar ali. Decidida escreveu no cartão, ainda
virgem, que pendia da fita lilás:
" Voltei a ser Maria Solidão. Espera um pouco mais, por mim. Não vou demorar "
Soprou-lhe um beijo, com a mão estendida, depois de ter colocado a coroa sobre a campa e partiu...
Levava no rosto a esperança de que já faltava pouco...para se reencontrarem.
Tudo voltou como há cinquenta e três anos.: Corria o mês de Maio de l959....
Maria Solidão era uma bela adolescente. Admirada. Cortejada. Desejada. Mas, só. Só, até ao dia em que o balanço das águas do Tejo a balançou contra os teus cabelos brancos e se amparou nos teus braços estendidos com firmeza. O azul que pintava o céu e envolvia o barco confundiu-se com a cor dos vossos olhos. Foi uma inundação de amor sincero, inocente, puro.
Maria deixou de ser Solidão. Virou Maria da Esperança, suspirosa entre maré vasa e maré cheia.
Foi uma luta diária, empolgada, entre o Outono e a Primavera que, um dia capitulou deixando-o triste
mas resignado, certo de que entre eles se estendia um escaldante e longo Verão de muitos milhares de
kilómetros.
Perdidos na ausência pensavam, às vezes, um no outro.
Só, ele cultivou aquele amor e imortalizou-a à sua maneira, sem que ela o soubesse.
Ela, nunca o esqueceu. Um amor assim nunca se esquece... guardou-lhe, no coração o melhor lugar que lá tinha reservado..
As voltas do mundo deixaram-na novamente solitária até ao dia em que descobriu que fora a última paixão que ele acalentara e que iluminara o resto dos seus dias.
Sentiu-se vaidosa. Pequenina. Frágil como da primeira vez em que se viram. Envergonhada mesmo..
Voltou a procurá-lo não na casa onde morara mas na branca casa para onde o tempo e a morte o obrigaram a mudar-se, Sentia-se bem ali, junto dele e, nesses momentos voltava a ter 20 anos. A escrever
outros poemas para ele, a levar-lhe as flores que ele gostava. Lembrava-se das rosas que ele tinha no quintal.
Vermelhas como a paixão que o incendiava. Perfumadas e lindas como as cartas e os versos que escrevia. Cortava-as para ela.
Os extremos tocam-se. Maio de 2012.
Ali estava de novo. De olhos postos na lápide da campa....
Uma coroa de flores pendendo-lhe das mãos´
Dos olhos ainda azuis, cansados, escorriam duas lágrimas que mal lhe permitiam ler o epitáfio que ele próprio escrevera. Era uma mensagem que lhe deixara e que só ela entenderia.
Sorriu como ele gostava. Sacou uma caneta da mala. Acariciou com a ponta dos dedos esguios, a foto, igual a uma que ela tinha e que ele próprio escolhera para ficar ali. Decidida escreveu no cartão, ainda
virgem, que pendia da fita lilás:
" Voltei a ser Maria Solidão. Espera um pouco mais, por mim. Não vou demorar "
Soprou-lhe um beijo, com a mão estendida, depois de ter colocado a coroa sobre a campa e partiu...
Levava no rosto a esperança de que já faltava pouco...para se reencontrarem.
terça-feira, 7 de maio de 2013
VOLTANDO ATRÁS
PARA A MINHA MÃE QUE JÁ PARTIU, vai toda a minha saudade.
SALVÉ O DIA 7 DE MAIO....
Para ti, minha mãe,
eu escrevo duas linhas,
mal traçadas...a correr....
cuja única função
é te dizer
como eu gosto de ti!
Fizeste anos de nascida
ó minha mãe,
e eu quero dar-te
um grande... um grande beijo,
ó minha mãe querida....
Parabéns, Felicidades,
e que o Senhor te dê
o que de bom existe,
minha querida:
Paz, carinho, amor
e longa vida !
E, eu, ó minha mãe,
que posso dar-te agora?
Nem jóias nem perfumes
chegariam p'ra dizer
o muito que te quero,
ó minha mãe....
Como prova maior
desta afeição
só tenho p'ra te dar
meu coração !...
......................................
Hoje, que já não estás comigo, atrevo-me a acrescentar aos pés da tua campa
onde, logo pela manhã te fui rezar
Meu coração, ó Mãe,
continua a ser teu
e sê-lo-à
até ao fim,
enquanto ele pulsar
no peito meu !.
SALVÉ O DIA 7 DE MAIO....
Para ti, minha mãe,
eu escrevo duas linhas,
mal traçadas...a correr....
cuja única função
é te dizer
como eu gosto de ti!
Fizeste anos de nascida
ó minha mãe,
e eu quero dar-te
um grande... um grande beijo,
ó minha mãe querida....
Parabéns, Felicidades,
e que o Senhor te dê
o que de bom existe,
minha querida:
Paz, carinho, amor
e longa vida !
E, eu, ó minha mãe,
que posso dar-te agora?
Nem jóias nem perfumes
chegariam p'ra dizer
o muito que te quero,
ó minha mãe....
Como prova maior
desta afeição
só tenho p'ra te dar
meu coração !...
......................................
Hoje, que já não estás comigo, atrevo-me a acrescentar aos pés da tua campa
onde, logo pela manhã te fui rezar
Meu coração, ó Mãe,
continua a ser teu
e sê-lo-à
até ao fim,
enquanto ele pulsar
no peito meu !.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
ENTRE O SONHO E A REALIDADE
ENTRE O SONHO E A REALIDADE
O desgaste do seu casamento era evidente. Um quarto de século! Tanto tempo havia corrido sobre o dia
distante daquela idílica união. Casara por amor. Tinha construído uma família mas o edifício começava a desmoronar-se, pedra a pedra.
Os filhos seguiam as suas vidas, criando os próprios espaços em que ela se sentia apertada.
O marido era apenas o " seu homem ". o companheiro de habitação. Perdido o requinte de outrora, as delicadezas habituais foram ficando pelo caminho e, progressivamente, deixara de ser o homem da sua vida.
Muitas vezes acordava com a desagradável sensação de ter dormido sòzinha,. embora, entre os lençóis repousasse um homem forte, saudável e sedutor. Nesses momentos sentia-se deprimida. Olhava-se ao espelho e pensava "para quê" se ele parecia nem a ver.... O que ele via sempre era a comida a horas, a casa arrumada e as roupas sempre prontas....
Um dia decidiu-se. Iria embora, recomeçar a vida noutro lado, por ela e para ela.
Deu um toque no assunto aos filhos. Acharam que ela tinha razão e direito à vida que, ao longo de tantos anos transferira para os outros.
Como era uma pessoa prática com os pés bem assentes na terra começou a preparar tudo arranjando mesmo um emprego pois não queria perder a sua independência financeira. Apalavrou mesmo um pequeno apartamento para onde se mudaria...
O antegozo da liberdade fazia já dela outra mulher mais produzida, mais cuidada. Só então, ao ver-se com outros olhos, reparou que era ainda muito jovem, física e espiritualmente. Cada dia era uma nova passada para a ruptura conjugal.
Foi então que o outro apareceu. Conheciam-se desde pequenos mas tinham-se perdido de vista nos meandros da vida. E de repente, quando menos esperava, essa mesma vida fez cruzar os seus caminhos.
As recordações vieram em catadupa e com surpresa constatou que ele gostava dela. Que nunca a esquecera de todo. Ia mesmo ao extremo de conservar pequenos " souvenires " que ela lhe dera em gaiata.
A maneira, quase religiosa, com que ele os guardara ao longo de tantos anos, sensibilizou-a. Comovera-se mesmo!...
Encontraram-se de fugida, algumas vezes, para um café apressado depois do almoço. Trocaram alguns telefonemas e ela voltou a sonhar. Deu em reparar que, na rua, os olhares masculinos ainda se demoravam nela.
Não quis que ele percebesse que não era feliz nem as suas intenções de se ir embora. Receou que ele pensasse que o seu aparecimento tinha algo a ver com a sua decisão. Teve medo que ele tivesse pena dela
e, pena era o que ela não suportaria nunca. Fez um esforço para ele não perceber. Fingiu que tudo ia bem.
Recomeçou a sair com o marido e, pouco a pouco, a vida a dois reentrou numa quase normalidade sem que - verdade se diga - o marido se tivesse apercebido da crise porque o seu lar passara.
Que ironia tão grande !!!. O " outro " que parecia ser um perigo, uma ameaça à estabilidade sentimental
daquela mulher, acabou por ser, sem querer e sem disso ter a menor consciência o anjo salvador do seu casamento....
terça-feira, 9 de abril de 2013
UM DIA PARA NÃO ESQUECER
Tinha tentado convencer um amigo a almoçar com ela naquele dia.
---- Estava ocupado !....
----- Muito agradecida !!! - como diria José Hermano Saraiva.
Era a única pessoa que desejava por companhia.
Em casa o almoço deveria ser lá para as 15 horas pois o desjejum fora tomado por volta do
meio dia.
Normalmente almoçava sempre sózinha mas, aquele era um dia especial.
Não podendo partilhar a refeição com quem realmente desejava mais valia estar só... mas este só não
significava isolada.
Queria sentir pessoas à sua volta, ouvir o bruá de vozes, ter a noção de que ainda havia mundo para
lá da toca que era a sua casa. Bem que deveria ter ficado por terras do norte onde o frio do ar
se esbatia no calor das pessoas simples....
Perguntou-se onde iria almoçar!...
No espaço XIS não gostava muito do atendimento. Se ele estivesse ali já tinha um lugar em vista:
a Pousada do Castelo, entre o verde da serra e os azuis do céu e do rio. Para ela sózinha era longe
e deprimente.
Lembrou-se da Pizaria. Há anos que não comia uma piza de galinha....
Fazia-o frequentemente quando o marido era vivo.... Eram muito boas as pizas de então. Depois
perdeu-lhe o geito.....
Estava decidido. Afinal quando os vivos não nos " curtem " acabamos por voltar ao aconchego dos
nossos mortos.
Foi o que ela fez. Sentou-se, pediu uma piza pequena, de galinha como nos velhos tempos, e uma
água tónica. A piza deixou muito a desejar. Já não é o que era... o recheio estava bom mas, a
base, além de fininha estava cozida demais mas....
Soube-lhe bem......
Tinha gente à sua volta. Através dos vidros via o movimento lá fora, o balouçar das árvores. Para lá
da estrada onde todos passavam a " correr ", a " abrir " o Parque da cidade parecia abrir-lhe os
braços, fiel como sempre e dizer:
----Vem, senta-te aqui. Relaxa, respira fundo... esquece os outros... os que não te merecem......
