segunda-feira, 19 de outubro de 2015

NO PALCO DA VIDA

                    NO PALCO DA VIDA


           Eu sou
           aquela actriz apaixonada
           que sobe ao palco
           e fica enamorada
           da trama,
           do enredo,
           da história ali contada,
           ora triste,
           dramática...
           e até divertida.

            Encarno o meu papel,
            ora doce como um favo de mel
            ora amargo,
            horrivel
            no seu travo de fel.

            Agarro-o,
            bebo-o
            e toda eu entranho
            o sofrer que o sentimento tem.

            Eu não sou eu.
            Sou o avesso de mim
            com começo mas sem fim
            e,eu não te quero perder.

            Sou o Diabo em pessoa.
            Sou má por fora
            mas, por dentro,
            camuflada,
,           há uma alma boa,
            disfarçada
            na mais feroz leoa.

            E, quando o drama termina
            e a cortina se fecha,
            no palco jaz,
            esgotada,
            toda em lágrimas lavada,
            os restos, da atriz...
           
             Os restos que a peça deixa
             espalhados no tablado
             duma mulher infeliz
             que cai...desmaiada
             ao lado!
       
           


           
         

sábado, 18 de julho de 2015

PORQUÊ?

Ainda há pouco era noite mas o Sol brilhava. De repente um veu cor de sombra,  desceu sobre mim ,trazendo uma angústia que eu não conseguia rotular. Só uma pergunta vibrava no meu cerebro: Porquê?...Porquê?  Mas porquê o quê?
Não sei..nem quero pensar se quero saber.
Senti-me uma criança desamparada, na feira da vida. Lembrei o tempo em que o meu pai pagava a um militar para ir comigo ao carrossel...aos carrinhos de choque...á montanha russa.  É isso! Então eu tinha medo da montanha russa, Ora em baixo...ora em cima....para voltar de novo a descer aos "infernos"
Será que o destino se colou a mim e me empurra para baixo...?
Pai!...Eu já não preciso dum militar....só preciso....daqueles olhos claros...daquele peito forte...daquela pele quente que me "puxa para cima"
Mas onde é que ele se meteu?


quinta-feira, 8 de maio de 2014

PARA ALÉM DA VIDA


   Foram tantos anos duma amizade sã, pura, leal, os que partilhámos, lá longe, em terras que não eram nossas.    Vivemos dias bons e dias maus!  Comungámos alegrias!  Repartimos ansiedades!  Apertámos as mãos!   Démos abraços!  Festejámos tanta coisa boa!

   Mas nada é eterno. Tudo acaba um dia.  É difícil aceitar mas tem de ser.  Porém, os laços que criámos não se desatam assim tão fàcilmente.  Quando são verdadeiros...sinceros...perduram para além da morte.

    Doeu muito vê-la partir.
    Quem sabe se não voltaremos a encontrar-nos um dia?!
     É nessa esperança, comum a todos que acreditam em algo mais para al´em deste tempo passageiro,
que aqui deixo - não um adeus - mas um até breve, Amiga!

domingo, 2 de março de 2014

RELATOS NA PRIMEIRA PESSOA

   
                            QUADRO  I

             A vida é realmente imprevisível e cruel.

              Ruth é o meu nome.  Terminei, há pouco, a minha refeição solitária.   Nasci só!...Cresci só!...E, irei terminar irremediàvelmente só!.
             Tento  colmatar esta solidão com a leitura dum livro que alguém me ofereceu pelo Natal.  Tento mas não consigo. Interrompo a cada meio de linha...fico em suspenso e, dou comigo a viajar ao passado. O livro narra a história de uma avó e uma neta, unha e carne, nos bons e maus momentos.
              Dou um salto de gazela aos anos cincoenta. O meu cerebro, sempre atento e serviçal, focaliza um momento digno de ser imortalizado num quadro - talvez de Malhoa - que tão bem interpretava a vida do povo.

              ?? Uma cozinha grande, espaçosa, antiga, própria de uma família numerosa.  Uma chaminé de poial.   Num canto a avó, alta, magra, elegante - apesar dos seus quase noventa anos ; vestia de preto pela perda do marido e de alguns filhos..  Criara nove dos quais ainda lhe sobreviviam cinco.  Três filhas e dois filhos.
              Atravessara duas guerras ditas mundiais: a de 1914/1918 e a de 1939/1945.  Como grande matriarca que era geriu património, orientou a vida, ajudou quem dela precisava enquanto o marido e dois dos filhos combatiam lá longe.  Tão longe!!!  Longe da vista mas perto do coração que sempre acreditou
no regresso.
              Era estimada em todo o bairro onde a uns alimentava o corpo e a outros a alma com a sua fé, inabalável, em Santa Maria Adelaide, de Arcozêlo.
   