Olha para dentro de ti. Não te atraiçoes. Sobretudo... força, contem-te, não deixes que as lágrimas
aflorem os teus olhos.
--- Vem... caminha sobre a minha relva, olha as águas do lago. Sorri para as crianças que brincam
despreocupadamente.
----Sobretudo, ergue~te dessa "fossa" não mostres aos outros que estás em baixo. Não lhes dês,
nem de longe, nem de perto,a ideia de que te fazem sofrer.
----Faz como a Natureza. Nem o vento, nem a chuva, a neve, o fogo, as enchurradas conseguem
destruir a imensa força que há nela: o Sol vem e onde apenas havia ramos nus, desesperados,
fustigados, o verde da esperança cresce...alastra e, amanhã as flores dirão:
----Somos belas e ainda teremos muitos frutos para dar... enquanto a morte não nos levar.....
quarta-feira, 27 de março de 2013
A SURPRESA
O hoje foi para ela o fim do tempo.
A máscara caíu e nessa queda deixou a descoberto um rosto enfrentando outro que se quer apagar na
penumbra da fuga, do medo.
Ele começa a descer a escada que os unia e os separava em simultâneo. Quebrar a rotina é a carta que
atira para o meio da mesa.
Ela vai a jogo. Aceita o desafio e sem permitir que ele vislumbre a sua mágoa entrega-se, uma vez mais,
toda inteira, com alma, coração e vida. Vai deixar-lhe na ponta dos dedos o toque macio da pele, o
odor do perfume, o calor de um ósculo de despedida.
A tarde começa a envolvê-los na sombra que os oculta e afasta talvez para sempre.
A noite vem. Ele vai... Ela fica!... Vazia!. Mas aliviada como se lhe tivessem estirpado um tumor que
crescia, em tamanho, em dúvida, em sofrimento.
A Páscoa está à porta. A lua sobe no céu, brilhante, luminosa como a dizer-lhe:
---- Faz como eu. Brilha enquanto podes!!!......
Sobre a mesa as amêndoas que ele lhe oferecera....
Amargavam-lhe mesmo sem as ter provado.....
----Bem hajas pelo teu presente envenenado ........
O hoje foi para ela o fim do tempo.
A máscara caíu e nessa queda deixou a descoberto um rosto enfrentando outro que se quer apagar na
penumbra da fuga, do medo.
Ele começa a descer a escada que os unia e os separava em simultâneo. Quebrar a rotina é a carta que
atira para o meio da mesa.
Ela vai a jogo. Aceita o desafio e sem permitir que ele vislumbre a sua mágoa entrega-se, uma vez mais,
toda inteira, com alma, coração e vida. Vai deixar-lhe na ponta dos dedos o toque macio da pele, o
odor do perfume, o calor de um ósculo de despedida.
A tarde começa a envolvê-los na sombra que os oculta e afasta talvez para sempre.
A noite vem. Ele vai... Ela fica!... Vazia!. Mas aliviada como se lhe tivessem estirpado um tumor que
crescia, em tamanho, em dúvida, em sofrimento.
A Páscoa está à porta. A lua sobe no céu, brilhante, luminosa como a dizer-lhe:
---- Faz como eu. Brilha enquanto podes!!!......
Sobre a mesa as amêndoas que ele lhe oferecera....
Amargavam-lhe mesmo sem as ter provado.....
----Bem hajas pelo teu presente envenenado ........
domingo, 17 de março de 2013
TRINTA ANOS DEPOIS
---- Encontraram-se por acaso. Ele seguia um pouco mais à frente, no passeio do outro lado da rua.
Chamou-lhe a atenção aquele caracteristico geito de levar a mão no bolso que tanto a irritara anos antes.
Aquela maneira de andar não lhe era estranha; olhou uma vez e outra e outra ainda. De repente ele virou-se como se tivesse sido atraído por um imã e os seus olhos encontraram-se. Foi como se um raio a fulminasse. Como tinha reflexos rápidos controlou-se imediatamente e como se nada fosse, continuou em
frente.
------Sem olhar para trás foi ao seu destino. Fez as suas compras e ao virar de uma esquina quase esbarraram um no outro. Fingiu não o ter reconhecido. Mas, tremia como varas verdes. sentia os passos dele muito próximos, a seguirem os seus. Sem saber o que fazer, entrou numa pastelaria. Era o mais natural.. Sentou-se. Pediu uma bica e uma "duchesse" o seu bolo preferido.
-------Maquinalmente agradeceu ao empregado que a serviu. Como um autómato deitou o açúcar na chávena e mexeu...mexeu... absorta nos pensamentos que não a levavam a nada.
--------Despertou-a uma voz que inquiria ansiosa:
------ -Posso sentar-me?
------ Olhou sem o ver e sem ter consciência das suas palavras ouviu-se a dizer:
------ _Com certeza!...faz favor....
------ Se o chão se tivesse aberto naquele instante, e a tivesse engolido, ela teria agradecido a
Deus a ajuda. Mas não!.. O chão continuava intacto e ele, ele, estava ali, na sua frente, pedindo também um café.
------ Desejou que dissesse tudo de uma vez ou não dissesse nada e se fosse embora e, só serenou quando ele respirou fundo e começou a falar:
------Parece-me que já nos conhecemos...não achas? Foi há muito, muito tempo mas eu não te esqueci
e, pelo teu ar atrapalhado, também vejo que não me esqueceste.
----- Eu não estou atrapalhada...surpreendida talvez...Quem pensaria encontrar-te, assim, de repente....
----- É verdade!..Trinta anos é muito tempo...a relembrar...a procurar uma pessoa. Sim, quero que saibas que te tenho procurado sempre, sem nunca perder a esperança de te encontrar. O acaso fez-me finalmente
saber onde moravas e, a partir daí nada mais foi por acaso. Estudei a tua vida, as tuas saídas, as tuas entradas. Queria ver-te, falar-te... desculpa por nunca te ter esquecido...não fui capaz. Seguiste a tua vida.
Eu segui a minha. Separámo-nos fisicamente mas sentimentalmente continuei sempre ligado a ti.
------O louco de sempre...meu amigo...!....
----- É!...Queres saber uma coisa? Eu precisava mesmo de te ver, de te falar. Quando, há pouco te segui pelas ruas da baixa, rejuvenesci.. Voltei a ter vinte anos. Voltei a ser aquele rapaz que era a tua sombra e
que, talvez por isso tu rejeitaste...
----- Gostei de te ver... Vou confessar-te uma coisa: também sei onde moras. Sei que tens um filho. Vi-o
uma vez de relance, no café ao lado da tua casa....Ainda te lembras do Gelo, no Rossio, .. ? Já era!...
Bem. tenho de me ir embora. Vamos ficar por aqui, está bem?
---- É isso que queres?...
---- Claro... Que mais podemos fazer? O tempo não volta atrás....
---- À saída da pastelaria apertaram-se as mãos com carinho, com ternura, com saudade, com avidez até
numa despedida que ambos desejaram não fosse definitiva ( alguns amigos comuns já tinham partido )
Senti um arrepio.
---- Felicidades para ti.....
---- E para ti também.......
---- Encontraram-se por acaso. Ele seguia um pouco mais à frente, no passeio do outro lado da rua.
Chamou-lhe a atenção aquele caracteristico geito de levar a mão no bolso que tanto a irritara anos antes.
Aquela maneira de andar não lhe era estranha; olhou uma vez e outra e outra ainda. De repente ele virou-se como se tivesse sido atraído por um imã e os seus olhos encontraram-se. Foi como se um raio a fulminasse. Como tinha reflexos rápidos controlou-se imediatamente e como se nada fosse, continuou em
frente.
------Sem olhar para trás foi ao seu destino. Fez as suas compras e ao virar de uma esquina quase esbarraram um no outro. Fingiu não o ter reconhecido. Mas, tremia como varas verdes. sentia os passos dele muito próximos, a seguirem os seus. Sem saber o que fazer, entrou numa pastelaria. Era o mais natural.. Sentou-se. Pediu uma bica e uma "duchesse" o seu bolo preferido.
-------Maquinalmente agradeceu ao empregado que a serviu. Como um autómato deitou o açúcar na chávena e mexeu...mexeu... absorta nos pensamentos que não a levavam a nada.
--------Despertou-a uma voz que inquiria ansiosa:
------ -Posso sentar-me?
------ Olhou sem o ver e sem ter consciência das suas palavras ouviu-se a dizer:
------ _Com certeza!...faz favor....
------ Se o chão se tivesse aberto naquele instante, e a tivesse engolido, ela teria agradecido a
Deus a ajuda. Mas não!.. O chão continuava intacto e ele, ele, estava ali, na sua frente, pedindo também um café.
------ Desejou que dissesse tudo de uma vez ou não dissesse nada e se fosse embora e, só serenou quando ele respirou fundo e começou a falar:
------Parece-me que já nos conhecemos...não achas? Foi há muito, muito tempo mas eu não te esqueci
e, pelo teu ar atrapalhado, também vejo que não me esqueceste.
----- Eu não estou atrapalhada...surpreendida talvez...Quem pensaria encontrar-te, assim, de repente....
----- É verdade!..Trinta anos é muito tempo...a relembrar...a procurar uma pessoa. Sim, quero que saibas que te tenho procurado sempre, sem nunca perder a esperança de te encontrar. O acaso fez-me finalmente
saber onde moravas e, a partir daí nada mais foi por acaso. Estudei a tua vida, as tuas saídas, as tuas entradas. Queria ver-te, falar-te... desculpa por nunca te ter esquecido...não fui capaz. Seguiste a tua vida.
Eu segui a minha. Separámo-nos fisicamente mas sentimentalmente continuei sempre ligado a ti.
------O louco de sempre...meu amigo...!....
----- É!...Queres saber uma coisa? Eu precisava mesmo de te ver, de te falar. Quando, há pouco te segui pelas ruas da baixa, rejuvenesci.. Voltei a ter vinte anos. Voltei a ser aquele rapaz que era a tua sombra e
que, talvez por isso tu rejeitaste...
----- Gostei de te ver... Vou confessar-te uma coisa: também sei onde moras. Sei que tens um filho. Vi-o
uma vez de relance, no café ao lado da tua casa....Ainda te lembras do Gelo, no Rossio, .. ? Já era!...
Bem. tenho de me ir embora. Vamos ficar por aqui, está bem?
---- É isso que queres?...
---- Claro... Que mais podemos fazer? O tempo não volta atrás....
---- À saída da pastelaria apertaram-se as mãos com carinho, com ternura, com saudade, com avidez até
numa despedida que ambos desejaram não fosse definitiva ( alguns amigos comuns já tinham partido )
Senti um arrepio.
---- Felicidades para ti.....
---- E para ti também.......
quinta-feira, 7 de março de 2013
FOI A 8 DE MARÇO
---- A Inês trabalhava há muito na imprensa regional. Moça vivida, independente, com um ar super desenvolto, reagia contra todos os convencionalismos, não se deixando escravizar por ninguém.
---- Nunca festejava o seu aniversário porque, segundo ela, fazer anos já era uma tremenda chatice: sentia-se cada vez mais velha...
---- Ora a Inês fazia anos, justamente a 8 de Março que alguém havia designado como Dia da Mulher....
---- Telefonara-me logo a seguir ao almoço convidando-me para lanchar numa conhecida pastelaria da Baixa onde, por vezes, nos encontrava-mos para desenferrujar a língua. Aceitei, pois pela entoação da sua voz, ao telefone, percebi que a Inês devia estar em dia não e precisava de uma presença amiga. Para cúmulo havia-se aborrecido com o Luís.
---- Não tinha que reclamar: quantas vezes lhe tinha dito que " oficiais do mesmo ofício, raramente se dão bem..." e, o Luís para além de ser bom rapaz era repórter e trabalhava, em Lisboa, num semanário desportivo. E a sorte era essa: trabalhavam em áreas diferentes.
---- Quando cheguei já a Inês lá estava, bem instalada, numa mesa ao canto do salão. Encomendara um
chá e uns bolos sortidos - óptimos naquela pastelaria - e lia distraidamente o último número de uma revista de moda.
---- Com um olho na revista e outro na porta de entrada, Inês viu-me logo que entrei e acenou-me.
..............................................................................
---- De relance, ao primeiro olhar, apercebi-me que algo lhe tinha acontecido. O seu olhar claro e sonhador
estava distante, olhando por cima do meu ombro, como se quisesse vislumbrar algo...
---- Felicitei-a pelo seu aniversário, dei-lhe uma lembrança que comprara para o efeito e falámos...
banalidades.
---- Posta de lado a revista, comemos, bebemos e até lhe contei a última anedota que aprendera com um amigo. A Inês adorava anedotas e sabia-as às centenas. Mas, não obstante todo aquele clima de boa
disposição, notava-se que algo a incomodava: os seus olhos iam poisar frequentemente - demais para o meu gosto - num narciso amarelo agarrado a um envelope em branco.
---- É do Luís? - inquiri
---- Não! E o pior é que não sei de quem é....
---- Como assim???
---- É verdade! Quando cheguei a casa, à hora do almoço, fui, como sempre, à caixa do correio. Entre outras coisas de somenos importância, estava este envelope branco, anónimo, colado, como podes ver
a este narciso. Como a ranhura da caixa do correio não é assim lá muito larga, a flor foi metida com muito cuidado mas, mesmo assim nota-se pelas marcas das pétalas que foi forçada a entrar. Fiquei curiosa e o primeiro pensamento foi para o Luís. Tínhamos discutido por ninharias, como sempre, e logo pensei que
seria a forma de me felicitar fazendo as pazes, mas não....
---- Não???...
---- Não. A ideia não foi do Luís. Dentro do envelope tem um bilhete postal colorido mas que não tem nada a ver com o Luís pois a letra não é dele: é bem diferente; a dele é grande, prepotente e irregular como
ele. Esta que vem no postal é pequenina, certinha, bem desenhada, indicando uma pessoa delicada, segura
mas por certo muito tímida. Vê tu! Conheces alguém que escreva assim?....
..............................................................................
---- Curiosa tirei o postal do envelope e fiquei olhando a parte da frente onde sobre fundo preto sobressaía
um lindo ramo de gerânios, de folhas muito verdes e flores miudinhas mas de um rosa choc tão intenso que
parecia invadir-nos primeiro os olhos e logo depois todo o cérebro.
---- No reverso, sem endereço, sem identificação podia ler-se:
---- Homenagem à Mulher
---- Há duas mulheres na Vida
a quem amo e quero bem:
uma, és tu, minha querida,
outra, era a minha mãe!....
.....................................................................................,
----- Mistério.... mistério....bom gosto, timidez, ternura, carinho, seja o que for que o postal quisesse
traduzir, desta vez a minha amiga Inês foi igual a todas nós e ficou a sonhar....com o romântico desconhecido.
---- A Inês trabalhava há muito na imprensa regional. Moça vivida, independente, com um ar super desenvolto, reagia contra todos os convencionalismos, não se deixando escravizar por ninguém.
---- Nunca festejava o seu aniversário porque, segundo ela, fazer anos já era uma tremenda chatice: sentia-se cada vez mais velha...
---- Ora a Inês fazia anos, justamente a 8 de Março que alguém havia designado como Dia da Mulher....
---- Telefonara-me logo a seguir ao almoço convidando-me para lanchar numa conhecida pastelaria da Baixa onde, por vezes, nos encontrava-mos para desenferrujar a língua. Aceitei, pois pela entoação da sua voz, ao telefone, percebi que a Inês devia estar em dia não e precisava de uma presença amiga. Para cúmulo havia-se aborrecido com o Luís.
---- Não tinha que reclamar: quantas vezes lhe tinha dito que " oficiais do mesmo ofício, raramente se dão bem..." e, o Luís para além de ser bom rapaz era repórter e trabalhava, em Lisboa, num semanário desportivo. E a sorte era essa: trabalhavam em áreas diferentes.
---- Quando cheguei já a Inês lá estava, bem instalada, numa mesa ao canto do salão. Encomendara um
chá e uns bolos sortidos - óptimos naquela pastelaria - e lia distraidamente o último número de uma revista de moda.
---- Com um olho na revista e outro na porta de entrada, Inês viu-me logo que entrei e acenou-me.
..............................................................................
---- De relance, ao primeiro olhar, apercebi-me que algo lhe tinha acontecido. O seu olhar claro e sonhador
estava distante, olhando por cima do meu ombro, como se quisesse vislumbrar algo...
---- Felicitei-a pelo seu aniversário, dei-lhe uma lembrança que comprara para o efeito e falámos...
banalidades.
---- Posta de lado a revista, comemos, bebemos e até lhe contei a última anedota que aprendera com um amigo. A Inês adorava anedotas e sabia-as às centenas. Mas, não obstante todo aquele clima de boa
disposição, notava-se que algo a incomodava: os seus olhos iam poisar frequentemente - demais para o meu gosto - num narciso amarelo agarrado a um envelope em branco.
---- É do Luís? - inquiri
---- Não! E o pior é que não sei de quem é....
---- Como assim???
---- É verdade! Quando cheguei a casa, à hora do almoço, fui, como sempre, à caixa do correio. Entre outras coisas de somenos importância, estava este envelope branco, anónimo, colado, como podes ver
a este narciso. Como a ranhura da caixa do correio não é assim lá muito larga, a flor foi metida com muito cuidado mas, mesmo assim nota-se pelas marcas das pétalas que foi forçada a entrar. Fiquei curiosa e o primeiro pensamento foi para o Luís. Tínhamos discutido por ninharias, como sempre, e logo pensei que
seria a forma de me felicitar fazendo as pazes, mas não....
---- Não???...
---- Não. A ideia não foi do Luís. Dentro do envelope tem um bilhete postal colorido mas que não tem nada a ver com o Luís pois a letra não é dele: é bem diferente; a dele é grande, prepotente e irregular como
ele. Esta que vem no postal é pequenina, certinha, bem desenhada, indicando uma pessoa delicada, segura
mas por certo muito tímida. Vê tu! Conheces alguém que escreva assim?....
..............................................................................
---- Curiosa tirei o postal do envelope e fiquei olhando a parte da frente onde sobre fundo preto sobressaía
um lindo ramo de gerânios, de folhas muito verdes e flores miudinhas mas de um rosa choc tão intenso que
parecia invadir-nos primeiro os olhos e logo depois todo o cérebro.
---- No reverso, sem endereço, sem identificação podia ler-se:
---- Homenagem à Mulher
---- Há duas mulheres na Vida
a quem amo e quero bem:
uma, és tu, minha querida,
outra, era a minha mãe!....
.....................................................................................,
----- Mistério.... mistério....bom gosto, timidez, ternura, carinho, seja o que for que o postal quisesse
traduzir, desta vez a minha amiga Inês foi igual a todas nós e ficou a sonhar....com o romântico desconhecido.
quarta-feira, 6 de março de 2013
DEVANEIO I
Fez-me bem ter-te encontrado. Se me perguntares o que espero deste encontro, de ti, de mim, responderei: nada ! e ...tudo! Nada, porque ao fim de tantos anos, somos dois caminhos paralelos que se vêem mas não se podem cruzar nunca. Ou talvez? e, se antes eu não esperava nada agora espero tudo...
Quem sabe que destinos nos puseram frente a frente.... Quem sabe o que o destino espera de nós?...
Às vezes dava comigo, só, fumando um cigarro, seguindo com o olhar as espirais de fumo e pensando como tudo estava diferente daquele sonho distante de felicidade. E questionava-me: será que ser feliz é isto?....
E tentava consolar-me definindo-me como não infeliz. Uma vida familiar estável, um emprego bom e seguro, um whisky ao fim do dia, desafogo financeiro, poder evadir-me, por vezes e ser eu, lendo o último best-seller e ouvindo a minha música preferida..
Ser independente...aceitando a vida como ela é, contando os anos que passaram, imaginando os que ainda virão, como alguém que já não precisa de lutar pois conquistou todos os redutos desejados.
Mas, hoje, olho~me no espelho e receio que isto não seja felicidade. Sou talvez, um guerreiro aposentado
que depôs, cedo demais, as suas armas.
Ontem, eu sentia-me indiferente.....Um cabelo branco, uma ruga a mais, um pneu que cresce era apenas uma certidão de idade.
Mas, encontrei-te. Recordei. Rejuvenesci. Voltei a ter vinte anos.
De manhã dou comigo a cantar, debaixo do chuveiro....
Quero dissimular as brancas, embora me fiquem bem, como dizes...
Desço as escadas, saltitante, em vez de esperar pelo elevador....
Olho-me de lado nos vidros das montras para saber que tal pareço.