              Thereza de Jesus era o seu nome...Tinha nas veias a força do mar de Ovar, onde nascera.
               E, ali estava ela.  A malga da sopa na mão esquerda, em concha.  Na direita a colher que esquecia frequentemente o caminho da boca...por instantes de reflexão....

               A meio da enorme cozinha, numa mesa de mogno, bem antiga, posta com pormenores de requinte, uma das filhas, o genro e os netos ( um rapaz e uma rapariga ) davam caminho a uma opípara refeição.   Estavam todos bem na vida!  Cheirava de fazer crescer "água na boca "

                Eu cheguei pela mão do meu pai e corri a aninhar-me nos joelhos da minha avó pois não tinha o previlégio de estar com ela todos os dias como a grande maioria dos meus primos.  E, dali fiquei a observar a " festa " feita ao meu pai e os convites de " senta-te aí...almoça connosco...chega para todos ...." e a mentira do meu pai ao dizer um " não, obrigado!  Nós já almoçamos...vim só dar um abraço e um beijo à mãe...."
               Que " grande " que " digno " era o meu pai!...

               Foi a última vez que tive o prazer de estar assim..ali..aconchegada no seu colo!...

               Comigo guardo religiosamente a sua fotografia como se fosse a imagem do meu anjo protector.
               Sempre quiz ser como ela.  Herdei-lhe o caracter, a determinação e por certo a solidão.

               Querida avó!  Ainda hoje te fui visitar àquele cantinho escuro...sem volta.  E, se "ontem" estavas
" só " hoje tens, há 37 anos feitos precisamente neste dia, a eterna companhia do meu pai na mesma        
" morada de família " onde atempadamente me juntarei a vocês.  Até um dia Avó!  Até um dia Pai!

P. S.----Levei-vos flores de jarro, branquinhas!   Sei que gostavas e o meu pai também!
              Com todo o meu eterno amor.....


               


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

RESPOSTA À PÁGINA DO PAI NATAL

RESPOSTA À PÁGINA DO PAI NATAL

   Peço desculpa do atrevimento, mas o senhor, meu velho  amigo de tantos anos, foi tão simpático que me atrevo a roubar-lhe um pouquinho do seu tempo.  Vou contar-lhe algo que aconteceu justamente a 24 de Dezembro de 2012.    é claro que quando receber esta minha mensagem já estará de volta aos seus domínios mas mesmo assim acho que vale a pena.... talvez se recorde deste episódio.

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QUERIDA MARIANA,

                                     " Faz hoje um ano.   Lembras-te?
                                     Foi ao cair da tarde.  No meio da cidade, lá de cima, vislumbrei um Parque. Sem
folhas, as árvores pareciam condenados suplicando perdão.Os ramos semelhavam mãos erguidas em súplica
esperançosas que a simpática Fada Primavera, lhes perdoasse o desespero e voltasse a cobri-las de verde.

                                     Mas nem tudo era mau.   Havia um lago com patinhos cheios de vida e uma menina linda que acabara de alimentar um bando de pombos sempre esfomeados.

                                     Resolvi parar por ali.   Perguntei á`menina como se chamava:
                                     -- MARIANA...
                                     Onde moras?        de olhos muito abertos, respondeu, apontando o outro lado da rua:                               -- ALI!

A escassos metros, um pobre velho, não tão velho quanto eu, repousava num banco do jardim, o cansaço de uma vida.      Um pouco mais adiante, um cão, observava-me, sereno e calmamente sentado como se me conhecesse há muito.,,

                                     Tomei imediatamente uma decisão.  Dirigi-me á casa da avó da Mariana..  Pedi-lhe ...abrigo por umas horas, para descansar, que a viagem fora longa..  Não me enganara na porta.... Recebido com carinho, tive um belo cadeirão almofadado e... se eu quisesse - uma cama disponível para descansar umas horas, antes de continuar a caminhada pelas casas dos meninos bons e menos ... afinal " não há rapazes maus..."