Comprei um creme para amaciar a pele....das minhas mãos...para estarem bem macias quando... por um acaso...puder apertar as tuas...tão longas...tão seguras... tão eloquentes. Sim! Dizem que as mãos falam e eu acredito: ai se as nossas se pudessem encontrar...ai, quantas coisas lindas não teriam para revelar, por nós. Ou, quem sabe?...talvez nem dissessem nada: só se entrelaçassem, pois, no amor, o silêncio é de oiro....
Mudei de perfume. Eu que gostava de essências frescas, com fragrâncias de ervas e limão talvez por me darem uma falsa sensação de liberdade, passei a usar um perfume quente que me faz lembrar e desejar a
presença, o calor do teu corpo...
Que mudança, Deus meu...como é possível eu voltar a esperar. A esperar, não sei o quê, nem quem...
Um milagre talvez... Mas a verdade é que eu espero tudo. Começo a viver duma ilusão, duma esperança
adiada, de te ver... de te encontrar...hoje...amanhã..depois...meses volvidos...anos passados. E não vou cansar-me de esperar...Talvez no fim do túnel não haja uma luz. Talvez no termo da caminhada não haja
mais nada, para além da desilusão......do desencantamento.
Até lá, porém, vou viver a querer respirar o mesmo ar que te alenta; a imaginar a pressão dos teus braços
em torno da minha cintura, a relembrar o sabor dos teus lábios.
Há um velho ditado que diz que quem espera alcança e eu vou esperar incansavelmente até que a vida
nos una ou a morte nos separe definitivamente.
Vou viver cada dia como se ao virar da esquina for dar de caras contigo e mitigar a minha sede de ti....
E vou, sobretudo, pensar que vivendo em outro lado olhando outras gentes, tu sentes como eu: vou acre
ditar que embora separados no espaço somos cúmplices dum mesmo sentimento.....
Fez-me bem ter-te encontrado. Se me perguntares o que espero deste encontro, de ti, de mim, responderei: nada ! e ...tudo! Nada, porque ao fim de tantos anos, somos dois caminhos paralelos que se vêem mas não se podem cruzar nunca. Ou talvez? e, se antes eu não esperava nada agora espero tudo...
Quem sabe que destinos nos puseram frente a frente.... Quem sabe o que o destino espera de nós?...
Às vezes dava comigo, só, fumando um cigarro, seguindo com o olhar as espirais de fumo e pensando como tudo estava diferente daquele sonho distante de felicidade. E questionava-me: será que ser feliz é isto?....
E tentava consolar-me definindo-me como não infeliz. Uma vida familiar estável, um emprego bom e seguro, um whisky ao fim do dia, desafogo financeiro, poder evadir-me, por vezes e ser eu, lendo o último best-seller e ouvindo a minha música preferida..
Ser independente...aceitando a vida como ela é, contando os anos que passaram, imaginando os que ainda virão, como alguém que já não precisa de lutar pois conquistou todos os redutos desejados.
Mas, hoje, olho~me no espelho e receio que isto não seja felicidade. Sou talvez, um guerreiro aposentado
que depôs, cedo demais, as suas armas.
Ontem, eu sentia-me indiferente.....Um cabelo branco, uma ruga a mais, um pneu que cresce era apenas uma certidão de idade.
Mas, encontrei-te. Recordei. Rejuvenesci. Voltei a ter vinte anos.
De manhã dou comigo a cantar, debaixo do chuveiro....
Quero dissimular as brancas, embora me fiquem bem, como dizes...
Desço as escadas, saltitante, em vez de esperar pelo elevador....
Olho-me de lado nos vidros das montras para saber que tal pareço.
Comprei um creme para amaciar a pele....das minhas mãos...para estarem bem macias quando... por um acaso...puder apertar as tuas...tão longas...tão seguras... tão eloquentes. Sim! Dizem que as mãos falam e eu acredito: ai se as nossas se pudessem encontrar...ai, quantas coisas lindas não teriam para revelar, por nós. Ou, quem sabe?...talvez nem dissessem nada: só se entrelaçassem, pois, no amor, o silêncio é de oiro....
Mudei de perfume. Eu que gostava de essências frescas, com fragrâncias de ervas e limão talvez por me darem uma falsa sensação de liberdade, passei a usar um perfume quente que me faz lembrar e desejar a
presença, o calor do teu corpo...
Que mudança, Deus meu...como é possível eu voltar a esperar. A esperar, não sei o quê, nem quem...
Um milagre talvez... Mas a verdade é que eu espero tudo. Começo a viver duma ilusão, duma esperança
adiada, de te ver... de te encontrar...hoje...amanhã..depois...meses volvidos...anos passados. E não vou cansar-me de esperar...Talvez no fim do túnel não haja uma luz. Talvez no termo da caminhada não haja
mais nada, para além da desilusão......do desencantamento.
Até lá, porém, vou viver a querer respirar o mesmo ar que te alenta; a imaginar a pressão dos teus braços
em torno da minha cintura, a relembrar o sabor dos teus lábios.
Há um velho ditado que diz que quem espera alcança e eu vou esperar incansavelmente até que a vida
nos una ou a morte nos separe definitivamente.
Vou viver cada dia como se ao virar da esquina for dar de caras contigo e mitigar a minha sede de ti....
E vou, sobretudo, pensar que vivendo em outro lado olhando outras gentes, tu sentes como eu: vou acre
ditar que embora separados no espaço somos cúmplices dum mesmo sentimento.....
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
CONTOS ESCOLHIDOS IV
( IR) REAL ( IDADE )
Laura acabou de almoçar. Como sempre, sentou~se na sala com o seu café, o seu chocolate negro e um dedo de "Constantino". Fazia parte da sua rotina e, quase sempre semicerrava os olhos para descansar um pouco.
---Olhava para dentro ! - como costumava dizer. Era apenas o seu momento de introspeção.
................................................................................
Ontem, entrara, normalmente no elevador que a levaria ao 4º andar.
Um elevador com os três lados espelhados, onde as Lauras se multiplicavam indefinidamente.
Reconheceu aquele rosto tão familiar.
Lá bem no fundo,uma outra Laura que, jovem, fogosa lhe mostrava um retrato com meio século.
Nessa época, debatia-se entre dois amores...tão diferentes... duas faces de uma moeda. Dum lado a imagem da saudade, da insegurança, da revolta, da negação da traição de que fora vitima; o querer parecer
mau, de mostrar um homem que amava sem o querer admitir por orgulho, que preferia sofrer em silêncio escondido do ser amado.
Do outro lado, a imagem da ternura, do amor platónico que se compraz em sonhar e viver esse sonho de amor sem concretização, sem materialização, todo espírito, todo paixão, todo poesia, todo felicidade que
não teria, pois a sua paixão não tinha pernas para andar.
...............................................................................
Mais à frente com um riso gaiato e travesso, Laura via-se a assistir ao " roda os cinco cantinhos" como fazia
na escola primária. Mas as jogadoras eram outras: jovens mulheres fingindo tentar escapar do "galã" que
no centro escolhia a vitima. Mas tudo não passava de um jogo de sedução pois todas elas ansiavam ser a
eleita.
Laura acabara de chegar. O jogo parou porque o "galã" o interrompeu, apenas por causa de Laura.
E o jogou mudou. Passou dos cinco cantinhos para o toca e foge, mantendo-se assim por muito tempo....
sem vencedor nem vencido até que ambos os contendores, um dia uniram as mãos em sinal de tréguas e de entendimento.
...................................................................................
Foram muitos e muitos anos assim até que do lado dele o espelho embaciou e Laura ficou só sem parceiro de xadrês.
................................................................................
O espelho do elevador reflecte uma Laura diferente. Madura. Sózinha mas sempre determinada.
Outra imagem na sua rectaguarda surge, limpando o espelho embaciado. Laura agradeceu. O cristal voltou a cintilar reflectindo alguém que se perdia na distância, no tempo mas, pouco a pouco ia tomando forma e nitidez.
Qual Branca de Neve adormecida, Laura desperta não ao toque dum beijo de principe encantado mas, com a luz diáfana que saindo duns belos olhos azuis iluminava o elevador prestes a parar. Saíram no mesmo piso.
Trocaram apresentações e um abraço de ocasião que foi apagando a repetição de imagens que os espelhos reflectiam e, dia após dia, foram subindo e descendo juntos no elevador do prédio de 10 andares que os juntara e tornara amigos.
E, quando se aperceberam, todas as outras imagens do passado sumiram e só ficaram eles, lado a lado, no limiar dum novo tempo. A infância, a juventude ficaram para trás mas a Laura e o seu vizinho Pedro continuam a descer juntos naquele elevador que os colocou lado a lado, num esboço de amizade que nenhum sabe onde os irá levar.
Só sabem e isso basta, a Laura que, dia após dia continua a apertar a mão do Pedro e a desejarem-se com sinceridade, mutuamente um até amanhã..........
.
( IR) REAL ( IDADE )
Laura acabou de almoçar. Como sempre, sentou~se na sala com o seu café, o seu chocolate negro e um dedo de "Constantino". Fazia parte da sua rotina e, quase sempre semicerrava os olhos para descansar um pouco.
---Olhava para dentro ! - como costumava dizer. Era apenas o seu momento de introspeção.
................................................................................
Ontem, entrara, normalmente no elevador que a levaria ao 4º andar.
Um elevador com os três lados espelhados, onde as Lauras se multiplicavam indefinidamente.
Reconheceu aquele rosto tão familiar.
Lá bem no fundo,uma outra Laura que, jovem, fogosa lhe mostrava um retrato com meio século.
Nessa época, debatia-se entre dois amores...tão diferentes... duas faces de uma moeda. Dum lado a imagem da saudade, da insegurança, da revolta, da negação da traição de que fora vitima; o querer parecer
mau, de mostrar um homem que amava sem o querer admitir por orgulho, que preferia sofrer em silêncio escondido do ser amado.
Do outro lado, a imagem da ternura, do amor platónico que se compraz em sonhar e viver esse sonho de amor sem concretização, sem materialização, todo espírito, todo paixão, todo poesia, todo felicidade que
não teria, pois a sua paixão não tinha pernas para andar.
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Mais à frente com um riso gaiato e travesso, Laura via-se a assistir ao " roda os cinco cantinhos" como fazia
na escola primária. Mas as jogadoras eram outras: jovens mulheres fingindo tentar escapar do "galã" que
no centro escolhia a vitima. Mas tudo não passava de um jogo de sedução pois todas elas ansiavam ser a
eleita.
Laura acabara de chegar. O jogo parou porque o "galã" o interrompeu, apenas por causa de Laura.
E o jogou mudou. Passou dos cinco cantinhos para o toca e foge, mantendo-se assim por muito tempo....
sem vencedor nem vencido até que ambos os contendores, um dia uniram as mãos em sinal de tréguas e de entendimento.
...................................................................................
Foram muitos e muitos anos assim até que do lado dele o espelho embaciou e Laura ficou só sem parceiro de xadrês.
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O espelho do elevador reflecte uma Laura diferente. Madura. Sózinha mas sempre determinada.
Outra imagem na sua rectaguarda surge, limpando o espelho embaciado. Laura agradeceu. O cristal voltou a cintilar reflectindo alguém que se perdia na distância, no tempo mas, pouco a pouco ia tomando forma e nitidez.
Qual Branca de Neve adormecida, Laura desperta não ao toque dum beijo de principe encantado mas, com a luz diáfana que saindo duns belos olhos azuis iluminava o elevador prestes a parar. Saíram no mesmo piso.
Trocaram apresentações e um abraço de ocasião que foi apagando a repetição de imagens que os espelhos reflectiam e, dia após dia, foram subindo e descendo juntos no elevador do prédio de 10 andares que os juntara e tornara amigos.
E, quando se aperceberam, todas as outras imagens do passado sumiram e só ficaram eles, lado a lado, no limiar dum novo tempo. A infância, a juventude ficaram para trás mas a Laura e o seu vizinho Pedro continuam a descer juntos naquele elevador que os colocou lado a lado, num esboço de amizade que nenhum sabe onde os irá levar.
Só sabem e isso basta, a Laura que, dia após dia continua a apertar a mão do Pedro e a desejarem-se com sinceridade, mutuamente um até amanhã..........
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
CONTOS ESCOLHIDOS III
TARDE DEMAIS
Olhou o relógio. Estava quase na hora combinada. Como qualquer dona de casa que se preza, Marina passou em revista a sala para ver se nada faltava.
O apartamento de três assoalhadas era bastante confortável. Para além da espaçosa cozinha e de uma óptima sala de banho, com uma larga janela envidraçada. Tinha o quarto virado a poente onde o sol batia até ao último raio. Uma salinha que inicialmente servira como sala de estudo e onde posteriormente instalara o seu escritório.
A sala comum, grande, estava decorada com gosto e simplicidade, de forma a satisfazer as suas reais necessidades e estava dividida em dois espaços perfeitamente distintos: a sala de jantar e o salão propriamente dito.
A um canto, em ângulo recto uns sofás de módulos apoiados por um pequeno bar e uma mesinha de salão, definiam a área de repouso.
No canto oposto a aparelhagem de som e uma estante recheada de bons livros, continham o essencial para
um momento de repousante leitura. No chão de tijoleira vermelha um artistíco tapete de arraiolos e algumas
almofadas de serapilheira bordada.
Nas paredes vários quadros de molduras douradas reproduziam cópias de obras primas da pintura: Renoir,
Picasso, Van Gohg estavam ali representados com gosto e oportunidade.
Na outra metade da divisão era a sala de jantar com um pequeno móvel louceiro, século XVIII, uma mesa redonda, não muito grande, com seis cadeiras de espaldar trabalhado em couro.
A mesa estava posta com muito gosto e simplicidade. Uma toalha de linho natural, cor crua, com pequenos bordados de crivo a salpicar toda a toalha. Ao centro, um pequeno arranjo floral, baixo, com gipsofila e dois botões de rosas vermelhas.. Tudo parecia em ordem. Até o vinho no balde de gelo, esperava...
........................................................................................................
Trim...Trim.....
Era ele que chegava. Sem saber porquê, Marina estava nervosa. Um último olhar ao espelho para ver se
estava mesmo bem....
--- Ora viva!....Entra.....
--- Posso oferecer-te?....
Trouxera um lindo ramo de rosas, uma caixa de bombons que a Marina gostava e uma garrafa de espumante.
--- Com certeza, mas não devias incomodar-te e quanto ao espumante...nâo vejo razão...
--- Porque não? logo se vê.....
......................................................................................................
Tomado um rápido aperitivo passaram à mesa.
Marina preparara uma refeição diferente, com um cunho de intimidade em que ambos participassem totalmente.
Servido um cocktail de gambas com um vinho lagosta rosée, geladinho, Marina apresentara uma fondue.
Enquanto iam picando, fritando e comendo os pedacinhos de carne, iam falando de negócios, da vida, deles
próprios, dos seus gostos e preferências.
Frutas sortidas e uma bavaroise completaram a refeição.
Passaram ao salão para um bom café. Marina abriu os bombons que Fernando trouxera, pôs uma música
a tocar e ali ficaram um pouco mais como se nenhum deles quisesse pôr fim àqueles momentos de feliz convívio.
A dada altura, Fernando pediu licença para escolher um CD. Serviu o espumante ao mesmo tempo que
punha a tocar uma música suave, romântica, anos sessenta.....
Convidou Marina para dançar. Pouco a pouco, à medida que a música os envolvia os seus corpos iam
ficando mais lânguidos, mais colados, mais sensuais.
Como por magia sem que qualquer deles parecesse aperceber-se de tal os seus lábios quentes, ansiosos
uniram-se num involuntário, longo, sufocante beijo...
.................................................................................................
Como quem desperta de um sonho mau, Marina deu um salto.
Fernando quis dizer qualquer coisa mas ela não deixou. Colocou-lhe dois dedos sobre os lábios.
--- Pronto !. Gostei muito deste jantar. Foi muito bom... muito bom mesmo estar contigo. Mas quero que me prometas uma coisa, Fernando: Esquece este " final de festa ".... apenas e só bons amigos......
Tu, Fernando, és moço ainda e encantador... Vai !.... É tarde demais...para mim......
TARDE DEMAIS
Olhou o relógio. Estava quase na hora combinada. Como qualquer dona de casa que se preza, Marina passou em revista a sala para ver se nada faltava.
O apartamento de três assoalhadas era bastante confortável. Para além da espaçosa cozinha e de uma óptima sala de banho, com uma larga janela envidraçada. Tinha o quarto virado a poente onde o sol batia até ao último raio. Uma salinha que inicialmente servira como sala de estudo e onde posteriormente instalara o seu escritório.
A sala comum, grande, estava decorada com gosto e simplicidade, de forma a satisfazer as suas reais necessidades e estava dividida em dois espaços perfeitamente distintos: a sala de jantar e o salão propriamente dito.
A um canto, em ângulo recto uns sofás de módulos apoiados por um pequeno bar e uma mesinha de salão, definiam a área de repouso.
No canto oposto a aparelhagem de som e uma estante recheada de bons livros, continham o essencial para
um momento de repousante leitura. No chão de tijoleira vermelha um artistíco tapete de arraiolos e algumas
almofadas de serapilheira bordada.
Nas paredes vários quadros de molduras douradas reproduziam cópias de obras primas da pintura: Renoir,
Picasso, Van Gohg estavam ali representados com gosto e oportunidade.
Na outra metade da divisão era a sala de jantar com um pequeno móvel louceiro, século XVIII, uma mesa redonda, não muito grande, com seis cadeiras de espaldar trabalhado em couro.
A mesa estava posta com muito gosto e simplicidade. Uma toalha de linho natural, cor crua, com pequenos bordados de crivo a salpicar toda a toalha. Ao centro, um pequeno arranjo floral, baixo, com gipsofila e dois botões de rosas vermelhas.. Tudo parecia em ordem. Até o vinho no balde de gelo, esperava...
........................................................................................................
Trim...Trim.....
Era ele que chegava. Sem saber porquê, Marina estava nervosa. Um último olhar ao espelho para ver se
estava mesmo bem....
--- Ora viva!....Entra.....
--- Posso oferecer-te?....
Trouxera um lindo ramo de rosas, uma caixa de bombons que a Marina gostava e uma garrafa de espumante.
--- Com certeza, mas não devias incomodar-te e quanto ao espumante...nâo vejo razão...
--- Porque não? logo se vê.....
......................................................................................................
Tomado um rápido aperitivo passaram à mesa.
Marina preparara uma refeição diferente, com um cunho de intimidade em que ambos participassem totalmente.
Servido um cocktail de gambas com um vinho lagosta rosée, geladinho, Marina apresentara uma fondue.
Enquanto iam picando, fritando e comendo os pedacinhos de carne, iam falando de negócios, da vida, deles
próprios, dos seus gostos e preferências.
Frutas sortidas e uma bavaroise completaram a refeição.
Passaram ao salão para um bom café. Marina abriu os bombons que Fernando trouxera, pôs uma música
a tocar e ali ficaram um pouco mais como se nenhum deles quisesse pôr fim àqueles momentos de feliz convívio.
A dada altura, Fernando pediu licença para escolher um CD. Serviu o espumante ao mesmo tempo que
punha a tocar uma música suave, romântica, anos sessenta.....
Convidou Marina para dançar. Pouco a pouco, à medida que a música os envolvia os seus corpos iam
ficando mais lânguidos, mais colados, mais sensuais.
Como por magia sem que qualquer deles parecesse aperceber-se de tal os seus lábios quentes, ansiosos
uniram-se num involuntário, longo, sufocante beijo...
.................................................................................................
Como quem desperta de um sonho mau, Marina deu um salto.
Fernando quis dizer qualquer coisa mas ela não deixou. Colocou-lhe dois dedos sobre os lábios.
--- Pronto !. Gostei muito deste jantar. Foi muito bom... muito bom mesmo estar contigo. Mas quero que me prometas uma coisa, Fernando: Esquece este " final de festa ".... apenas e só bons amigos......
Tu, Fernando, és moço ainda e encantador... Vai !.... É tarde demais...para mim......
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
CONTOS ESCOLHIDOS II
ENCONTRO COM A VIDA......
CINQUENTA MIL EUROS........
Maria Clara é uma rapariga moderna. Olhos garotos cintilando de subentendidos, a sua boca tem o ar gaiato dum constante trejeito de troça. Veste pelo último figurino; frequenta os locais mais elegantes e escandalizou o bom povo da aldeia quando pela primeira vez, no verão transacto, calças bem justas, blusão negro e cigarro entalado entre dois dedos esguios, trepou com uma agilidade de gazela a serra semeada de enormes rochedos.
Com entoação um tanto ou quanto maliciosa, logo houve quem murmurasse:
--- Quem cabritos vende e cabras não tem...