                                     E, como era dia 24 de Dezembro, havia um cheirinho doce a Natal que vinha da cozinha.;   umas filhoses,...uns sonhos... e uma ginjinha caseira, aqueceram este corpo enregelado e...adormeci! -
                                     Acordei assarapantado era quase meia noite.   E eu ainda tinha tanto que fazer...
Sorrateiramente escapuli-me deixando algumas lembranças e uma carta de despedida para o Francisco, o Filipe, o Vasco, a Mariana e o Afonso - netos da minha simpática "estalajadeira"- que ainda acreditavam em mim e iam espreitar-me pelo buraco da fechadura, enquanto eu dormia...  pensavam eles que eu não os sentia... e riam do meu ressonar, pondo um dedinho na boca para ninguém fazer barulho.....

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              O que vi durante estes 365 dias que passaram deixou-me triste, acabrunhado.  Eu queria arranjar presentes, mas a CRISE tornou tudo tão dificil!....  E, depois, a minha credibilidade baixou de " rating"... perdi o meu real valor e muitos deixaram de acreditar em mim.

               Decidi aposentar-me.   Chegou  a minha hora.  Vou aguentar-me com a reforma a que os 2012 anos de trabalho me dão direito.  Mesmo com cortes e tudo cá o Pai Natal há-de aguentar-se eternamente,
pois as ilusões dos que ainda são meninos....chegam e sobram.

               Vou, mas vou muito em segredo.  Antes porém, aqui que ninguém nos ouve, quero pedir-vos uma coisa.
                A vida é assim. Uns vão!  Outros vêm!   Em meu lugar ficará a implementar o Natal, Álguém cheio de força e poder nas vossas mentes e nos vossos corações.
               
                 O Menino Jesus que dizem, nasceu neste dia há 2012 anos precisamente quando eu comecei a trabalhar mas que, ao contrário de mim não envelhecerá, irá renascer em cada ano e será sempre o vosso MENINO JESUS!

                 Um beijão do vosso vèlhinho Pai Natal, para todos os meninos do planeta, sem distinção de raças, cores ou credos e em especial para a Mariana que me disse ter uma avó  já vélhina a quem retribuirei, um dia, o inesquecível acolhimento que me deu.

                  E nunca se esqueçam de mim, um velho maroto que baralhava quase sempre as cartas que me
escreviam e depois...olha! os presentes, às vezes saiam trocados.

                  Deixem sempre no vosso " coração de crianças " um cantinho para o eternamente vosso
                 
                                                                                         PAI NATAL
 
                                                                                          Setúbal, 24 de Dezembro de 2012
                                   


domingo, 22 de dezembro de 2013

O MAIS BELO NATAL

O MAIS BELO NATAL

    O pai morrera no mar.  Desesperada, a mãe abandonara-o pequenino e partira.
    Ninguém mais ouviu falar dela.  Recolhido por uns vizinhos, Zé João foi crescendo entre mar e céu, embalado na cadência das ondas..A aldeia era extremamente pobre.  Como ficava um pouco desviada da estrada nacional e os acessos eram difíceis, ali não vinham nunca quaisquer visitantes.  Não chegavam, por assim dizer, notícias de fora.
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    Estava  frio a valer naquela noite!  A chuva caía miudinha e impiedosa a fustigar as tábuas do casebre
em cujas frinchas o vento gemebundo assobiava.  
    Há muito que Zé João adormecera, entregue ao maravilhoso descuido dos seus oito anos fraquitos e espigados.

    Alguém bateu á porta.  Sobressaltada, Ti Zulmira, a pele curtida pela salmoura e os olhos meio encovados, ergueu-se num repente como se temesse qualquer coisa.  Hesitou.  Mas logo, resoluta, foi abrir.
     No limiar da porta mal iluminada pela luz bruxuleante  da candeia recortou-se um vulto de homem ainda
novo. Estava ligeiramente molhado.
   
     - Tiazinha, não há possibilidade de eu passar aqui umas horas? Vou para longe.  Pensei fazer esta viagem de noite.  Não conheço bem a estrada e, na escuridão desviei-me do caminho.  Temo perder-me outra vez e se pudesse ficar aqui...amanhã de manhã, muito cedinho, já poderia seguir viagem.
    - Não poderá  facultar-me o abrigo que necessito?

   -  Entre, meu senhor!  Mas olhe que isto é muito pobre... nem sequer terá uma cama digna para se deitar.

   -  Mas terei um teto a proteger-me da frialdade da noite...
   E entrou!
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 Sentado ao pé do fogo que ardia sobre uma tosca pedra em jeito de lareira, aquele homem contou a sua história.
       Tinha um filhinho doente,  lá para as faldas da serra, a ares.  Ele andava por fora, em serviço mas queria passar com ele o Natal.  O Natal de que o filho tanto gostava.  Levava-lhe brinquedos:  um automóvel de corda, um barquinho de velas brancas...  Como ele ia ficar  contente!  O seu menino.. tão doentinho... lá longe naquela quinta entre pinhais.