E logo outra voz:
--- Também... tem a quem sair!...
............................................................................................
Quanto tempo passara já... Também a mãe fora jovem....e bonita. Por desgraça amara o homem que um dia foi seu marido. Um estroina dos diabos como depois se provou. E, um dia, ele partiu deixando-a nova e bonita, com uma filha nos braços.
Angustiada, Luísa sentia que nem tudo acabara. Tinha de viver e a cidade foi o seu refúgio. Partiu. Durante anos ninguém soube dela.
Trabalhou,lutou, sofreu mas venceu. Pôde criar e educar aquela filha que Deus lhe confiara.
............................................................................................
Reboliço na aldeia. Vários pedreiros trabalhavam afanosamente e, pouco a pouco, num pedaço de terra há
muito abandonada começa a erguer-se uma casa simples mas graciosa.
--- De quem é ?...- De quem não é ?... e, quando em azulejos aparece a inscrição " Vivenda Maria Luísa "
a bomba estala.
--- Da Luisinha da Quinta, aquela casa? Mas ela ficou sem nada... Foi rica? Pois foi mas não se soube orientar e os credores levaram-lhe tudo. Ná !...Aqui há gato.... onde é que ela arranjou o dinheiro? anda calça no caso...ó se anda !...
..........................................................................................
--- Para quê uma casa tão bonita se não mora cá ninguém? - interrogavam-se.
Um dia, junto ao gradeamento parou um automóvel. Conduz com desenvoltura a jovem que os curiosos deduzem, pelas parecenças, ser filha da senhora encanecida que vem ao lado. Acompanha-as uma criada com " cara de poucos amigos ". Em breve a nova corre de boca em boca. É a Luísinha da Quinta mais a filha.
--- Coitada!.. Como está velha!.. Sabe-se lá o que teria passado...
--- Ora! Dizem de outro lado---: Gente desta? É vê-las: saiu daqui sem vintém e volta de automóvel. E a filha? Parece...
--- E se calhar...é..!
--- Tal mãe, tal filha, com certeza.
--- Não admira: filha de peixe...
................................................................................................
Passou-se quase um mês e todo o povo se acostumou à recolhida presença de Maria Luísa e da filha.
Já as sombras do crepúsculo desciam da serra quando, à porta da vivenda parou um automóvel.
Dele saíu um homem ainda bastante novo. Feliz, Maria Clara, correu a abrir-lhe o portão. Abraçaram-se
com ternura. Ao outro dia, porém, ele partiu.
Escândalo! Um homem em casa delas. Tudo estava, enfim, justificado: era aquele o " homem da massa "
mas era pela filha. E, Maria Luísa foi apelidada de mulher sem vergonha, acusada de viver à custa da filha.
Passaram a olhá-las de revés, como se tivessem peste.
...............................................................................................
Ao reler, uma vez mais, o final daquela breve carta, Maria Clara chorou.
".....Não posso fazer o que me pedes, Clarinha, Não posso abandonar a fábrica, agora, com este assunto
para resolver. Não estarás tu a exagerar? Como poderão pensar mal de nós se nada fizémos para originar
esses boatos? Só porque não contámos a nossa vida a cada um? Não faças caso.... confia em mim...."
...................................................................................................
Domingo ! Dia do Senhor !... A pequena capela está repleta de fiéis. O velho prior, todo branco, curvado pelos anos, pede uns momentos de atenção, antes de começar a debandada. O que tem a dizer é breve.
Acabara de receber uma carta do esposo da Sra. D. Clarinha com um cheque de cinquenta mil euros para
restaurar a capela. E, emocionado, o bom velhote pede a Maria Clara que afirme ao sr. engenheiro o agradecimento colectivo da população.
À saída todos os olhares convergem sobre elas, num misto de admiração e servilismo que comoveu e revoltou o espírito integro de Maria Clara.
E, só quando alguém a seu lado murmurou, talvez desiludido, um - afinal ela é casada!.... ela compreendeu a atitude do marido.
Cinquenta mil euros -- mascarados de beneficentes -- foram o preço da sua reputação !
Teresa Pascoal
ENCONTRO COM A VIDA......
CINQUENTA MIL EUROS........
Maria Clara é uma rapariga moderna. Olhos garotos cintilando de subentendidos, a sua boca tem o ar gaiato dum constante trejeito de troça. Veste pelo último figurino; frequenta os locais mais elegantes e escandalizou o bom povo da aldeia quando pela primeira vez, no verão transacto, calças bem justas, blusão negro e cigarro entalado entre dois dedos esguios, trepou com uma agilidade de gazela a serra semeada de enormes rochedos.
Com entoação um tanto ou quanto maliciosa, logo houve quem murmurasse:
--- Quem cabritos vende e cabras não tem...
E logo outra voz:
--- Também... tem a quem sair!...
............................................................................................
Quanto tempo passara já... Também a mãe fora jovem....e bonita. Por desgraça amara o homem que um dia foi seu marido. Um estroina dos diabos como depois se provou. E, um dia, ele partiu deixando-a nova e bonita, com uma filha nos braços.
Angustiada, Luísa sentia que nem tudo acabara. Tinha de viver e a cidade foi o seu refúgio. Partiu. Durante anos ninguém soube dela.
Trabalhou,lutou, sofreu mas venceu. Pôde criar e educar aquela filha que Deus lhe confiara.
............................................................................................
Reboliço na aldeia. Vários pedreiros trabalhavam afanosamente e, pouco a pouco, num pedaço de terra há
muito abandonada começa a erguer-se uma casa simples mas graciosa.
--- De quem é ?...- De quem não é ?... e, quando em azulejos aparece a inscrição " Vivenda Maria Luísa "
a bomba estala.
--- Da Luisinha da Quinta, aquela casa? Mas ela ficou sem nada... Foi rica? Pois foi mas não se soube orientar e os credores levaram-lhe tudo. Ná !...Aqui há gato.... onde é que ela arranjou o dinheiro? anda calça no caso...ó se anda !...
..........................................................................................
--- Para quê uma casa tão bonita se não mora cá ninguém? - interrogavam-se.
Um dia, junto ao gradeamento parou um automóvel. Conduz com desenvoltura a jovem que os curiosos deduzem, pelas parecenças, ser filha da senhora encanecida que vem ao lado. Acompanha-as uma criada com " cara de poucos amigos ". Em breve a nova corre de boca em boca. É a Luísinha da Quinta mais a filha.
--- Coitada!.. Como está velha!.. Sabe-se lá o que teria passado...
--- Ora! Dizem de outro lado---: Gente desta? É vê-las: saiu daqui sem vintém e volta de automóvel. E a filha? Parece...
--- E se calhar...é..!
--- Tal mãe, tal filha, com certeza.
--- Não admira: filha de peixe...
................................................................................................
Passou-se quase um mês e todo o povo se acostumou à recolhida presença de Maria Luísa e da filha.
Já as sombras do crepúsculo desciam da serra quando, à porta da vivenda parou um automóvel.
Dele saíu um homem ainda bastante novo. Feliz, Maria Clara, correu a abrir-lhe o portão. Abraçaram-se
com ternura. Ao outro dia, porém, ele partiu.
Escândalo! Um homem em casa delas. Tudo estava, enfim, justificado: era aquele o " homem da massa "
mas era pela filha. E, Maria Luísa foi apelidada de mulher sem vergonha, acusada de viver à custa da filha.
Passaram a olhá-las de revés, como se tivessem peste.
...............................................................................................
Ao reler, uma vez mais, o final daquela breve carta, Maria Clara chorou.
".....Não posso fazer o que me pedes, Clarinha, Não posso abandonar a fábrica, agora, com este assunto
para resolver. Não estarás tu a exagerar? Como poderão pensar mal de nós se nada fizémos para originar
esses boatos? Só porque não contámos a nossa vida a cada um? Não faças caso.... confia em mim...."
...................................................................................................
Domingo ! Dia do Senhor !... A pequena capela está repleta de fiéis. O velho prior, todo branco, curvado pelos anos, pede uns momentos de atenção, antes de começar a debandada. O que tem a dizer é breve.
Acabara de receber uma carta do esposo da Sra. D. Clarinha com um cheque de cinquenta mil euros para
restaurar a capela. E, emocionado, o bom velhote pede a Maria Clara que afirme ao sr. engenheiro o agradecimento colectivo da população.
À saída todos os olhares convergem sobre elas, num misto de admiração e servilismo que comoveu e revoltou o espírito integro de Maria Clara.
E, só quando alguém a seu lado murmurou, talvez desiludido, um - afinal ela é casada!.... ela compreendeu a atitude do marido.
Cinquenta mil euros -- mascarados de beneficentes -- foram o preço da sua reputação !
Teresa Pascoal
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
CONTOS ESCOLHIDOS
AO PÔR DO SOL..
Era sempre há mesma hora, quando para lá dos telhados sujos do bairro o sol tingia de sangue as águas do Tejo, que a tristeza se apossava de Mário. Aquela bola de fogo, ao longe, a perder-se no horizonte, trazia-lhe à recordação a saudosa lembrança de tanto pôr de sol que ele presenciara, embevecido, no seu Alentejo...
E, maldizia a ideia que o pai tivera de o mandar para os estudos. Fora o princípio do fim. Primeiro, aquele colégio de província, tristonho e acanhado em que os dias se desperdiçavam sem proveito, apertados pela vigilância dos perfeitos.
Depois, já homem feito, Lisboa engolira-o. A princípio deslumbrara-o a ideia de viver, enfim liberto de tutelas, entregue a si próprio, no bulício de uma grande cidade. O primeiro ano de instituto perdera-o à cata de emoções que o fizessem sentir-se, realmente, um verdadeiro homem. O pai zangara-se e não lhe permitira naquele ano voltar às suas terras, à sua planícíe amada. De castigo ficara amarrado aos livros para recuperar o tempo perdido. A lição serviu-lhe de emenda e os anos seguintes foram heroicamente vencidos.
............................................................................
O outrora sólido património dos Azevedos, enfraquecera consideravelmente, depois que sua mãe se finara.
Fizeram partilhas. A irmã, já casada, tomou conta do que lhe pertencia e ele, embriagado pela vida fácil da capital esbanjou em noites de orgia, o que lhe coubera. As suas propriedades hipotecadas foram parar às mãos de vizinhos mais ou menos endinheirados.