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        Embora adormecido, Zé João acabou por se aperceber da presença do desconhecido. Entreabriu os
olhos mas virou-se para o outro lado, recaíu numa quase inconsciência que, no entanto, lhe permitiu apreender uma ou outra palavra da conversa.

        Como seria o Natal em casa daquele homem?  Quem seria o menino de quem falavam?
  Ele nunca tinha tido o seu Natal....

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        Pela frincha mal calafetada que ficava mesmo rente à alcova, Zé João viu brilhar uma estrelinha pequenina... e pareceu-lhe que a estrela  o chamava nessa noite de breu.
       - Zé João!...Zé João!... Vem comigo....
       e o Zé estendeu a mãozinha enregelada pelo frio da noite à estrela escaldante
mas o que ele apertou não foi um raio de luz mas sim outra mãozinha pequenina como a sua.  Zé João estremeceu.
        - Não tenhas medo!  Vem. sou eu que te chamo, o Menino Jesus!.  Também estou sózinho como tu.
Na terra os meninos só se lembram de mim para me pedirem coisas boas mas. ingratos, logo que as- têm
esquecem-me por completo.
         Vem, não tenhas medo. Vamos brincar para casa do meu pai  teremos neve a valer e estrelas verda-
deiras na nossa Árvore de Natal.. e muitos anjinhos loiros...  Vem, Zé João!  Vem por aqui...

       - E terei um barquinho como há na aldeia para eu andar no mar?  Um barco grande para eu me meter dentro?
       - Terás um mais lindo, ainda, com velas branquinhas de luar.
       .  Verdade?
       - Tem fé!  Confia e espera.
       - Mas eu depois não sei conduzi-lo;  sou tão pequenino, ó Jesus...
       . O Pai te guiará... entrega-te à sua guarda e serás grande...
       - Tu tens pai?
       - Tenho!.  Todos nós temos pai, Zé João!....
       - Todos não!  Eu  não tenho...
       - Segue em frente!  Ergue a tua fronte bem alto. Que não tenhas nunca  motivo para a baixares...
       se fores digno e bom, encontrarás teu pai.  Está lá em cima!  ergue-te da lama do mundo!
       - Sobe até Ele e vê-lo-às...

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       - É seu o pequenito?
       -Não, meu senhor!  - e a ti Zulmira contou ao seu hóspede de uma noite, a triste história do pobre
    ZÉ João.
     
       - Como ele dorme!...coitadinho!...  Faz-me lembrar o meu filho.  Parece um anjo.
       - Um anjo?  Assim tisnado, meu senhor?
       - A cor não importa, tiazinha;  olhe como ele sorri mesmo dormindo..... talvez sonhe com o seu Natal.
Com o despertar de amanhã...

      - Natal!!   Ele sabe lá o que isso é, meu senhor? O pobrezinho nunca teve Natal... nunca teve um brinquedo.  Brinca com a areia da praia e com as conchas do mar... e já não é pouco... Somos muito pobres....

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        A manhã era ainda uma criança quando aquele desconhecido se despediu da Ti Zulmira que, pelo atalho o reconduziu à estrada, depois de ter tirado o carro do lameiro onde os pneus da frente se tinham
atolado.
        O motor roncou ao longe na curva da estrada e ti Zulmira, enxugando uma lágrima furtiva, afagou, na palma da mão encarquilhada e seca as moedas que ele lhe dera ao partir.

         Voltou para trás.  Encostada à ombreira da porta carcomida pelos anos, sonhou como poderia ser
diferente para eles aquele dia de Natal se não fossem realmente tão pobres.
         Um gargalhar feliz a despertou.
        - Que é isso, Zé João?
        - Avó...Venha ver!   foi o Jesus quem mo deu..... Eu fui ao Céu esta noite, com Ele, e brinquei muito, avó... e Ele disse-me que me dava  o barquinho....  Não é lindo..avó!?


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         Sobre a manta esburacada do catre, entre papeis coloridos, já rasgados, um pequeno barco alvejava.
       
         Era tarde para lhe agradecer.  Ele há muito que partira.  Mas mesmo  assim, de lágrimas a queimarem-lhe os olhos, ti Zulmira murmurou emocionada:
       
-        -  Que Deus o proteja e lhe cure depressa o filhinho doente.....