Após este desaire, Mário de Azevedo, jurou não voltar ao Alentejo apesar das saudades que o roíam. Não! Antes não voltar nunca mais, que sofrer o vexame de encarar os seus adversários. Voltar? Para quê, se não poderia beber água no velho tanque do peixe de barro colocado à laia de bica, de que ele tanto gostava, se não poderia, como dono, colher alguns cachos na velha vinha que ajudara a plantar. Não! Não iria. Era bem preferível sofrer, ali, na quietude do seu quarto aridamente confortável de quase solteirão.
E, Mário esquecia-se todas as tardes, sentado no maple verde seco, a contemplar, para além da janela aberta de par em par, o mergulhar do astro rei nas rubras águas do rio.
Esquecia o jornal, que raramente chegava a ler, e perdia-se no sonhop de uma terra distante, duns olhos gaiatos....
Que seria feito dela? Casara?..Em miúdos tinham sido conversados. Onde isso ia....e, no entanto, nunca a esqueceu. Fora o seu primeiro e único amor.
E o pai? Como estaria ele? Muito velho, por certo. Pobre homem!... quanto devia sofrer ao ver as suas terras, a que tanto queria, em mãos alheias, desventradas pelos seus mais encarniçados inimigos, só porque o filho, esse filho estremecido, o seu querido Mário,que ele sonhara engenheiro agrónomo, não era mais que um estroina viciado. Mais valera - a! Se ele adivinhasse.....-tê-lo criado sempre no Monte, entre ganhões e trabalho. Ao menos seria um lavrador consciente.
A escuridão acabava por avassalar o ambiente e Mário de Azevedo, limpando à costa da mão - como em pequenino - uma lágrima furtiva murmurava, quase em pensamento, imperceptívelmente.
---Perdão, meu pai, perdão !...
Quantas vezes já pensara ir, indiferente a tudo, lançar-se nos braços do velho ancião e repetir-lhe baixinho, apertando-o ao peito.aquela frase singela mas tão sincera. Mas, orgulhoso, não se atrevera ainda a concretizar aquele anseio.. Uma força estranha acorrentava-o ali. Jurara a si próprio só voltar ao Alentejo quando, vitorioso, pudesse reaver, ainda que a peso de ouro, aquilo que um dia fora seu. Para isso necessitava de um bom pecúlio.
Na empresa onde exercia a sua profissão de engenheiro ganhava bastante bem mas a vida de estúrdia que levava não lhe permitia grandes economias. E, depois....aquele maldito vício, o jogo, sugava-lhe tudo. A roleta tornara-se numa verdadeira obsessão e fora ela, a mais exigente amante, que o arrastara àquela deprimente situação.
................................................................
Agora, ali estava de novo, com a carta entre os dedos, a queimar-lhe a pele. Em meia dúzia de linhas, o pai, muito mal já pedia-lhe que voltasse. Queria vê-lo e falar-lhe:
---Vem, meu filho, tudo esqueci. Antes de morrer quero ainda abraçar-te para partir feliz.
---Não, não posso...e, quem seria que me procurou ontem no casino? Uma jovem bonita mas modesta. Não faço ideia. Oh! E o meu pai? Mas não, eu não posso ir, não tenho coragem para ver a ruína que ocasionei.
---Pela centésima vez relia aquela carta. Tenho de esquecer. Vou jogar !
...................................................................
O sol há muito se pusera para lá do horizonte. Mais uma ficha, outra, outra ainda.
---Sr. Engenheiro, estão la fora a perguntar pelo senhor.....seu pai.....
---Deixa-me, vai-te! Já perdi mas hei-de ganhar...hei-de ganhar....estás a ouvir?- a voz morreu-lhe num estertoroso gargalhar.
A noite não foi favorável. Desiludido, pois nem o esquecimento encontrara, saíu.
---Sr. Engenheiro...atenda-me, o seu pai está a morrer, venha comigo, ele quer vê-lo....
---Cala-te !
Perlaram-se de lágrimas os lindos olhos negros daquela formosa mulher que, baixando a cabeça consternada, murmurou:
--- Tu não eras assim !. Foi a cidade, foi esse pano verde, que te endureceram; não és o mesmo que conheci lá longe, no nosso Alentejo. Não és o mesmo com quem brinquei... meu pobre Mário....
---Eh! Não te vás!... Falaste em Alentejo?, mulher... Quem és ? Olha para mim.
---Luísa?!!...Tu?...Aqui?!....Perdoa-me... vamos depressa, quero ainda vê-lo... pedir-lhe perdão.....
...........................................................
---Então? Ainda partes?
---Partir? Não brinques, Luísa. Voltei à minha terra e não tornarei a deixá-la. O pai si, já se foi, mas eu ficarei para sempre. Aqui nasci e é aqui o meu lugar. Com o que agora recebi da parte de meu pai hei-de viver decentemente e não descansarei enquanto não fizer desta pequena propriedade o mais próspero e produtivo Monte das redondezas. É a minha penitência. Nunca me senti tão feliz como depois que regressei, como desde que te tenho a ti. O nosso amor será indestrutível, Luísa.
---E não sentirás a falta da cidade?
---Não! Contigo a meu lado nada me faltará. Terei o mundo todo nos braços.
---Obrigada, Mário. Anda, vem comigo. Repara, a terra é toda um fogo. Mário, vês toda esta vastidão à nossa volta? Sabes de quem eram estas terras? Recordas-te, com certeza de como brincámos sob aquelas árvores...Não queres voltar de novo a tocar os seus ramos frondosos?...
---Mas, Luísa, aquilo já não me pertence... não me peças o impossivel. Passar sob aquelas copas seria para mim bem doloroso....
---Porquê?
---Dói-me sabê-las nas mãos de outro.
---Tonto, tudo aquilo é teu, é nosso, e será amanhã dos nossos filhos.
---? ! !
---A história é longa, Mário! Basta-te, por ora, saber que a terra é nossa. Meu pai... comprou-a.
---Luísa...mas...eu....
---Tu, Mário, és o meu marido, o pai do filho que sinto pulsar em mim, e, o único senhor de tudo isto...Vem, meu amor...
..........................................................
E, sob a folhagem fechada daqueles sobreiros que sangrentos,duas bocas jovens e enamoradas se uniram
enquanto ao longe, o sol, envergonhado, discretamente se escondeu.
Teresa Pascoal
publicado em 1965 no primeiro número do ALMANAQUE PORTALEGRENSE
AO PÔR DO SOL..
Era sempre há mesma hora, quando para lá dos telhados sujos do bairro o sol tingia de sangue as águas do Tejo, que a tristeza se apossava de Mário. Aquela bola de fogo, ao longe, a perder-se no horizonte, trazia-lhe à recordação a saudosa lembrança de tanto pôr de sol que ele presenciara, embevecido, no seu Alentejo...
E, maldizia a ideia que o pai tivera de o mandar para os estudos. Fora o princípio do fim. Primeiro, aquele colégio de província, tristonho e acanhado em que os dias se desperdiçavam sem proveito, apertados pela vigilância dos perfeitos.
Depois, já homem feito, Lisboa engolira-o. A princípio deslumbrara-o a ideia de viver, enfim liberto de tutelas, entregue a si próprio, no bulício de uma grande cidade. O primeiro ano de instituto perdera-o à cata de emoções que o fizessem sentir-se, realmente, um verdadeiro homem. O pai zangara-se e não lhe permitira naquele ano voltar às suas terras, à sua planícíe amada. De castigo ficara amarrado aos livros para recuperar o tempo perdido. A lição serviu-lhe de emenda e os anos seguintes foram heroicamente vencidos.
............................................................................
O outrora sólido património dos Azevedos, enfraquecera consideravelmente, depois que sua mãe se finara.
Fizeram partilhas. A irmã, já casada, tomou conta do que lhe pertencia e ele, embriagado pela vida fácil da capital esbanjou em noites de orgia, o que lhe coubera. As suas propriedades hipotecadas foram parar às mãos de vizinhos mais ou menos endinheirados.
Após este desaire, Mário de Azevedo, jurou não voltar ao Alentejo apesar das saudades que o roíam. Não! Antes não voltar nunca mais, que sofrer o vexame de encarar os seus adversários. Voltar? Para quê, se não poderia beber água no velho tanque do peixe de barro colocado à laia de bica, de que ele tanto gostava, se não poderia, como dono, colher alguns cachos na velha vinha que ajudara a plantar. Não! Não iria. Era bem preferível sofrer, ali, na quietude do seu quarto aridamente confortável de quase solteirão.
E, Mário esquecia-se todas as tardes, sentado no maple verde seco, a contemplar, para além da janela aberta de par em par, o mergulhar do astro rei nas rubras águas do rio.
Esquecia o jornal, que raramente chegava a ler, e perdia-se no sonhop de uma terra distante, duns olhos gaiatos....
Que seria feito dela? Casara?..Em miúdos tinham sido conversados. Onde isso ia....e, no entanto, nunca a esqueceu. Fora o seu primeiro e único amor.
E o pai? Como estaria ele? Muito velho, por certo. Pobre homem!... quanto devia sofrer ao ver as suas terras, a que tanto queria, em mãos alheias, desventradas pelos seus mais encarniçados inimigos, só porque o filho, esse filho estremecido, o seu querido Mário,que ele sonhara engenheiro agrónomo, não era mais que um estroina viciado. Mais valera - a! Se ele adivinhasse.....-tê-lo criado sempre no Monte, entre ganhões e trabalho. Ao menos seria um lavrador consciente.
A escuridão acabava por avassalar o ambiente e Mário de Azevedo, limpando à costa da mão - como em pequenino - uma lágrima furtiva murmurava, quase em pensamento, imperceptívelmente.
---Perdão, meu pai, perdão !...
Quantas vezes já pensara ir, indiferente a tudo, lançar-se nos braços do velho ancião e repetir-lhe baixinho, apertando-o ao peito.aquela frase singela mas tão sincera. Mas, orgulhoso, não se atrevera ainda a concretizar aquele anseio.. Uma força estranha acorrentava-o ali. Jurara a si próprio só voltar ao Alentejo quando, vitorioso, pudesse reaver, ainda que a peso de ouro, aquilo que um dia fora seu. Para isso necessitava de um bom pecúlio.
Na empresa onde exercia a sua profissão de engenheiro ganhava bastante bem mas a vida de estúrdia que levava não lhe permitia grandes economias. E, depois....aquele maldito vício, o jogo, sugava-lhe tudo. A roleta tornara-se numa verdadeira obsessão e fora ela, a mais exigente amante, que o arrastara àquela deprimente situação.
................................................................
Agora, ali estava de novo, com a carta entre os dedos, a queimar-lhe a pele. Em meia dúzia de linhas, o pai, muito mal já pedia-lhe que voltasse. Queria vê-lo e falar-lhe:
---Vem, meu filho, tudo esqueci. Antes de morrer quero ainda abraçar-te para partir feliz.
---Não, não posso...e, quem seria que me procurou ontem no casino? Uma jovem bonita mas modesta. Não faço ideia. Oh! E o meu pai? Mas não, eu não posso ir, não tenho coragem para ver a ruína que ocasionei.
---Pela centésima vez relia aquela carta. Tenho de esquecer. Vou jogar !
...................................................................
O sol há muito se pusera para lá do horizonte. Mais uma ficha, outra, outra ainda.
---Sr. Engenheiro, estão la fora a perguntar pelo senhor.....seu pai.....
---Deixa-me, vai-te! Já perdi mas hei-de ganhar...hei-de ganhar....estás a ouvir?- a voz morreu-lhe num estertoroso gargalhar.
A noite não foi favorável. Desiludido, pois nem o esquecimento encontrara, saíu.
---Sr. Engenheiro...atenda-me, o seu pai está a morrer, venha comigo, ele quer vê-lo....
---Cala-te !
Perlaram-se de lágrimas os lindos olhos negros daquela formosa mulher que, baixando a cabeça consternada, murmurou:
--- Tu não eras assim !. Foi a cidade, foi esse pano verde, que te endureceram; não és o mesmo que conheci lá longe, no nosso Alentejo. Não és o mesmo com quem brinquei... meu pobre Mário....
---Eh! Não te vás!... Falaste em Alentejo?, mulher... Quem és ? Olha para mim.
---Luísa?!!...Tu?...Aqui?!....Perdoa-me... vamos depressa, quero ainda vê-lo... pedir-lhe perdão.....
...........................................................
---Então? Ainda partes?
---Partir? Não brinques, Luísa. Voltei à minha terra e não tornarei a deixá-la. O pai si, já se foi, mas eu ficarei para sempre. Aqui nasci e é aqui o meu lugar. Com o que agora recebi da parte de meu pai hei-de viver decentemente e não descansarei enquanto não fizer desta pequena propriedade o mais próspero e produtivo Monte das redondezas. É a minha penitência. Nunca me senti tão feliz como depois que regressei, como desde que te tenho a ti. O nosso amor será indestrutível, Luísa.
---E não sentirás a falta da cidade?
---Não! Contigo a meu lado nada me faltará. Terei o mundo todo nos braços.
---Obrigada, Mário. Anda, vem comigo. Repara, a terra é toda um fogo. Mário, vês toda esta vastidão à nossa volta? Sabes de quem eram estas terras? Recordas-te, com certeza de como brincámos sob aquelas árvores...Não queres voltar de novo a tocar os seus ramos frondosos?...
---Mas, Luísa, aquilo já não me pertence... não me peças o impossivel. Passar sob aquelas copas seria para mim bem doloroso....
---Porquê?
---Dói-me sabê-las nas mãos de outro.
---Tonto, tudo aquilo é teu, é nosso, e será amanhã dos nossos filhos.
---? ! !
---A história é longa, Mário! Basta-te, por ora, saber que a terra é nossa. Meu pai... comprou-a.
---Luísa...mas...eu....
---Tu, Mário, és o meu marido, o pai do filho que sinto pulsar em mim, e, o único senhor de tudo isto...Vem, meu amor...
..........................................................
E, sob a folhagem fechada daqueles sobreiros que sangrentos,duas bocas jovens e enamoradas se uniram
enquanto ao longe, o sol, envergonhado, discretamente se escondeu.
Teresa Pascoal
publicado em 1965 no primeiro número do ALMANAQUE PORTALEGRENSE
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
BIOGRAFIA
Creio ter chegado o momento de contar aos meus leitores um pouco da minha vida.
Natural do Montijo, vi-me com cinco anos apenas transplantada para Portalegre, belíssima cidade do Alto Alentejo " rodeada de montes e vales " como a definiu José Régio, de quem tive o grato prazer de ser amiga pessoal e especial, com quem muito aprendi.
Filha única, comecei a ler muito cedo. Simultâneamente o interesse pela escrita foi evoluindo com o crescimento. Escrever era para mim um refúgio e uma fuga para a frente, para os que me rodeavam e me incentivavam a prosseguir.
O prazer era escrever sem a ambição de publicar mas, com 13 anos, na sequência de uma festa escolar o jornal " A Rabeca" publicou um poema que escrevera para a festa.
E, nunca mais parei. Colaborei em várias publicações regionais das quais saliento "A Província", "Notícias de Setúbal", " Jornal de Évora", "Defesa da Beira", "Figueirense" e no primeiro Volume do "Almanaque Portalegrense".
Mas a minha casa mãe foi a " Gazeta do Sul "onde, ao longo de muitos anos fui escrevendo...escrevendo, já na qualidade de redatora.
Assim, centenas de trabalhos meus foram-se espalhando. Poemas, contos, crónicas, novelas, seguiram o caminho dos leitores sem que sentisse a necessidade de os aprisionar nas folhas de um ou mais livros.
Chegou, finalmente a hora de tocar a reunir. Vou procurar reencontrar tantos trabalhos dispersos. Essencialmente com a intenção expressa de mais tarde os entregar à Biblioteca da minha terra
Conseguirei levar a bom porto o barco do meu desejo?
Só o tempo o dirá !...
Talvez me decida a publicar uma ou outra selecção dos meus trabalhos.
O resto ficará inédito mas vou partilhá-los aqui , neste espaço, com quem os quiser ler.
Talvez não seja aquilo que os "entendidos" apelidam de um blog convencional. Mas é aquilo que a minha eterna irreverência me impele a fazer.
Para todos os que me lerem aqui deixo o meu sincero e portuguesíssimo BEM HAJAM !...
Teresa Pascoal
.
Creio ter chegado o momento de contar aos meus leitores um pouco da minha vida.
Natural do Montijo, vi-me com cinco anos apenas transplantada para Portalegre, belíssima cidade do Alto Alentejo " rodeada de montes e vales " como a definiu José Régio, de quem tive o grato prazer de ser amiga pessoal e especial, com quem muito aprendi.
Filha única, comecei a ler muito cedo. Simultâneamente o interesse pela escrita foi evoluindo com o crescimento. Escrever era para mim um refúgio e uma fuga para a frente, para os que me rodeavam e me incentivavam a prosseguir.
O prazer era escrever sem a ambição de publicar mas, com 13 anos, na sequência de uma festa escolar o jornal " A Rabeca" publicou um poema que escrevera para a festa.
E, nunca mais parei. Colaborei em várias publicações regionais das quais saliento "A Província", "Notícias de Setúbal", " Jornal de Évora", "Defesa da Beira", "Figueirense" e no primeiro Volume do "Almanaque Portalegrense".
Mas a minha casa mãe foi a " Gazeta do Sul "onde, ao longo de muitos anos fui escrevendo...escrevendo, já na qualidade de redatora.
Assim, centenas de trabalhos meus foram-se espalhando. Poemas, contos, crónicas, novelas, seguiram o caminho dos leitores sem que sentisse a necessidade de os aprisionar nas folhas de um ou mais livros.
Chegou, finalmente a hora de tocar a reunir. Vou procurar reencontrar tantos trabalhos dispersos. Essencialmente com a intenção expressa de mais tarde os entregar à Biblioteca da minha terra
Conseguirei levar a bom porto o barco do meu desejo?
Só o tempo o dirá !...
Talvez me decida a publicar uma ou outra selecção dos meus trabalhos.
O resto ficará inédito mas vou partilhá-los aqui , neste espaço, com quem os quiser ler.
Talvez não seja aquilo que os "entendidos" apelidam de um blog convencional. Mas é aquilo que a minha eterna irreverência me impele a fazer.
Para todos os que me lerem aqui deixo o meu sincero e portuguesíssimo BEM HAJAM !...
Teresa Pascoal
.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
A MEU PAI
Ó meu saudoso pai, hoje tu és
preso na morte fria, inacessível,
a certeza mais dura, mais real,
dum verdadeiro amor já´impossível.
Sinto-te junto a mim em certos dias
e oiço a tua voz nos meus ouvidos;
quero abraçar-te e vejo que não passas
duma torpe ilusão dos meus sentidos.
Então, desfeita em pranto, essa ilusão
deixa um sabor amargo de miragem.
Tudo se esvai por fim mas, no meu peito
fica mais viva ainda a tua imagem.
Teu nome não morreu quando morreste,
nem acabou no eco dos meus gritos,
pois ele viverá, enquanto eu,
com ele assinar os meus escritos.
Henrique Pascoal era o nome do meu pai. Foi ele, que desde o primeiro dia me apoiou, lendo de uma forma discreta, às escondidas, o que eu deixava rabiscado, aqui, ali. O seu silêncio e a forma como me olhava eram um sinal de aprovação.
Por isso, depois de ter assinado, por imperativos profissionais, com vários pseudónimos, decidi que definitivamente, assumiria o nome do meu pai como a minha identidade literária.
Por isso, tudo que tenha escrito ou venha a escrever será identificado da forma mais simples, natural e verdadeira...........
Teresa Pascoal
Ó meu saudoso pai, hoje tu és
preso na morte fria, inacessível,
a certeza mais dura, mais real,
dum verdadeiro amor já´impossível.
Sinto-te junto a mim em certos dias
e oiço a tua voz nos meus ouvidos;
quero abraçar-te e vejo que não passas
duma torpe ilusão dos meus sentidos.
Então, desfeita em pranto, essa ilusão
deixa um sabor amargo de miragem.
Tudo se esvai por fim mas, no meu peito
fica mais viva ainda a tua imagem.
Teu nome não morreu quando morreste,
nem acabou no eco dos meus gritos,
pois ele viverá, enquanto eu,
com ele assinar os meus escritos.
Henrique Pascoal era o nome do meu pai. Foi ele, que desde o primeiro dia me apoiou, lendo de uma forma discreta, às escondidas, o que eu deixava rabiscado, aqui, ali. O seu silêncio e a forma como me olhava eram um sinal de aprovação.
Por isso, depois de ter assinado, por imperativos profissionais, com vários pseudónimos, decidi que definitivamente, assumiria o nome do meu pai como a minha identidade literária.
Por isso, tudo que tenha escrito ou venha a escrever será identificado da forma mais simples, natural e verdadeira...........
Teresa Pascoal
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